e/acc vs altruísmo eficaz, d/acc e doomers: as quatro posições sobre a IA
Da carta pela pausa de março de 2023 ao ensaio de Dario Amodei de setembro de 2026, quatro grupos disputam a velocidade da inteligência artificial. A tabela mostra quem são e o que pedem aos governos.
Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura
e/acc, altruísmo eficaz, d/acc e doomers são as quatro posições que organizam a briga sobre a velocidade da inteligência artificial. O e/acc quer acelerar com o mínimo de freio, o altruísmo eficaz pede segurança e regulação, o d/acc de Vitalik Buterin acelera só o que protege e os doomers querem parar tudo.
As quatro apareceram juntas num único fim de semana. Na sexta-feira, 17 de novembro de 2023, o conselho da OpenAI demitiu Sam Altman e disse que ele não vinha sendo “consistently candid” com os conselheiros, segundo o The Guardian. Três dias depois, a Fortune informou que duas integrantes do conselho, Helen Toner e Tasha McCauley, tinham laços com o altruísmo eficaz, e lembrou que o movimento ainda carregava o desgaste da quebra da FTX, a corretora de criptomoedas de Sam Bankman-Fried.
No lado acelerador, a leitura foi imediata. Sriram Krishnan, sócio do fundo a16z, escreveu no X que o altruísmo eficaz “might be the villain” que o Vale do Silício deveria enfrentar, de acordo com a Business Insider. Toner negou, em 29 de novembro, que o conselho quisesse desacelerar o trabalho da empresa. Não adiantou.
Em 22 de novembro, depois que cerca de 700 funcionários ameaçaram sair, Altman voltou ao cargo com um conselho inicial de três nomes, Bret Taylor, Larry Summers e Adam D'Angelo, como registrou a Fortune. Cinco dias depois, Buterin, criador do Ethereum, publicou o ensaio que propõe o d/acc. Os doomers já tinham dado sua resposta oito meses antes: Eliezer Yudkowsky escrevera na Time que a pausa pedida por outros grupos era pouca e que os grandes treinamentos deveriam parar no mundo inteiro.
Quem defende o quê, lado a lado
| Posição | O que defende | Nomes e textos de referência | O que pede da regulação |
|---|---|---|---|
| e/acc (aceleracionismo efetivo) | Acelerar IA, computação e energia, com pouca interferência de governos | Beff Jezos (Guillaume Verdon) e bayeslord, “Notes on e/acc principles and tenets” (2022); Marc Andreessen, “The Techno-Optimist Manifesto” (2023) | O mínimo; lei estadual de IA vista como entrave |
| Altruísmo eficaz e segurança de IA | Usar evidência para fazer o máximo de bem; tratar o risco de catástrofe por IA como prioridade | Toby Ord, “The Precipice” (2020); Will MacAskill, “What We Owe the Future” (2022); a carta pela pausa de março de 2023 | Testes de segurança, transparência das empresas e, em 2023, pausa de seis meses |
| d/acc | Acelerar de forma seletiva as tecnologias que favorecem a defesa, sem entregar mais poder a autoridades centrais | Vitalik Buterin, “My techno-optimism” (2023) e “d/acc: one year later” (2025) | Desconfia de controle centralizado; aposta em ferramentas abertas de proteção |
| Doomers | Uma superinteligência feita com as técnicas atuais mataria a humanidade | Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, “If Anyone Builds It, Everyone Dies” (2025), lançado aqui como “Se alguém criar, todos morrem” | Parada mundial e por tempo indeterminado da IA geral em larga escala |
Os rótulos não são todos escolhidos pelos próprios grupos. Na briga de 2023, quem pedia cautela ganhou dos aceleradores o apelido de decel, de desacelerador, conforme a Business Insider. Doomer vem do inglês doom, ruína, e é a palavra que a imprensa americana usa para quem prevê extinção.
Como o altruísmo eficaz chegou à IA
O movimento nasceu da filantropia. Will MacAskill conta, na página de apresentação do altruísmo eficaz, que conheceu o filósofo Toby Ord no começo de 2009 e que os dois lançaram no fim daquele ano a Giving What We Can, organização que convida as pessoas a doar parte da renda. A ideia central é usar evidência e razão para descobrir as formas mais eficientes de ajudar os outros.
A virada para a IA veio com o argumento do longo prazo. Em “The Precipice”, de março de 2020, Ord estima em 1 em 6 a chance de uma catástrofe existencial no próximo século e em 1 em 10 a parte que caberia a uma IA geral desalinhada, mais do que todas as outras fontes de risco somadas, segundo o resumo do livro na Wikipédia. MacAskill levou o raciocínio adiante em “What We Owe the Future”, de 2022, a defesa do longoprazismo. A 80,000 Hours, organização de orientação de carreira que ele cofundou, chama os riscos da IA de “the world's most pressing problems”.
Daí saiu uma geração de pesquisadores. Segundo a Business Insider, adeptos do altruísmo eficaz passaram a dominar a pesquisa em segurança de IA.
