O que é aceleracionismo: origem, correntes e por que o termo voltou com a IA
A palavra saiu de um romance de 1967 e entrou em uso em 2010, pelas mãos de um crítico. Hoje nomeia correntes que não combinam entre si, do pós-trabalho de esquerda ao e/acc do Vale do Silício.
Redação Aceleração Eficaz · · 11 min de leitura
Aceleracionismo é o nome de um conjunto de ideias segundo as quais o capitalismo e a tecnologia não devem ser freados, e sim empurrados mais rápido e mais longe, até produzirem a mudança que carregam. O rótulo cobre correntes opostas: uma de esquerda, uma de direita, o e/acc do Vale do Silício e, no noticiário policial, grupos neonazistas.
As quatro acepções dividem a palavra e pouca coisa além dela. Em 2026, quem procura o termo encontra filósofos que davam aula na Inglaterra nos anos 1990, um manifesto marxista de 2013, investidores de inteligência artificial que põem “e/acc” no nome de usuário do X e relatórios sobre terrorismo de extrema direita. Cada linha tem autores, datas e textos próprios. Misturá-las é o erro mais comum de quem escreve sobre o assunto.
Uma palavra tirada de um romance de 1967
O termo nasceu na ficção científica. Em “Lord of Light”, romance de 1967 do americano Roger Zelazny, um grupo de rebeldes quer levar sua sociedade “to a higher level”, a um nível mais alto, mudando de uma vez a relação dela com a tecnologia. Zelazny chama esse grupo de Aceleracionistas.
Quem tirou a palavra do livro foi um crítico. Segundo reportagem de Andy Beckett publicada em maio de 2017 no The Guardian, o rótulo só entrou em uso regular em 2010, quando o professor inglês Benjamin Noys, crítico da tendência, o tomou emprestado do romance. Noys, que dá aula na Universidade de Chichester, usou a palavra no livro “The Persistence of the Negative” para nomear, e atacar, uma linha da filosofia francesa dos anos 1970. Três anos depois, dois dos autores que ele criticava poriam a palavra no título de um manifesto.
O grupo sempre foi pequeno. Beckett estimou que, em qualquer época, houve “a few dozen”, algumas dezenas, de aceleracionistas no mundo. A palavra cresceu muito mais que eles.
As ideias que vieram antes do nome
Depois de 2010, o rótulo passou a ser aplicado de trás para a frente, a textos que nunca o usaram. É por isso que quase toda história do aceleracionismo começa no século 19.
Marx, 1848: votar pelo livre-comércio para apressar a crise
Em 9 de janeiro de 1848, Karl Marx discursou na Associação Democrática de Bruxelas sobre o livre-comércio. A conclusão surpreende quem espera dele a defesa da proteção à indústria nacional. Para Marx, o livre-comércio desmancha as velhas nacionalidades e leva ao extremo o antagonismo entre burguesia e proletariado. Por isso ele votou a favor: “the free trade system hastens the social revolution”. Em tradução livre, o sistema de livre-comércio apressa a revolução social.
A leitura aceleracionista desses textos diz que Marx via no capitalismo mais intenso a preparação para superá-lo. Dez anos depois, nos manuscritos conhecidos como Grundrisse (1857-1858), ele escreveu sobre máquinas e automação o trecho que a esquerda aceleracionista mais cita, tratado no artigo sobre o Fragmento sobre as máquinas e o general intellect.
Deleuze, Guattari e Lyotard, anos 1970
A primeira formulação contínua veio da França depois de 1968. Em 1972, o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Félix Guattari publicaram “O anti-Édipo”, livro que, em vez de apenas se opor ao capitalismo, propõe ir mais longe no movimento do mercado, “to ‘accelerate the process’”, na expressão que tomam de Nietzsche. O contexto da frase e as leituras opostas que ela recebeu estão no artigo sobre Deleuze, Guattari e o “acelerar o processo”.
Dois anos depois, Jean-François Lyotard publicou “Economia libidinal” (1974). Segundo o resumo de Beckett, o livro afirma que até os aspectos opressivos do capitalismo eram “enjoyed”, desfrutados, por quem tinha a vida reorganizada e acelerada pelo sistema.
O CCRU em Warwick, 1995
A versão que deu fama ao termo saiu do departamento de filosofia da Universidade de Warwick, na Inglaterra. Em 1995, Sadie Plant, Mark Fisher, Nick Land, Robin Mackay e cerca de duas dezenas de alunos e professores criaram a Cybernetic Culture Research Unit, o CCRU. Misturavam teoria francesa, ficção científica, cibernética e música eletrônica. Segundo o Guardian, o grupo funcionou como entidade por menos de cinco anos.
