Semana de 4 dias no Brasil: o que o piloto mediu e onde a IA entra na conta
Os resultados das 19 empresas do teste brasileiro, a régua do Reino Unido e de Portugal, o que a emenda do fim da 6x1 muda e por que automatizar não basta para tirar um dia da semana.
Redação Aceleração Eficaz · · 9 min de leitura
Dezenove empresas testaram a semana de 4 dias no Brasil em 2024, no piloto da 4 Day Week Brazil com a Reconnect e a FGV. A jornada média caiu de 42,8 para 36,5 horas sem corte de salário, e 97,5% dos participantes querem continuar. A Emenda 141, de 2026, não cria os quatro dias: baixa o teto para 40 horas.
O teste seguiu o modelo 100-80-100 da organização internacional 4 Day Week Global: 100% do salário, 80% das horas e a meta de manter 100% da produtividade. Cada empresa podia adaptar o formato, desde que mantivesse o salário e cortasse horas de forma significativa. Depois de uma fase de preparação no segundo semestre de 2023, com aulas e assessoria jurídica, 21 empresas e cerca de 280 pessoas começaram em janeiro de 2024. Uma empresa do Rio Grande do Sul saiu depois da enchente. Outra pausou com a troca de direção. Chegaram ao fim, em julho, 19 empresas e 252 trabalhadores.
A lista reúne negócios de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba: o Hospital Indianópolis, o escritório Clementino & Teixeira Advocacia, a GR Assessoria Contábil, a Rede Alimentare e empresas de comunicação, design e tecnologia. Os questionários vieram da equipe do Boston College coordenada por Juliet Schor, a mesma base usada nos pilotos de outros países, e a análise ficou com os pesquisadores Paul Ferreira e Fernando Deodato Domingos, da FGV-EAESP. Entre as seis sessões de acompanhamento havia oficinas sobre melhorias com inteligência artificial.
O que o piloto brasileiro mediu, número por número
A comparação usa dois questionários respondidos pelas mesmas equipes, um em dezembro de 2023, antes da mudança, e outro em julho de 2024. A tabela reúne os resultados do relatório final, publicado em agosto de 2024.
| Medida | Resultado no piloto |
|---|---|
| Jornada semanal média | 42,8 horas em dezembro de 2023; 36,5 horas em julho de 2024 |
| Energia para as tarefas | 87,4% dos participantes relataram mais energia |
| Exaustão frequente por causa do trabalho | caiu 72,8% |
| Insônia e outros problemas de sono | recuo de 49,6% |
| Ansiedade semanal no trabalho | 30,5% menor |
| Estresse semanal no trabalho | queda de 14,5% |
| Horas de sono por noite | subiram de 6,7 para 7,0 |
| Produtividade percebida | maior para 71,5% |
| Volume de trabalho | constante para 77,9% |
| Ritmo de trabalho | acelerou para 48,2%; estável para 46,6% |
| Pressão no trabalho | igual para 65,6%; maior para 20,1% |
| Receita do 1º semestre de 2024 contra o de 2023 | cresceu em 72,7% das empresas |
| Lucro no mesmo período | subiu em 63,6% das empresas |
| Contratação extra para cobrir a folga | nenhuma em 66,7% das empresas |
Os números de bem-estar são fortes. Os de carga, mais ambíguos. Quase metade sentiu o ritmo acelerar e um em cada cinco relatou mais pressão, sinal de que parte das horas sumiu porque o trabalho foi comprimido, e não eliminado. Em atendimento ao cliente e em operações que pedem cobertura contínua, as empresas precisaram montar escalas diferenciadas e, em alguns casos, contratar. Nas entrevistas apareceu um efeito curioso: a queda de rendimento típica da sexta-feira passou para a quinta.
Sobre dinheiro, o próprio relatório pede cautela. A alta de receita e de lucro no semestre "não pode ser atribuída exclusivamente à implementação da semana de 4 dias", diz o texto, e não houve grupo de controle. São empresas que se inscreveram porque queriam testar, e as respostas de saúde são autodeclaradas. O piloto mostra que o modelo funcionou nesse grupo. Não prova que funcione em qualquer lugar.
Quantas empresas ficaram com os quatro dias
Ao fim dos seis meses, cada empresa escolheu entre manter, estender o teste, ajustar ou voltar ao formato antigo. Entre as que responderam, 46,2% mantiveram a redução exatamente como foi testada e 38,5% estenderam o piloto para medir por mais tempo. Uma fatia de 7,7% planeja levar o modelo a outras equipes, e outra igual estuda mudar o desenho, com uma folga a cada quinze dias, por exemplo. A volta ao calendário anterior não aparece nas respostas.
Do lado dos trabalhadores, 97,5% gostariam que a semana curta continuasse. Para 40,4%, só um aumento acima de 50% compensaria voltar aos cinco dias, e 16,7% disseram que não trocariam de emprego por valor nenhum se isso significasse a semana cheia. Entre os líderes, 84,6% avaliaram que a participação trouxe benefícios para a empresa.
