Empresas AI first: o que Klarna, Duolingo e Shopify fizeram e o que mudou até 2026
A Klarna disse em 2024 que seu assistente fazia o trabalho de 700 atendentes e em 2025 voltou a recrutar gente. A Duolingo tirou o uso de IA da avaliação de desempenho em abril de 2026.
Redação Aceleração Eficaz · · 7 min de leitura
Empresa AI first é a que testa a IA antes de contratar gente ou fornecedor para uma tarefa. Os casos mais citados são a Shopify e a Duolingo, que adotaram a regra por memorando em abril de 2025, e a Klarna, que em 2024 passou dois terços dos chats a um assistente e em 2025 voltou a recrutar atendentes.
Os memorandos tinham regras parecidas. Antes de pedir vaga ou verba, a equipe prova que a IA não resolve; o uso de IA conta na avaliação de desempenho; e, na Duolingo, terceirizados saem aos poucos das tarefas que a máquina consegue fazer. Até outubro de 2026, a Klarna e a Duolingo tinham recuado em parte do que anunciaram.
As linhas do tempo abaixo usam o que as próprias empresas publicaram em comunicados e relatórios à SEC, a comissão de valores dos Estados Unidos, além de reportagens que citam entrevistas dos executivos.
Klarna: o assistente de 700 atendentes e a volta do humano
A empresa sueca de pagamento parcelado divulgou resultados de atendimento com IA mais de um ano antes dos memorandos das outras duas.
- 27 de fevereiro de 2024: a Klarna anuncia que o assistente feito com a OpenAI teve 2,3 milhões de conversas no primeiro mês, dois terços dos chats de atendimento, e fazia o trabalho equivalente a 700 atendentes em tempo integral. O tempo para resolver um pedido caiu de 11 para menos de 2 minutos, a satisfação do cliente ficou no mesmo nível da obtida por humanos e a empresa estimou ganho de US$ 40 milhões no lucro de 2024.
- 8 de maio de 2025: em entrevista à Bloomberg, o presidente-executivo Sebastian Siemiatkowski diz que o custo pesou demais na decisão e que o resultado foi atendimento de qualidade menor. A empresa começa a recrutar atendentes remotos, num modelo que ele comparou ao da Uber, segundo a CX Dive.
- Fevereiro de 2026: no balanço de 2025, a Klarna informa que a receita por funcionário chegou a US$ 1,24 milhão, 3,6 vezes a de 2022, e que o quadro de pessoal caiu 49%. Pelos números ajustados da empresa, a linha de atendimento ao cliente e operações custou US$ 240 milhões em 2023, US$ 203 milhões em 2024 e US$ 207 milhões em 2025.
- Agosto de 2026: no segundo trimestre, a receita sobe 27%, para US$ 1,042 bilhão, e o custo de atendimento e operações vai de US$ 48 milhões para US$ 57 milhões. Ao explicar as despesas, o relatório cita “AI-enabled productivity gains” e anuncia um aplicativo de busca de compras dentro do ChatGPT.
A conta de 2024 media conversas e minutos. A de 2025 incluiu a qualidade que o cliente percebe, e foi esse o argumento de Siemiatkowski para trazer gente de volta: “As cost unfortunately seems to have been a too predominant evaluation factor when organizing this, what you end up having is lower quality”. Na mesma entrevista, ele disse que o cliente precisa saber que haverá sempre um humano disponível se quiser.
A mesma reportagem traz outro dado. Segundo a CX Dive, um dos objetivos do novo modelo era substituir os milhares de atendentes que a Klarna terceirizava. A IA ficou com o volume simples, e a empresa quis gente própria para o resto.
Duolingo: o memorando de abril de 2025 e o ajuste de 2026
- 28 de abril de 2025: Luis von Ahn, cofundador e presidente-executivo, manda aos funcionários o e-mail que declara a Duolingo AI first e o publica no LinkedIn. A empresa vai deixar aos poucos de usar terceirizados em trabalho que a IA consiga fazer, vai considerar o uso de IA na contratação e na avaliação de desempenho e só vai abrir vaga em equipe que não consiga automatizar o próprio trabalho, segundo a Entrepreneur.