O texto mais lembrado da época é “Meltdown”, palestra de Land de 1994 que abre com a frase “Earth is captured by a technocapital singularity”: a Terra é capturada por uma singularidade tecnocapitalista. Em ensaio de maio de 2026 para o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, o pesquisador Eudald Espluga chama a palestra de primeiro grande manifesto tecnofascista.
Land se demitiu de Warwick em 1998. Sofreu um colapso no começo dos anos 2000, deixou a Inglaterra e se mudou para Taiwan e, pouco depois, para Xangai, onde vive. Num artigo de 2004 para o jornal Shanghai Star, elogiou a mistura chinesa de marxismo e capitalismo. A trajetória dele e as polêmicas posteriores estão no perfil de Nick Land, o filósofo do aceleracionismo de direita. Fisher foi por outro caminho: o blog k-punk, aberto em 2003, e o livro “Realismo capitalista”, de 2009, discutidos no artigo sobre Mark Fisher e o realismo capitalista.
2013, o ano em que o termo se dividiu
Em 14 de maio de 2013, o site britânico Critical Legal Thinking publicou o “#Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics”, de Nick Srnicek e Alex Williams. O texto pegou o nome usado por Noys e o virou do avesso: de acusação, passou a programa político da esquerda. A frase mais conhecida acerta contas com o passado do CCRU: “Landian neoliberalism confuses speed with acceleration”. Para os autores, o neoliberalismo de Land anda depressa sem sair dos limites do próprio capitalismo.
O que eles propõem acelerar é a tecnologia, não o mercado: “We want to accelerate the process of technological evolution”. A meta declarada é trabalhar menos (“All of us want to work less”) e usar a infraestrutura criada pelo capitalismo para outra sociedade. Em 2015, a dupla expandiu a tese no livro “Inventing the Future”. O manifesto aceleracionista de Srnicek e Williams tem artigo próprio, e a versão mais otimista dessa linha, a da abundância, aparece no livro de Aaron Bastani sobre o comunismo de luxo totalmente automatizado.
Land nunca aceitou a separação. Ao Guardian, em 2017, disse que a ideia de uma tecnologia que se move sozinha separável do capitalismo “is a deep theoretical error”, um erro teórico profundo. A direita seguiu Land. Entre 2012 e 2013, ele publicou na internet a série “The Dark Enlightenment”, que o Guardian descreve como um dos documentos fundadores do neorreacionarismo, corrente que defende trocar Estados nacionais e democracias por cidades-Estado autoritárias. Beckett registrou ainda que Land escreveu com aprovação sobre “human biodiversity”, ideia pseudocientífica popular na extrema direita. As diferenças entre as duas metades estão no artigo sobre aceleracionismo de esquerda e de direita.
As correntes lado a lado
A tabela junta as cinco linhas que hoje circulam com o nome. As datas são as dos textos de origem de cada uma.
| Corrente | Origem | O que quer acelerar | Aonde quer chegar | Para ler mais |
|---|---|---|---|---|
| Esquerda | Srnicek e Williams (2013); Mark Fisher | Automação e tecnologia, sob controle coletivo | Pós-trabalho: jornada menor, renda básica | Keynes e a semana de 15 horas |
| Direita | Nick Land e o CCRU (anos 1990); “The Dark Enlightenment” (2012-2013) | Capitalismo e tecnologia, tratados como forças que escapam do controle humano | Fim da democracia liberal; neorreacionarismo | Perfil de Nick Land |
| e/acc (aceleracionismo efetivo) | Beff Jezos e bayeslord (julho de 2022) | Inteligência artificial e energia, com o mínimo de regulação | Uma “technocapital singularity” | Artigo sobre o e/acc |
| d/acc | Vitalik Buterin (novembro de 2023) | Tecnologias de defesa, descentralização e democracia | Progresso sem concentração de poder | Artigo sobre o d/acc |
| Militante | Grupos neonazistas descritos por pesquisadores do ARC e do GNET | Divisões sociais, por meio de violência | Colapso da sociedade | Artigo sobre o aceleracionismo extremista |
As quatro primeiras linhas brigam entre si, mas discutem o mesmo assunto: o que fazer com a tecnologia. A quinta só tomou emprestado o nome.
