d/acc de Vitalik Buterin: o que é e como difere do e/acc
Do ensaio de novembro de 2023 à pausa de 90% a 99% da computação proposta em 2025: como o cocriador do Ethereum separou a sua aceleração da de Beff Jezos e Andreessen
Redação Aceleração Eficaz · · 11 min de leitura
O d/acc é a versão do tecno-otimismo que Vitalik Buterin, cocriador do Ethereum, publicou em 27 de novembro de 2023: acelerar a tecnologia, mas dar prioridade à que fortalece a defesa contra o ataque e não entrega mais poder a uma autoridade central. O "d" vale por defesa, descentralização, democracia e diferencial.
Buterin nasceu em 31 de janeiro de 1994 em Kolomna, na Rússia, e foi com os pais para o Canadá aos seis anos. Descreveu o Ethereum num white paper em novembro de 2013, largou a universidade em 2014 com uma bolsa de US$ 100 mil da Thiel Fellowship e pôs a rede no ar em 2015, com Gavin Wood, Charles Hoskinson, Anthony Di Iorio e Joseph Lubin, segundo a Wikipédia. As ideias de d/acc saíram todas do blog pessoal dele.
O ensaio que respondeu ao manifesto de Andreessen
"My techno-optimism" abre citando o manifesto tecno-otimista de Marc Andreessen, publicado pela a16z seis semanas antes, em 16 de outubro de 2023. No mesmo mês do ensaio, a OpenAI demitiu e recontratou Sam Altman, e Buterin trata a briga como o mesmo debate encenado de outro jeito. Sobre o tecno-otimismo, sua frase de abertura é: "My own feelings about techno-optimism are warm, but nuanced."
A nuance cabe numa linha do texto: "not just magnitude but also direction matters". Buterin rejeita manter o mundo como está, só que "with less greed and more public healthcare", mas diz que certos tipos de tecnologia melhoram o mundo de forma muito mais confiável que outros, e que a busca do lucro sozinha não chega a eles.
Um diagrama do ensaio põe a diferença em três desenhos. O antitecnologia vê "safety behind, dystopia ahead". O acelerador vê "dangers behind, utopia ahead". Buterin desenha a terceira posição: "dangers behind, but multiple paths forward ahead: some good, some bad". O passado foi perigoso e voltar não resolve, mas existe mais de um caminho adiante, e alguns dão errado.
Por que um mundo que favorece a defesa é melhor
A tese central está numa frase: "A defense-favoring world is a better world". O ganho óbvio é morrer menos gente e destruir menos riqueza. O menos óbvio, segundo Buterin, é político: onde defender é fácil, formas de governo mais abertas e livres sobrevivem com mais facilidade.
O exemplo é a Suíça, vista, lembra ele, como o mais perto que o mundo real chegou de uma utopia liberal clássica, com cantões fortes, referendos e moradores que nem sabem quem é o presidente. Parte da explicação seria o relevo. Zomia, descrita por James C. Scott em "The Art of Not Being Governed", também se manteve livre graças às montanhas; as estepes da Eurásia seriam o oposto.
A segunda base vem do próprio Ethereum. O cliente Prysm, que rodava em mais de 70% da rede, caiu para menos de 45% depois de um esforço da comunidade contra a concentração. Buterin insiste que não houve mágica de mercado: "it's the result of human intention and coordinated action". Com IAs superinteligentes agindo por conta própria, escreve, a situação seria ainda mais instável.
Quatro frentes de defesa
As tecnologias defensivas aparecem em quatro áreas:
- Defesa física macro: infraestrutura resiliente. Buterin lembra que a maior parte das mortes de uma guerra nuclear viria da quebra das cadeias de suprimento e cita o Starlink, que manteve a Ucrânia conectada por um ano e meio.
- Defesa física micro, ou biodefesa: filtragem do ar, irradiação far-UVC, testes baratos, máscaras. A Balvi, criada com um ganho inesperado em moedas Shiba Inu em 2021, financia projetos assim e exige que sejam de código aberto.
- Ciberdefesa: blockchains e criptografia.
- Defesa da informação: o Community Notes, que exibe as notas aprovadas por usuários de todo o espectro político, e não as mais populares, e os mercados de previsão.