O documento mais conhecido desse campo é a carta aberta do Future of Life Institute, publicada em março de 2023. Ela pede aos laboratórios que interrompam “for at least 6 months” o treinamento de sistemas mais poderosos que o GPT-4 e sugere que os governos imponham uma moratória se as empresas não pararem por conta própria. A página somava 31.810 assinaturas em 1º de novembro de 2026.
Dois meses depois veio uma frase só. A declaração do Center for AI Safety pede que mitigar o risco de extinção causado pela IA seja “uma prioridade global, ao lado de outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear”, em tradução livre. Entre os signatários estão Geoffrey Hinton, Yoshua Bengio, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e os presidentes de duas das maiores empresas do setor, Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic.
Os doomers e a diferença entre pausar e parar
Yudkowsky não assinou a carta de março de 2023. No artigo da Time de 29 de março, explicou que seis meses resolviam pouco e defendeu uma moratória “indefinite and worldwide” para novos treinamentos grandes. A tese ganhou a forma de livro em 16 de setembro de 2025, quando a Little, Brown lançou o título escrito com Nate Soares, que entrou na lista de mais vendidos do New York Times em 5 de outubro, segundo o verbete da Wikipédia sobre a obra.
O argumento parte de como os modelos atuais são feitos. Eles têm bilhões de parâmetros ajustados no treinamento, e nem quem os constrói entende bem o que cada peso faz. Para os autores, a saída é a humanidade se coordenar para interromper o desenvolvimento de IA geral em larga escala em todo lugar, talvez com exceção de sistemas estreitos como o AlphaFold, que prevê a estrutura de proteínas. A Intrínseca publicou a edição brasileira em 2 de abril de 2026, com 320 páginas e tradução de Cássio de Arantes Leite.
A proposta deixou de ser só de Yudkowsky em 22 de outubro de 2025. Nesse dia, a Statement on Superintelligence foi ao ar pedindo a proibição do desenvolvimento de superinteligência até haver amplo consenso científico de que ela pode ser feita com segurança e sob controle, além de forte adesão do público. Tinha mais de 800 assinaturas no lançamento, entre elas as de Hinton, do almirante Mike Mullen, de Steve Bannon e do príncipe Harry com Meghan Markle, relatou a NBC News. Em 1º de novembro de 2026, a página exibia 78.089.
O Future of Life Institute, organizador do texto, divulgou junto uma pesquisa com americanos: 64% disseram que a superinteligência não deveria ser criada antes de haver acordo científico de que é segura e controlável, e 73% apoiaram regulação forte.
O d/acc tenta ficar no meio
Buterin escreveu “My techno-optimism” em 27 de novembro de 2023 com simpatia declarada pelo e/acc. A ressalva era a IA. Para ele, uma tecnologia capaz de virar uma nova espécie dominante no planeta pede um cuidado que outras invenções não pediram. O nome que escolheu tem uma letra com vários sentidos: o d pode ser de defesa, descentralização, democracia e diferencial.
Um ano depois, em “d/acc: one year later”, de 5 de janeiro de 2025, ele resumiu a ideia em construir tecnologias que puxem o equilíbrio entre ataque e defesa para o lado da defesa, sem depender de dar mais poder a autoridades centrais. Os exemplos vão da biossegurança à criptografia e às ferramentas contra desinformação. No mesmo texto, Buterin chama de e/acc descentralizado a aceleração que dispensa a parte defensiva. O perfil completo está no texto sobre Vitalik Buterin e o d/acc.
O e/acc chegou ao governo, e o altruísmo eficaz virou alvo
O e/acc começou com as notas que Beff Jezos e bayeslord publicaram no Substack em 10 de julho de 2022, ganhou o manifesto de Marc Andreessen em outubro de 2023 e um rosto quando a Forbes identificou Guillaume Verdon por trás do perfil. A história da corrente está em e/acc, o aceleracionismo efetivo, e a origem da palavra, no texto sobre o que é aceleracionismo.
Nos Estados Unidos, as duas correntes ganharam uma vitória cada uma em menos de três meses. Em 29 de setembro de 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, sancionou a SB 53, do senador estadual Scott Wiener. A lei obriga os grandes desenvolvedores de modelos de fronteira a publicar como lidam com riscos, manda comunicar incidentes críticos de segurança ao escritório estadual de emergências e protege funcionários que denunciam problemas.
Em 11 de dezembro de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva no sentido oposto. Segundo o resumo da Casa Branca, ela cria uma força-tarefa no Departamento de Justiça para contestar leis estaduais de IA, manda o Departamento de Comércio listar as normas consideradas excessivas e condiciona verbas federais de internet às regras de cada estado. O texto fala em mais de mil projetos de lei estaduais sobre IA.
A briga voltou em setembro de 2026. No ensaio “We Must Pace the Frontier”, Dario Amodei escreveu que a indústria precisa desacelerar o ritmo de melhoria das capacidades dos modelos, porque desde o meio do ano a IA estaria avançando bem mais rápido ao ajudar a construir a geração seguinte. Ele descreve quatro níveis de acordo internacional possíveis, do veto ao uso de IA em armas biológicas até uma pausa completa, que considera improvável tão cedo. E disse que a ideia de pausar, lançada em 2023, fazia pouco sentido naquela época.