- 30 de abril de 2025: a Duolingo lança 148 cursos de idiomas feitos com IA generativa em menos de um ano. Os primeiros 100 cursos tinham levado cerca de 12 anos, disse von Ahn. Em 2024, a empresa já tinha cortado 10% dos terceirizados, depois de passar traduções para a IA, de acordo com relatos citados pela revista.
- Abril de 2026: no podcast Silicon Valley Girl, von Ahn conta que o uso de IA saiu da avaliação de desempenho, depois que funcionários perguntaram se a empresa queria IA só por querer. A regra de não contratar terceirizado onde a IA dá conta continua.
- 5 de agosto de 2026: no segundo trimestre, a Duolingo tem 58,7 milhões de usuários ativos por dia, alta de 23%, 12,7 milhões de assinantes pagos e receita de US$ 298,5 milhões, 18% acima de um ano antes. A carta aos acionistas atribui parte da margem bruta de 72,6% a “AI cost efficiencies”.
A reação ao memorando nas redes foi negativa, e von Ahn explicou depois, num post no LinkedIn, que não acreditava que a IA fosse substituir o trabalho dos funcionários. A mudança de 2026 foi mais concreta. No podcast, ele resumiu assim o novo critério: “o mais importante no seu desempenho é fazer o seu trabalho, qualquer que seja, o melhor possível. Muitas vezes a IA pode ajudar nisso, mas, se não puder, não vou forçar você a fazer isso” (em tradução livre).
O exemplo que ele deu de IA bem usada foi o curso de xadrez. Duas pessoas que não sabiam jogar nem programar montaram o currículo e o protótipo com IA em cerca de seis meses de 2025. Em abril de 2026 eram 7 milhões de usuários diários, e o xadrez era o curso que mais crescia no aplicativo, segundo von Ahn.
A Entrepreneur registrou valor de mercado acima de US$ 17 bilhões quando o memorando saiu e de US$ 4,3 bilhões em abril de 2026. Nenhuma das duas reportagens atribui a variação a um motivo.
Shopify: provar que a IA não dá conta antes de pedir gente
- 31 de dezembro de 2024: a Shopify informa à SEC que tinha cerca de 8.100 funcionários.
- 7 de abril de 2025: circula na internet o memorando interno de Tobi Lütke, presidente-executivo. Antes de pedir mais gente ou recursos, as equipes precisam mostrar por que a tarefa não pode ser feita com IA, e a competência em IA passa a contar na avaliação de desempenho e na contratação, segundo a Digital Commerce 360.
- 31 de dezembro de 2025: o relatório anual registra cerca de 7.600 funcionários, 500 a menos que um ano antes.
- Agosto de 2026: a receita do segundo trimestre chega a US$ 3,58 bilhões; receita e volume vendido pelos lojistas crescem mais de 30% sobre o mesmo período de 2025.
Duas frases do texto de Lütke ficaram conhecidas. Uma é “Reflexive AI usage is now a baseline expectation at Shopify”, o uso de IA por reflexo como exigência mínima. A outra, “Stagnation is slow-motion failure”, compara ficar parado a fracassar em câmera lenta.
Quadro menor e receita maior aparecem juntos, mas a comparação não separa o efeito da IA de outras decisões da empresa no período. Até outubro de 2026, nenhuma das fontes consultadas para este texto registra mudança nas regras da Shopify.
O que os três casos ensinam a uma empresa pequena
A leitura da Aceleração Eficaz é que a parte útil desses memorandos é a pergunta feita antes de abrir uma vaga, e não a cota de uso. Numa empresa de dez pessoas, a regra da Shopify cabe numa reunião: quando alguém sai ou a demanda cresce, a equipe testa por duas semanas se a IA faz aquela tarefa, anota o resultado e só então decide contratar.
O recuo da Duolingo mostra o risco de medir uso em vez de resultado. Quem é cobrado por usar IA usa IA, mesmo quando a ferramenta atrapalha. O indicador que importa é o do trabalho: tempo de resposta ao cliente, propostas enviadas, erros na nota fiscal. Os estudos sobre ganho de produtividade com IA que mais pesam medem tempo e qualidade da tarefa, e não quantas vezes a ferramenta foi aberta.