Cinco pessoas num conselho e nove enquetes
A parte sobre IA começa pela OpenAI. A estrutura da empresa parecia a Buterin uma tentativa bem-intencionada de criar freios, mas a demissão de Altman a fez parecer um fracasso completo: o poder ficou com "an undemocratic and unaccountable board of five people", que decidiu com base em informação secreta e se recusou a explicar seus motivos até os funcionários ameaçarem sair em massa.
Depois vêm enquetes que ele fez no Twitter: IA avançada monopolizada por uma entidade com dez anos de vantagem, ou atrasada dez anos para todos? Em nove de nove, a maioria preferiu o atraso, fosse o monopólio de uma empresa, de um governo ou de um órgão multinacional. Em sete, o atraso venceu por pelo menos dois a um, em amostras pequenas, como ele reconhece.
O recado vai para a regulação em voga em 2023, baseada em licenças que restringem o desenvolvimento a pouca gente. Para Buterin, essas propostas de cima para baixo podem até reduzir o risco de extinção, mas aumentam a chance de um travamento permanente num totalitarismo centralizado.
O e/acc e o d/acc, ponto por ponto
Os dois rótulos andam juntos desde 2023 porque o d/acc nasceu como resposta ao aceleracionismo efetivo, o e/acc. A tabela junta o que cada lado escreveu até outubro de 2026.
| Ponto | e/acc | d/acc |
|---|---|---|
| Origem | Perfis anônimos no Twitter, em 2022 | Ensaio de Buterin de 27 de novembro de 2023 |
| Rosto público | Guillaume Verdon, o Beff Jezos, identificado pela Forbes em 1º de dezembro de 2023 | Vitalik Buterin, cocriador do Ethereum |
| O que acelerar | Tecnologia e capital em geral, rumo a uma "technocapital singularity" | A tecnologia que favorece a defesa e não concentra poder |
| Risco da IA | Os pessimistas seriam "instrumental to forces of evil and civilizational decline", disse Jezos à Forbes | Superinteligência construída do jeito errado pode levar à ruína ou à perda irreversível de poder dos humanos |
| Regulação | Hostilidade; o manifesto de Andreessen chama o princípio da precaução de "deeply immoral" | Responsabilidade civil primeiro; pausa global do hardware só em caso extremo; tratado sobre os chips mais avançados |
| Tecnologia militar | Entusiasmo, na descrição de Buterin | Ambivalência em 2023; em 2025, atores ligados a militares vistos como a principal fonte de risco |
| Código aberto | A favor, para que a IA não fique "in the hands of a single company", nas palavras de Verdon | A favor, mas sem acelerar a fronteira da IA só porque ela é aberta |
Buterin não trata o e/acc como inimigo. No mesmo ensaio, escreveu que, para quem é e/acc, o d/acc é "a subspecies of e/acc", só que "much more selective and intentional". Para o altruísta eficaz, seria uma nova embalagem da ideia de "differential technology development", com mais peso em valores liberais e democráticos. As quatro posições lado a lado estão em e/acc, altruísmo eficaz, d/acc e doomers.
Os dois lados reivindicam a descentralização. Guillaume Verdon, o Beff Jezos, disse à Forbes: "If you're interested in safety, decentralization and freedom is kind of the way to go". Em 2025, Buterin chamou a aceleração descentralizada sem foco na defesa de "be an e/acc, but decentralized" e disse que ela não resolve o problema de fundo: num ambiente em que o ataque leva vantagem, sobra o risco de catástrofe ou de alguém se instalar no topo como protetor.
A leitura da Aceleração Eficaz é que a tabela mostra mais acordo do que a briga nas redes sugere: os dois lados defendem código aberto e desconfiam de um comitê pequeno decidindo o rumo da IA. A divergência está na pergunta que Buterin deixou no fim do texto de 2023: "what is the thing that we are accelerating towards?"
Um ano depois, um dia inteiro na Devcon
Em 5 de janeiro de 2025, Buterin publicou "d/acc: one year later". O texto conta que, no outono de 2024 no hemisfério norte, a Devcon, conferência de desenvolvedores do Ethereum, teve o primeiro evento relevante do movimento, o "d/acc Discovery Day", com um dia inteiro de palestras sobre biodefesa, defesa física, ciber, informação e neurotecnologia.