Trump reagiu em 14 de setembro, quando disse que a IA só precisa de um presidente forte e inteligente como proteção, informou a Axios. No dia seguinte, a Axios relatou que o governo tinha um novo vilão, o altruísmo eficaz, e que o Departamento de Defesa publicou no X a frase “Americanism, not effective altruism”, reproduzida também pelo Benton Institute.
No Brasil, o tema chega ao Congresso pelo PL 2338/2023, aprovado no Senado em dezembro de 2024 e ainda à espera de parecer na comissão especial da Câmara; o andamento está no texto sobre o marco legal da IA.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre e/acc e altruísmo eficaz?
Os dois discordam sobre a pressa. Quem segue o e/acc acha que frear a inteligência artificial custa mais caro do que os riscos dela e quer pouca interferência do Estado. O altruísmo eficaz, movimento filantrópico criado por Toby Ord e Will MacAskill no fim dos anos 2000, trata o risco de catástrofe por IA como prioridade e apoia testes obrigatórios e regras de transparência para as empresas.
O que é d/acc?
É a proposta de Vitalik Buterin, criador do Ethereum, apresentada em novembro de 2023. A sigla quer dizer aceleração defensiva, e o d também pode ser lido como descentralizada, democrática ou diferencial. A ideia é investir primeiro em biossegurança, criptografia e ferramentas contra desinformação, que protegem as pessoas, sem concentrar o controle da IA em governos ou em poucas empresas.
Quem são os doomers da inteligência artificial?
São os que acreditam que uma superinteligência criada com as técnicas atuais levaria à extinção humana. O nome mais conhecido é Eliezer Yudkowsky, que escreveu com Nate Soares o livro lançado nos Estados Unidos em setembro de 2025 e no Brasil em abril de 2026 pela Intrínseca. Eles defendem que os países se coordenem para interromper o desenvolvimento de IA geral em larga escala.
O que o altruísmo eficaz teve a ver com a demissão de Sam Altman?
Duas das conselheiras que votaram pela saída de Altman em novembro de 2023, Helen Toner e Tasha McCauley, tinham ligação com o movimento, segundo a Fortune. Defensores do e/acc acusaram o grupo de querer frear a OpenAI, o que Toner negou. Altman voltou cinco dias depois, e as duas deixaram o conselho da empresa.
Fontes
- OpenAI fires co-founder and CEO Sam Altman for allegedly lying to company board · The Guardian (17/11/2023)
- OpenAI's crackup is another black eye for effective altruism · Fortune (Jeff John Roberts, 20/11/2023)
- Sam Altman returns as OpenAI CEO, adds Larry Summers to new board · Fortune (Nicholas Gordon, 22/11/2023)
- How Sam Altman's OpenAI drama highlighted the debate splitting Silicon Valley: Are you an e/acc or decel? · Business Insider, via Yahoo (Lakshmi Varanasi, 07/12/2023)
- Pausing AI Developments Isn't Enough. We Need to Shut it All Down · Time (Eliezer Yudkowsky, 29/03/2023)
- Introduction to Effective Altruism · effectivealtruism.org
- The Precipice · Site oficial do livro de Toby Ord (2020)
- The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity · Wikipédia em inglês
- What We Owe The Future · Site oficial do livro de William MacAskill (2022)
- Why AI risks are the world's most pressing problems · 80,000 Hours
- Pause Giant AI Experiments: An Open Letter · Future of Life Institute (março de 2023)
- Statement on AI Risk · Center for AI Safety (maio de 2023)
- If Anyone Builds It, Everyone Dies · Wikipédia em inglês
- Se alguém criar, todos morrem · Intrínseca (Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, 2026)
- Statement on Superintelligence · superintelligence-statement.org (22/10/2025)
- From Prince Harry to Steve Bannon, hundreds call for ban on AI superintelligence · NBC News (David Ingram, 22/10/2025)
- Prominent Scientists, Faith Leaders, Policymakers and Artists Call for a Prohibition on Superintelligence · Future of Life Institute
- My techno-optimism · Vitalik Buterin (27/11/2023)
- d/acc: one year later · Vitalik Buterin (05/01/2025)
- Notes on e/acc principles and tenets · Substack de Beff Jezos e bayeslord (10/07/2022)
- Governor Newsom signs SB 53 · Governo da Califórnia (29/09/2025)
- Fact Sheet: President Donald J. Trump Ensures a National Policy Framework for Artificial Intelligence · Casa Branca (11/12/2025)
- We Must Pace the Frontier · Dario Amodei (setembro de 2026)
- Trump says a strong, smart president is the only "guardrail" AI needs · Axios (Herb Scribner, 14/09/2026)
- This obscure philosophy has become Trump's new AI bogeyman · Axios (Herb Scribner, 15/09/2026)
- This obscure philosophy has become Trump's new AI bogeyman · Benton Institute, republicação da Axios (16/09/2026)