Um ano depois do início, o relatório de acompanhamento, de dezembro de 2024, voltou às 19 empresas, com 243 trabalhadores e taxa de resposta de 66,7%. A média semanal saiu de 43 horas em dezembro de 2023 para 35 horas. A meta de 32 horas, admite o texto, ainda não foi atingida na média. A satisfação com o trabalho chegou a 88,7%, 83,3% das organizações relataram melhora nos processos internos e 42,8% dos trabalhadores seguiam dizendo que só voltariam aos cinco dias com aumento acima de 50%.
Reino Unido e Portugal, os testes que serviram de régua
O teste britânico, de junho a dezembro de 2022, foi o maior feito até então: 61 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores, com a 4 Day Week Global e o centro de estudos Autonomy. No balanço divulgado em fevereiro de 2023, 56 empresas, ou 92%, seguiram com a semana curta, 18 delas de forma permanente. Entre os funcionários, 39% disseram estar menos estressados e 71% relataram menos esgotamento. As saídas de pessoal caíram 57%. A receita ficou praticamente estável, com alta média de 1,4% ponderada pelo tamanho das empresas, e 15% dos trabalhadores afirmaram que nenhum valor os faria voltar aos cinco dias.
Portugal fez a versão com apoio do governo. O teste, coordenado pelo economista Pedro Gomes, da Birkbeck, Universidade de Londres, e por Rita Fontinha, da Henley Business School, começou em junho de 2023 com 41 empresas privadas e mais de mil trabalhadores. A adesão era voluntária, sem corte de salário e sem compensação financeira do Estado. No balanço dos seis meses, divulgado pelo governo português, a semana média caiu de 39,3 para 34 horas e 95% das empresas avaliaram a experiência como positiva. Os sintomas de exaustão recuaram 19%, os de ansiedade, 21%. A parcela de trabalhadores com dificuldade para conciliar emprego e família foi de 46% para 8%.
O relatório final português, de junho de 2024, trouxe o dado mais útil para quem pensa em IA. Ele acompanha as 21 empresas que começaram a testar a semana curta em junho de 2023, e só quatro voltaram aos cinco dias, segundo o jornal ECO. Entre as que mudaram dois ou mais processos, como reuniões, trabalho em equipe e adoção de tecnologia, 92% mantiveram os quatro dias. Entre as que não mudaram nada, 62%.
A emenda do fim da escala 6x1 e o que ela muda
A PEC do fim da escala 6x1 virou a Emenda Constitucional 141. A Câmara aprovou o texto em dois turnos em 27 de maio de 2026, por 472 a 22 e 461 a 19. Venceu o substitutivo de Leo Prates (Republicanos-BA) para a PEC 221/2019, de Reginaldo Lopes (PT-MG), e a PEC 8/2025, de Érika Hilton (Psol-SP). As duas propostas originais pediam 36 horas, e a de Érika Hilton as distribuía em quatro dias. O Senado aprovou por 75 a 1 em 14 de outubro, e o Congresso promulgou a emenda dois dias depois.
O artigo 7º da Constituição passa a fixar 8 horas por dia e 40 por semana, com dois dias de descanso remunerado, um deles de preferência no domingo. A redução vale para os contratos em vigor e proíbe qualquer corte de salário, inclusive nos pisos. O corte vem em degraus: 42 horas dois meses após a publicação e 40 horas um ano depois disso. Quem tem diploma de nível superior e ganha duas vezes e meia o teto do INSS ou mais fica fora das regras de controle de jornada, salvo acordo. Para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte, uma lei complementar poderá criar medidas de transição, condicionadas à manutenção do emprego.
Nada disso cria a semana de quatro dias. Quarenta horas em cinco dias de oito é a escala 5x2. Para trabalhar quatro dias, a empresa precisa reduzir a jornada para 32 horas, como no piloto, ou concentrar as 40 em dias de dez horas. A segunda via depende de acordo: a emenda manteve a compensação de horários, e a CLT, no artigo 59, limita a compensação a dez horas diárias.
O alcance também tem fronteira. A emenda mexe no contrato com carteira, e quem trabalha por conta própria segue fora dela. Esse grupo teve a maior jornada do país no primeiro trimestre de 2026, 45 horas semanais em média, contra 39,2 horas no conjunto dos ocupados, segundo a PNAD Contínua do IBGE noticiada pela Agência Brasil.
Onde a IA entra na conta das horas
O relatório brasileiro permite medir algo que pouca gente olha: de onde saíram as horas. No fim do piloto, 46,6% dos participantes usavam ferramentas de tecnologia e inteligência artificial para automatizar tarefas repetitivas. Só 37,8% questionavam tarefas ou reuniões dispensáveis, e 31,8% tinham cortado reuniões sem pauta. A automação andou mais rápido que a faxina.