A abertura é uma ficção situada em 2042. Uma nova pandemia surge, mercados de previsão dão 60% de chance de pelo menos 10 mil casos, e o medidor de ar de bolso do leitor recebe uma atualização para detectar o vírus. As duas ameaças anteriores, conta a história, tinham sido barradas cedo pelo monitoramento do esgoto e pela análise aberta de redes sociais.
A definição ganhou forma mais longa: "decentralized and democratic differential defensive acceleration". Construir tecnologias que desloquem o equilíbrio entre ataque e defesa para o lado da defesa, sem entregar mais poder a autoridades centrais. Para Buterin, as duas metades se ligam: estruturas democráticas e liberais prosperam quando defender é fácil e sofrem quando é difícil.
Abrir mão da descentralização tem outro custo. O controle central em nome da segurança, escreve, "is a spectrum": vai de um aparelho de vigilância preso a cada pessoa até a resistência ao escrutínio público em biotecnologia. O risco é o centro virar a própria fonte do perigo, como na Covid, em que pesquisas de ganho de função financiadas por vários governos podem ter causado a pandemia.
Responsabilidade civil antes de qualquer pausa
A seção mais concreta de 2025 trata de regras para a IA. A primeira estratégia é a responsabilidade civil: quem causa um dano juridicamente acionável pode ser processado. Buterin prefere responsabilizar o usuário, que decide como a IA é usada, e diz que isso empurra o setor para "mecha suits for the human mind" (armaduras mecânicas para a mente humana, em tradução livre), e não para novas formas de vida inteligente autossustentável.
Ele admite que a regra não alcança militares e outros atores acima da lei, e sugere responsabilizar também donos e operadores de equipamentos que uma IA invada para causar dano catastrófico, um incentivo para proteger a infraestrutura de computação e de biologia.
A segunda estratégia só valeria, diz, se ele se convencesse de que é preciso algo mais forte: um "soft pause" global no hardware de escala industrial, capaz de cortar de 90% a 99% da computação disponível no mundo por um a dois anos num momento crítico. Os chips industriais, não os de consumo, só funcionariam com três assinaturas semanais de órgãos internacionais, pelo menos um sem vínculo militar. A conta dele: um ano em "wartime mode" pode valer cem anos de trabalho em clima de acomodação.
A resposta ao cenário AI 2027
Em abril de 2025, Daniel Kokotajlo, Scott Alexander e outros lançaram o AI 2027, cenário de uma IA sobre-humana em 2027 e, até 2030, de utopia ou aniquilação. Buterin respondeu em 10 de julho de 2025: seus prazos são mais longos que 2027, e o cenário dá poderes quase divinos à IA líder enquanto as defesas do resto do mundo ficam paradas, embora o próprio texto preveja a cura do câncer e do envelhecimento até 2029.
As conclusões viraram uma lista de políticas. "Slowing down superintelligent AI is still good": é menos arriscado se ela chegar em 10 anos do que em 3, e menos ainda em 30. Ele aprovou a queda da proposta de proibir por dez anos leis estaduais de IA nos Estados Unidos e vê num tratado sobre o hardware mais avançado o freio menos intrusivo. Os atores ligados a militares são, para ele, a principal fonte de risco, e não podem ficar de fora do tratado.
A mentalidade "open source bad" também fica mais arriscada, escreve, porque parte da ideia de que a defesa é irrealista. A corrida para vencer a China, idem: a hegemonia vira fonte de risco, não proteção. Mas ele recusa a tese de que acelerar a fronteira da IA é bom só por ser em código aberto.
Grandes empresas, grande governo e a multidão
Em 30 de dezembro de 2025, "Balance of power" levou o d/acc para a política. Buterin parte de três medos: Big Business, Big Government e Big Mob. Gostamos dos produtos das empresas, da polícia e dos tribunais, da sociedade civil e da Wikipédia, escreve, mas tememos monopólios, governos que escolhem vencedores e censuram, multidões que linçam. Os três são os maiores motores de progresso da história e estão ficando mais fortes ao mesmo tempo.
Antes, a balança se equilibrava sozinha, pelas deseconomias de escala que a distância e a coordenação impunham. Hoje, as ideias circulam mais do que nunca, mas o controle circula menos. A saída proposta é exigir mais difusão, como o padrão USB-C imposto pela União Europeia. O d/acc entra como estratégia complementar: tecnologia defensiva aberta a todos, que reduz a necessidade de concentrar poder por medo.
