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A IA vai substituir empregos? O que dizem FMI, OIT, Stanford e FGV

Os grandes estudos não mostram desemprego em massa, mas apontam o mesmo grupo atingido primeiro, nos Estados Unidos e no Brasil: os jovens em início de carreira.

Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura

A IA vai substituir tarefas de muitos empregos e alguns cargos inteiros, mas os grandes estudos publicados entre 2023 e 2026 não registram desemprego em massa. O FMI calcula que 40% dos empregos do mundo estão expostos à IA. A OIT põe só 3,3% no grau mais alto de exposição. No Brasil, o efeito já aparece entre os jovens.

A distância entre esses números vem do que cada pesquisa mede. Uma conta quantas tarefas a máquina conseguiria fazer, outra pergunta aos empregadores o que pretendem fazer, uma terceira olha a folha de pagamento depois que o ChatGPT chegou. Este texto põe os sete levantamentos mais citados lado a lado e termina no que uma empresa pequena consegue medir dentro de casa.

Quantos empregos a IA pode afetar, segundo cada estudo?

A tabela resume o número principal de cada fonte. Os links para os relatórios estão no texto e na lista de fontes ao fim da página.

FonteDataO que medeNúmero principal
Goldman Sachsabril de 2023Tarefas de mais de 900 ocupações que a IA generativa poderia automatizarO equivalente a 300 milhões de empregos em tempo integral expostos à automação no mundo
FMIjaneiro de 2024Empregos expostos à IACerca de 40% no mundo e 60% nas economias avançadas
Banco Mundial e OITjulho de 2024América Latina e CaribeDe 26% a 38% dos empregos expostos; de 2% a 5% em risco de automação total
Fórum Econômico Mundialjaneiro de 2025Planos de mais de mil empregadores até 2030170 milhões de vagas criadas e 92 milhões extintas, saldo de 78 milhões
OITmaio de 2025Exposição de 29.753 tarefas à IA generativaUm em cada quatro trabalhadores com alguma exposição; 3,3% no grau mais alto
FGV Ibrefevereiro de 2026Ocupados no Brasil, pela PNAD Contínua do IBGE29,6% dos ocupados expostos, quase 30 milhões de pessoas
Universidade Stanfordagosto de 2026Folha de pagamento de milhões de americanos até junho de 2026Emprego de jovens de 22 a 25 anos nas ocupações expostas 19% abaixo do esperado

Exposição quer dizer que o emprego vai acabar?

Na maior parte dos casos, não. Um emprego está exposto quando parte relevante das suas tarefas pode ser feita ou acelerada por IA. Isso inclui o cargo em que a ferramenta substitui a pessoa e o cargo em que ela só tira o trabalho chato da frente. A própria Goldman Sachs, autora do número mais alarmante, estima que dois terços das ocupações americanas têm alguma exposição, mas que nelas a máquina assumiria de um quarto à metade da carga de trabalho. O banco lembra que nem todo trabalho automatizado vira demissão.

O FMI faz a mesma separação. No texto em que a diretora-gerente Kristalina Georgieva apresentou o estudo, em 14 de janeiro de 2024, o fundo diz que cerca de metade dos empregos expostos pode ganhar produtividade com a IA. Na outra metade, a tecnologia pode executar tarefas centrais hoje feitas por pessoas, o que tende a baixar salários e reduzir contratações.

A OIT foi a mais minuciosa. O índice refinado publicado em maio de 2025 avaliou 29.753 tarefas, com uma pesquisa feita com 1.640 pessoas e 52.558 pontos de dados. O resultado: um em cada quatro trabalhadores do mundo está em ocupação com alguma exposição à IA generativa, mas só 3,3% estão no gradiente mais alto. Entre as mulheres, esse grau máximo atinge 4,7% do emprego, contra 2,4% entre os homens. Nos países de renda alta, a exposição total chega a 34% dos empregos; nos de renda baixa, a 11%. A conclusão do relatório, em tradução livre: a transformação dos empregos é o impacto mais provável.

A diferença entre o número do FMI e o da OIT, portanto, é de régua. Os 40% contam qualquer contato relevante com a tecnologia. Os 3,3% contam só as ocupações em que a maioria das tarefas tem exposição alta, sem exceções que segurem o cargo.

Quem já perdeu espaço para a IA?