Um ano depois, o desenho se repetiu. Tecnologia e automação apareceram para 52,3% dos trabalhadores, contra 40,4% que questionavam atividades dispensáveis e 39,1% que reduziram o tempo em reuniões. A média de horas parou em 35, três acima da meta. Os dados de Portugal apontam na mesma direção: a semana curta sobreviveu muito mais onde as empresas mudaram processos do que onde só encurtaram o calendário.
A leitura da Aceleração Eficaz é que a IA paga a sexta-feira livre quando entra depois do corte, e não no lugar dele. Automatizar um relatório que ninguém lê economiza minutos de algo que deveria sumir; a hora volta quando a tarefa sai da lista e a máquina assume o que sobrou. Os estudos reunidos em produtividade com IA: o que os estudos mostram trazem ganhos em tarefas bem delimitadas e perdas fora delas, o que reforça a ordem: primeiro decidir o que fica, depois automatizar. Separar o que some, o que vai para a máquina e o que fica com as pessoas é o que o Raio-X de 90 dias da Aceleração Eficaz mede: gente, plataformas e fornecedores.
A conta é antiga. Em 1930, Keynes previu a semana de 15 horas para os netos, contando que a produtividade faria o serviço sozinha; ela cresceu, e as horas não caíram no mesmo ritmo. Para negócios pequenos, que podem ganhar regras de transição próprias, o ponto de partida está em IA para pequenas empresas. A pergunta sobre quantas vagas a automação fecha no caminho fica com a IA vai substituir empregos? e com as projeções do Fórum Econômico Mundial.
O primeiro degrau chega em 16 de dezembro de 2026, quando o teto cai para 42 horas e o segundo dia de folga passa a valer. As 40 horas entram em 16 de dezembro de 2027.
Perguntas frequentes
Como foi o piloto da semana de 4 dias no Brasil?
Foi um teste de seis meses, de janeiro a julho de 2024, organizado pela 4 Day Week Brazil e pela Reconnect, com análise da FGV-EAESP. Começaram 21 empresas e 19 terminaram, com 252 trabalhadores. A jornada média caiu de 42,8 para 36,5 horas sem corte de salário, a exaustão frequente recuou 72,8% e 97,5% dos participantes disseram querer que o modelo continuasse.
O fim da escala 6x1 criou a semana de 4 dias?
Não. A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro de 2026, fixa 40 horas semanais e dois dias de descanso, o que na prática leva à escala 5x2. O teto cai para 42 horas em 16 de dezembro de 2026 e para 40 horas um ano depois. A semana de quatro dias continua sendo escolha de cada empresa ou fruto de acordo coletivo.
A CLT permite trabalhar quatro dias por semana?
Permite, de duas formas. A empresa pode reduzir a jornada mantendo o salário, como fizeram as participantes do piloto, que miravam 32 horas. Ou pode concentrar as horas em menos dias por compensação, prevista na Constituição e no artigo 59 da CLT, que depende de acordo e limita o dia a dez horas. Quarenta horas em quatro dias encostam exatamente nesse limite.
Onde a inteligência artificial ajuda a cortar horas?
Nas tarefas repetitivas que sobram depois de uma revisão do trabalho. No piloto brasileiro, 46,6% dos participantes usavam tecnologia e IA para automatizar rotinas, mas só 37,8% questionavam tarefas e reuniões dispensáveis. Um ano depois, a média parou em 35 horas, acima da meta de 32. Em Portugal, a semana curta durou mais nas empresas que mudaram processos de trabalho.
Fontes
- Relatório final do piloto da semana de 4 dias no Brasil · 4 Day Week Brazil, Reconnect e FGV-EAESP, agosto de 2024
- Resultado 1 ano depois: semana de 4 dias no Brasil · 4 Day Week Brazil, Reconnect e FGV-EAESP, dezembro de 2024
- Semana de 4 dias: empresas relatam diminuição de estresse e aumento de produtividade · FGV EAESP
- The results are in: the UK's four-day week pilot · Autonomy, fevereiro de 2023
- 95% das empresas avaliam positivamente experiência da semana de quatro dias · Governo de Portugal, dezembro de 2023
- Maioria das empresas que testaram semana de quatro dias decidiu não voltar atrás · ECO, 24 de junho de 2024
- Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026 · Presidência da República, Planalto
- Câmara aprova em dois turnos fim da escala 6x1 com jornada máxima de 40 horas semanais · Agência Câmara de Notícias, maio de 2026
- Congresso promulga o fim da escala 6x1 e aposentadoria de agentes de saúde · Agência Senado, 16 de outubro de 2026
- Consolidação das Leis do Trabalho, texto compilado (art. 59) · Presidência da República, Planalto
- Trabalhadores por conta própria têm maiores jornadas no país · Agência Brasil, maio de 2026