Uma das seções propõe uma moral pluralista, entre a moral de escravo, que proíbe ser poderoso, e a de senhor, que manda ser: "you are not allowed to be hegemonic, but you are encouraged to be impactful, and to empower others".
O que ele fez em 2026
Em 2 de abril de 2026, Buterin descreveu no blog a própria configuração de IA, montada depois da virada dos chatbots para os agentes. Ele cita pesquisadores de segurança que acharam instruções maliciosas em cerca de 15% das skills (extensões) do OpenClaw que analisaram. A regra dele: inferência local primeiro, arquivos guardados no próprio computador e tudo isolado em sandbox. O texto avisa logo no começo para ninguém copiar a configuração achando que ela é segura.
O dinheiro também mudou de lugar. Em 30 de janeiro de 2026, ele retirou 16.384 ETH, perto de US$ 45 milhões na época, como sua parte da austeridade na Ethereum Foundation, para financiar uma pilha de software e hardware aberta, segura e verificável, de finanças e comunicação a sistemas operacionais e biotecnologia. Em 26 de fevereiro, a The Block informou, com dados da Arkham apontados pela Lookonchain, que Buterin já tinha vendido 17.196 ETH desde o início do mês, cerca de US$ 34,96 milhões, 4,9% acima do que tinha anunciado.
Perguntas frequentes
O que é d/acc?
É a sigla de aceleração descentralizada, democrática, diferencial e defensiva, proposta por Vitalik Buterin no ensaio My techno-optimism, de 27 de novembro de 2023. A ideia é continuar acelerando a tecnologia, mas dar prioridade às que tornam mais fácil se defender do que atacar, como biodefesa, criptografia e checagem coletiva, e evitar soluções que entreguem o controle da IA a um grupo pequeno.
Qual a diferença entre e/acc e d/acc?
O e/acc, lançado por perfis anônimos em 2022 e puxado por Guillaume Verdon, quer acelerar tecnologia e capital de forma geral e vê os alertas sobre IA como freio. O d/acc, de Buterin, aceita acelerar, mas escolhe a direção: favorece tecnologias defensivas e descentralizadas e admite regras como a responsabilidade civil e, em último caso, uma pausa global no hardware de IA.
Vitalik Buterin é contra a inteligência artificial?
Não. Em 2023 ele escreveu que a tecnologia traz benefícios enormes e que atrasá-la custa caro. A preocupação dele é a superinteligência construída do jeito errado e o poder concentrado em poucas mãos. Em julho de 2025 disse que frear a IA superinteligente ainda é bom e defendeu um tratado sobre os chips mais avançados. Em abril de 2026 contou que roda modelos de linguagem no próprio computador.
Onde ler os ensaios de Vitalik Buterin sobre d/acc?
Todos estão no blog pessoal dele, em inglês e de graça, no endereço vitalik.eth.limo. A sequência principal tem quatro textos: My techno-optimism, de novembro de 2023; d/acc: one year later, de janeiro de 2025; My response to AI 2027, de julho de 2025; e Balance of power, de dezembro de 2025, que leva a ideia para a política.
Fontes
- My techno-optimism · Vitalik Buterin, blog pessoal (27/11/2023)
- d/acc: one year later · Vitalik Buterin, blog pessoal (05/01/2025)
- My response to AI 2027 · Vitalik Buterin, blog pessoal (10/07/2025)
- Balance of power · Vitalik Buterin, blog pessoal (30/12/2025)
- My self-sovereign / local / private / secure LLM setup, April 2026 · Vitalik Buterin, blog pessoal (02/04/2026)
- Vitalik Buterin ETH sales hit $35 million, exceeding planned 16,384 ETH allocation · The Block (Brian Danga, 26/02/2026)
- The Techno-Optimist Manifesto · Andreessen Horowitz (a16z), 16/10/2023
- Who Is @BasedBeffJezos, The Leader Of The Tech Elite's 'E/Acc' Movement? · Forbes (Emily Baker-White, 01/12/2023)
- Effective Accelerationism, e/acc (republicação do texto inaugural) · e/acc newsletter (Substack)
- Vitalik Buterin · Wikipédia (em inglês)
- Vitalik Buterin's website · Vitalik Buterin