O dado mais concreto vem dos Estados Unidos. Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, do Laboratório de Economia Digital de Stanford, cruzaram dados de folha de pagamento da ADP, empresa que processa salários de milhões de americanos. A versão revisada do estudo Canaries in the Coal Mine?, de 12 de agosto de 2026, usa dados até junho de 2026 e não encontra deslocamento amplo de empregos na economia.

O problema está na entrada da carreira. O emprego de jovens de 22 a 25 anos nas ocupações expostas está 19% abaixo do que estaria se tivesse acompanhado o dos colegas menos expostos. Trabalhadores experientes não mostram diferença parecida. Segundo os autores, o efeito vem de menos contratações de jovens, e não de mais demissões. A queda se concentra onde a IA substitui tarefas; onde ela complementa o trabalho, o emprego fica estável ou cresce.

Os próprios pesquisadores listam limites: os padrões ficam mais fracos quando se controla a escolaridade, algumas tendências já existiam antes da IA generativa e o efeito é maior na amostra da ADP do que nas pesquisas nacionais.

E no Brasil, o que os dados mostram?

O retrato mais recente saiu do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. Num estudo citado pelo economista Daniel Duque, Paulo Peruchetti, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Janaína Feijó aplicaram o índice da OIT às ocupações brasileiras. No terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de pessoas, ou 29,6% dos ocupados, trabalhavam em ocupações com algum grau de exposição. Cerca de 5,2 milhões estavam no gradiente mais alto. A exposição é maior entre mulheres, jovens, pessoas com mais escolaridade, moradores do Sudeste e trabalhadores de serviços, com destaque para informação, comunicação e finanças.

O mesmo levantamento recorre a dados do FMI para separar dois grupos de tamanho parecido. Cerca de 20% dos ocupados combinam alta exposição com baixa complementaridade, o grupo mais vulnerável. Pouco mais de 20% combinam alta exposição com alta complementaridade, onde a IA tende a elevar produtividade e salário.

Duque deu o passo seguinte no Blog do Ibre, em fevereiro de 2026. Com a PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2022 ao segundo de 2025, comparou grupos mais e menos expostos antes e depois da difusão da IA generativa. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a probabilidade de estar ocupado e a renda dos perfis mais expostos caíram em relação ao período base, com piora ao longo de 2024 e 2025. Para as faixas de 30 a 44 e de 45 a 59 anos, os efeitos ficaram perto de zero. O autor escreve que os resultados “devem ser lidos com cautela”, porque o índice mede potencial de exposição e a janela de dados ainda é curta.

É o mesmo desenho visto em Stanford, com dados de outro país e outro método. Para a região inteira, o Banco Mundial e a OIT estimaram em 2024 que até metade dos empregos que poderiam ganhar produtividade com IA na América Latina e no Caribe, cerca de 17 milhões de vagas, esbarra na falta de acesso digital e de infraestrutura.

Quais são os planos das empresas até 2030?

O Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, ouviu mais de mil empregadores que somam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias. Até 2030, eles projetam 170 milhões de vagas criadas e 92 milhões extintas. Ao mesmo tempo, 41% esperam reduzir equipes à medida que a IA passa a reproduzir funções, e 85% pretendem requalificar quem fica. Entre as funções que mais encolhem estão caixas, auxiliares administrativos, digitadores e escriturários de contabilidade. A análise completa, com o perfil do Brasil, está no nosso texto sobre o futuro do trabalho segundo o Fórum Econômico Mundial.

A leitura da Aceleração Eficaz é que a conta nacional ajuda pouco o dono de uma empresa com dez funcionários. A pergunta prática é qual tarefa a IA tira de qual pessoa, quanto tempo isso libera e o que essa pessoa passa a fazer. Os estudos de Stanford e da FGV mostram o risco de errar essa conta: cortar a porta de entrada economiza hoje e deixa a empresa sem gente treinada daqui a cinco anos. Os casos de corte de pessoal atribuídos à IA estão reunidos no texto sobre IA e demissões.

O que uma empresa pequena pode medir antes de decidir?

Os mesmos critérios que a OIT usou para pontuar tarefas servem, em escala menor, para uma empresa de cinco ou cinquenta pessoas.