Da Klarna fica a lição do atendimento. Um robô pode responder a maior parte das perguntas repetidas, desde que o cliente consiga chegar a uma pessoa quando o caso foge do roteiro. No Brasil isso acontece quase sempre no WhatsApp, e a automação de atendimento no WhatsApp com IA precisa ter essa saída desenhada desde o primeiro dia.
Nos três casos, terceirizados e fornecedores foram os primeiros a sentir a mudança. Na pequena empresa, a mesma conta vale para agência, freelancer e assinatura de software que fazem o que uma ferramenta de IA já faz. Separar o gasto nessas linhas é o que o Raio-X de 90 dias da Aceleração Eficaz mede: gente, plataformas e fornecedores.
Quem está começando do zero encontra os primeiros passos em IA para pequenas empresas: por onde começar. Já o corte de 49% no quadro da Klarna faz parte de uma discussão maior, a das demissões atribuídas à IA, em que nem todo corte anunciado como efeito da tecnologia é o que parece.
Os próximos números saem nesta semana. Shopify e Duolingo divulgam os resultados do terceiro trimestre de 2026 na terça-feira, 3 de novembro, segundo comunicados de 6 de outubro e de 8 de outubro. A Shopify fala antes da abertura do mercado; a Duolingo, depois do fechamento.
Perguntas frequentes
O que é uma empresa AI first?
É a empresa que trata a inteligência artificial como primeira opção antes de contratar gente, terceirizar ou comprar outra ferramenta. Na Shopify e na Duolingo, a regra virou memorando em abril de 2025: a equipe precisa mostrar que a IA não resolve antes de pedir vaga, e o uso de IA entrou na avaliação de desempenho. A Duolingo tirou esse último critério em abril de 2026.
A Klarna substituiu os atendentes por IA?
Em parte. Em fevereiro de 2024, a Klarna disse que seu assistente, feito com a OpenAI, atendia dois terços dos chats e fazia o trabalho de 700 atendentes. Em maio de 2025, o presidente-executivo Sebastian Siemiatkowski admitiu à Bloomberg que o custo pesou demais e a qualidade caiu, e a empresa voltou a recrutar atendentes humanos remotos, com a IA mantida nas perguntas simples.
A Duolingo demitiu funcionários por causa da IA?
O memorando de abril de 2025 tratava de terceirizados: a empresa disse que deixaria aos poucos de usá-los onde a IA desse conta, e em 2024 já tinha cortado 10% deles. Aos funcionários, von Ahn escreveu que a Duolingo continuaria a se importar com eles e, depois da reação negativa, disse no LinkedIn que não via a IA substituindo o trabalho da equipe.
O que diz o memorando de IA da Shopify?
O texto de Tobi Lütke, que circulou em 7 de abril de 2025, diz que usar IA por reflexo passou a ser o mínimo esperado de todos na Shopify. Antes de pedir mais gente ou recursos, as equipes precisam mostrar por que a tarefa não pode ser feita com IA, e a competência no uso de IA passou a contar na avaliação de desempenho e na contratação.
Fontes
- Klarna AI assistant handles two-thirds of customer service chats in its first month · Klarna
- Klarna changes its AI tune and again recruits humans for customer service · CX Dive
- Klarna Q4 2025 earnings release · Klarna, via SEC
- Klarna Q2 2026 earnings release · Klarna, via SEC
- Duolingo Says AI Completed Work in 12 Months that Took Humans 12 Years · Entrepreneur
- Duolingo's CEO Sparked Backlash Over Performance Reviews. Now He's Changing Them · Entrepreneur
- Duolingo Q2 2026 Shareholder Letter · Duolingo, via SEC
- Internal memo: Shopify CEO declares AI 'non-optional' · Digital Commerce 360
- Shopify Inc. Form 10-K, ano fiscal de 2024 · Shopify, via SEC
- Shopify Inc. Form 10-K, ano fiscal de 2025 · Shopify, via SEC
- Shopify revenue, GMV each grow +30% in Q2 2026 · Digital Commerce 360
- Shopify to Announce Third-Quarter 2026 Financial Results · Shopify, comunicado via GlobeNewswire (Finviz)
- Duolingo to Announce Third Quarter 2026 Results on Tuesday, November 3, 2026 · Duolingo, comunicado via GlobeNewswire (Finviz)