Por que a palavra voltou em 2023
Durante uma década, aceleracionismo foi assunto de seminário. Isso mudou por causa de uma newsletter. Em 10 de julho de 2022, dois perfis anônimos do X, Beff Jezos e bayeslord, publicaram no Substack as “Notes on e/acc principles and tenets”. O texto trata o universo como uma máquina termodinâmica que favorece as formas de organização capazes de captar e dissipar mais energia, chama o capitalismo de “a form of intelligence” e conclui que regular demais a tecnologia “suppresses variance and hence slows down progress”, reduz a variedade e atrasa o progresso.
O “e” da sigla vem de effective, uma provocação ao effective altruism, o altruísmo eficaz, movimento filantrópico que financia boa parte da pesquisa em segurança de IA. Em 2023, as duas siglas viraram os dois lados de uma briga sobre quanto frear os modelos de linguagem.
Três episódios, entre outubro e dezembro de 2023, levaram o termo para fora do X. Em 16 de outubro, o investidor Marc Andreessen publicou o “The Techno-Optimist Manifesto”, com Beff Jezos e Nick Land na lista de “patron saints” e a frase “Our enemy is stagnation”. Em 17 de novembro, o conselho da OpenAI demitiu Sam Altman, que voltou ao cargo menos de uma semana depois; a Business Insider resumiu a crise como o debate que divide o Vale do Silício: “Are you an e/acc or decel?”. Em 1º de dezembro, a Forbes revelou que Beff Jezos era o físico Guillaume Verdon, ex-Google e fundador da startup Extropic.
Cada episódio tem artigo próprio no blog: o e/acc, ou aceleracionismo efetivo, o manifesto tecno-otimista de Marc Andreessen e o perfil de Guillaume Verdon, o Beff Jezos.
A resposta mais conhecida aos dois lados saiu quatro dias antes da reportagem da Forbes. Em 27 de novembro, Vitalik Buterin, criador do Ethereum, publicou o ensaio “My techno-optimism”, em que aceita acelerar, mas escolhendo quais tecnologias: as de defesa, de descentralização e de democracia. É o d/acc de Vitalik Buterin. A comparação das quatro posições sobre IA, incluindo a dos chamados doomers, está no artigo e/acc, altruísmo eficaz, d/acc e doomers.
O e/acc herdou de Land mais que a palavra. A expressão “technocapital singularity”, do texto de 2022, é a mesma da primeira frase de “Meltdown”, de 1994. A diferença está no tom: Land escrevia sobre o fim do humano, e Verdon e Andreessen escrevem sobre abundância, energia barata e crescimento. A ideia de singularidade, por sua vez, chegou ao grande público com os livros de Ray Kurzweil sobre a singularidade, a partir de “The Singularity Is Near”, de 2005.
A acepção policial, sem parentesco com as outras
A quinta acepção chega pela página de polícia. Em 2022, o Accelerationism Research Consortium (ARC), grupo de pesquisadores de extremismo, definiu o aceleracionismo militante como um conjunto de táticas para pressionar e agravar divisões sociais latentes, muitas vezes com violência, a fim de apressar o colapso da sociedade. Um relatório de março de 2024 do Global Network on Extremism and Technology (GNET) descreve o movimento como predominantemente neofascista, transnacional e dependente de fóruns e aplicativos de mensagem para recrutar.
O ARC faz a separação de forma explícita. O aceleracionismo filosófico, no texto do consórcio, é o reconhecimento de que as falhas da modernidade e do capitalismo produzem o próprio colapso; o militante acredita que pode e deve apressar esse colapso. No Brasil, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul deu o nome de Operação Accelerare às investigações que prenderam líderes de grupos neonazistas em 2023; segundo o Ministério da Justiça, o nome faz alusão à característica “aceleracionista” desses grupos. Os casos e as definições estão no artigo sobre aceleracionismo extremista.
Como saber de qual aceleracionismo se está falando
Três perguntas resolvem a maior parte dos casos. A primeira é o que se quer acelerar. Se a resposta é a automação e o fim do trabalho obrigatório, o texto é de esquerda. O capital como processo que dispensa o humano aponta para Land; a IA e a energia sem freio regulatório, para o e/acc; o conflito entre grupos, para a acepção militante.