  1. Horas por tarefa: durante duas semanas, anote quanto tempo a equipe gasta em atendimento, propostas, conteúdo, cobrança e rotinas financeiras. Sem esse número, nenhum ganho pode ser provado depois.
  2. Quanto de cada tarefa segue regra fixa: responder a mesma pergunta, preencher a mesma planilha e copiar dados de um sistema para outro são as partes que a IA já faz bem. Negociar, decidir exceção e atender cliente irritado continuam com gente.
  3. Erro e retrabalho: meça quantas entregas voltam para correção antes e depois de usar uma ferramenta. A IA ainda erra fatos e números e precisa de revisão humana.
  4. As três linhas de custo: gente, plataformas e fornecedores. É o que o Raio-X de 90 dias da Aceleração Eficaz mede antes de propor qualquer automação.
  5. A porta de entrada: liste as tarefas que hoje ensinam o ofício a quem acabou de chegar e decida como o próximo contratado vai aprender se elas forem automatizadas.
  6. Dados pessoais: verifique quais tarefas lidam com dados de clientes e funcionários, que pela LGPD exigem cuidado na escolha da ferramenta.

Com esses seis números na mão, a decisão deixa de ser uma aposta sobre o futuro do emprego e vira uma conta de horas. Quem quiser ver o efeito por profissão encontra o cruzamento das listas do Fórum com advogados, contadores e designers no texto sobre as profissões que a IA pode substituir.

Perguntas frequentes

Quantos empregos a IA vai substituir?

Nenhum estudo sério dá um número de empregos que vão desaparecer. O FMI calcula que 40% dos empregos do mundo estão expostos à IA, e a OIT, que 3,3% estão no grau mais alto de exposição, onde a maioria das tarefas da ocupação tem exposição alta. O Fórum Econômico Mundial projeta 92 milhões de vagas extintas e 170 milhões criadas até 2030, pelos planos dos empregadores.

Quais profissões correm mais risco com a IA?

As que concentram tarefas repetitivas de escritório. O Fórum Econômico Mundial lista caixas, auxiliares administrativos, digitadores, escriturários de contabilidade e atendentes de banco entre as funções que mais encolhem até 2030. Em Stanford e na FGV, o grupo mais atingido até agora é o dos jovens, e a FGV liga o efeito a tarefas padronizadas, comuns na entrada de carreiras administrativas e de apoio.

A IA já está tirando empregos no Brasil?

Os primeiros sinais apareceram entre os jovens. Daniel Duque, do Ibre da FGV, encontrou com dados da PNAD Contínua até o segundo trimestre de 2025 uma queda relativa na ocupação e na renda de trabalhadores de 18 a 29 anos nos perfis mais expostos à IA generativa. Entre 30 e 59 anos, o efeito ficou perto de zero. O autor pede cautela, porque a janela de dados ainda é curta.

Qual a diferença entre emprego exposto e emprego substituído?

Um emprego está exposto quando uma parte relevante das tarefas daquela ocupação pode ser feita ou acelerada por inteligência artificial. Exposição não é sinônimo de demissão. O FMI estima que cerca de metade dos empregos expostos pode ganhar produtividade com a tecnologia, e a OIT conclui que a transformação das funções é o efeito mais provável. O risco de perda é maior onde a IA substitui tarefas em vez de complementar o trabalho.

Fontes

  1. AI Will Transform the Global Economy. Let's Make Sure It Benefits Humanity · FMI, Kristalina Georgieva, 14 de janeiro de 2024
  2. Generative AI could raise global GDP by 7% · Goldman Sachs, 5 de abril de 2023
  3. Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure (Working Paper 140) · Organização Internacional do Trabalho, maio de 2025
  4. Generative AI and Jobs in Latin America and the Caribbean: Is the Digital Divide a Buffer or Bottleneck? · Banco Mundial e OIT, 31 de julho de 2024
  5. Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence · Stanford Digital Economy Lab, Brynjolfsson, Chandar e Chen, revisão de 12 de agosto de 2026
  6. Inteligência artificial generativa e mercado de trabalho no Brasil: evidências iniciais sobre ocupação e renda · Blog do Ibre (FGV), Daniel Duque, fevereiro de 2026
  7. Inteligência artificial generativa e mercado de trabalho no Brasil (PDF) · FGV Ibre, Daniel Duque
  8. The Future of Jobs Report 2025 · Fórum Econômico Mundial, janeiro de 2025

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