A segunda pergunta é quem fala. Um artigo de revista acadêmica sobre Deleuze trata da linha filosófica. Um perfil de investidor no X com “e/acc” no nome trata da corrente de 2022. Um relatório de polícia ou de centro de pesquisa sobre terrorismo trata dos militantes, e nesse caso a palavra descreve uma estratégia de violência, não uma posição sobre tecnologia.
A terceira é a data. Ninguém se chamava de aceleracionista antes de 2010. Entre o manifesto de 2013 e o texto de 2022, o uso que circulava era o acadêmico. Depois de julho de 2022, numa notícia de tecnologia, a palavra quase sempre se refere ao e/acc ou a uma reação a ele, como o decrescimento, o oposto declarado do aceleracionismo, que Andreessen põe na lista de inimigos.
O nome deste site, Aceleração Eficaz, e o mote “Aceleracionismo Eficaz aplicado à sua empresa” vêm da acepção de 2022: são uma tradução de effective accelerationism levada à rotina de pequenas e médias empresas, no sentido de adotar tecnologia mais depressa. Não têm relação com Land nem com a acepção policial.
Para ler as fontes na ordem em que saíram, quase tudo está aberto na internet: o discurso de Marx no Marxists Internet Archive, o manifesto de 2013 no Critical Legal Thinking, as notas de 2022 no Substack de Beff Jezos e a carta de Andreessen no site da a16z. O texto de Buterin, de novembro de 2023, ganhou continuação em 5 de janeiro de 2025, com o título “d/acc: one year later”.
Perguntas frequentes
O que é aceleracionismo em poucas palavras?
É a defesa de que o capitalismo e a tecnologia devem andar mais rápido, e não ser freados, porque a mudança social viria dessa aceleração. A esquerda quer acelerar a automação para chegar ao pós-trabalho; Nick Land e a direita aceleram o próprio capital; o e/acc, desde 2022, fala sobretudo de inteligência artificial com pouca regulação.
Quem criou o termo aceleracionismo?
A palavra aparece primeiro no romance Lord of Light, de Roger Zelazny, publicado em 1967. O uso filosófico começou em 2010 com o inglês Benjamin Noys, crítico da tendência, no livro The Persistence of the Negative. Depois, em 2013, Nick Srnicek e Alex Williams adotaram o termo no título do manifesto que lançou a versão de esquerda.
Aceleracionismo é de esquerda ou de direita?
Existem as duas versões, e elas brigam entre si. A de esquerda, do manifesto de Srnicek e Williams de 2013, quer usar a tecnologia para reduzir o trabalho e distribuir a riqueza. A de direita, ligada a Nick Land, vê o capital como força que deve escapar do controle humano e se aproximou do neorreacionarismo, que rejeita a democracia.
Qual a diferença entre aceleracionismo e e/acc?
O e/acc, ou effective accelerationism, é uma corrente nascida em julho de 2022 num texto de Beff Jezos e bayeslord, perfis anônimos do X. Herdou palavras de Nick Land, como singularidade tecnocapitalista, mas trocou o tom sombrio por otimismo com startups, energia e inteligência artificial. É a acepção mais comum do termo em notícias de tecnologia desde 2023.
Fontes
- Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian (Andy Beckett, 11/05/2017)
- On the Question of Free Trade (discurso de 9 de janeiro de 1848) · Marxists Internet Archive
- #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking (Alex Williams e Nick Srnicek, 14/05/2013)
- Nick Land, or the Origins of the Techno-Fascist Apocalypse · CCCB (Eudald Espluga, 26/05/2026)
- Notes on e/acc principles and tenets · Substack de Beff Jezos e bayeslord (10/07/2022)
- The Techno-Optimist Manifesto · a16z (Marc Andreessen, 16/10/2023)
- Who Is BasedBeffJezos, The Leader Of The Tech Elite's 'E/Acc' Movement? · Forbes (Emily Baker-White, 01/12/2023)
- How Sam Altman's OpenAI drama highlighted the debate splitting Silicon Valley: Are you an e/acc or decel? · Business Insider, via Yahoo (Lakshmi Varanasi, 2023)
- My techno-optimism · Vitalik Buterin (27/11/2023)
- An Introduction to Militant Accelerationism · Accelerationism Research Consortium (Matthew Kriner, 09/05/2022)
- Behind the Skull Mask: An Overview of Militant Accelerationism · GNET (Kriner, Barbarossa, Bernardo e Broschowitz, março de 2024)
- Polícia Civil do Rio Grande do Sul prende sete lideranças de grupos nazistas · Ministério da Justiça e Segurança Pública (14/11/2023)