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Aceleração Eficaz

Aceleracionismo extremista: o que é, casos no Brasil e como diferenciar

A Polícia Civil gaúcha batizou de Accelerare a operação de junho de 2023 contra grupos neonazistas; na pesquisa sobre terrorismo, o rótulo nada tem a ver com Nick Land ou com o e/acc.

Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura

Em junho de 2023, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul batizou de Accelerare uma operação contra grupos neonazistas. Segundo o Ministério da Justiça, o nome alude ao caráter aceleracionista desses grupos. Na pesquisa sobre terrorismo, a palavra descreve quem quer apressar o colapso da sociedade pela violência, e tem pouco em comum com a filosofia homônima.

O comunicado da primeira fase, de 6 de junho, cita a delegada Tatiana Barreira Bastos, da Delegacia de Combate à Intolerância. Para ela, a ideologia do grupo “tem como principal característica ser aceleracionista”, com o objetivo de recrutar jovens nas redes sociais e levá-los a crimes como ataques a escolas e espaços públicos. Três pessoas foram presas em Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita e Novo Hamburgo, depois de cerca de seis meses de monitoramento. A polícia apreendeu literatura nazista, uma garrucha, simulacros de arma de fogo e munição.

A terceira fase, em 14 de novembro de 2023, foi bem maior. Cerca de 100 policiais cumpriram mandados em 23 endereços no Rio Grande do Sul, em Curitiba, em três cidades paulistas e em Fortaleza. Sete pessoas foram presas e um adolescente foi apreendido, por apologia ao nazismo e associação criminosa. O Ministério da Justiça apoiou a investigação, que começou em maio daquele ano com uma denúncia anônima.

A Agência Brasileira de Inteligência apoiou a primeira e a terceira fase. Em nota da mesma data, a Abin contou que achou os suspeitos pesquisando históricos, analisando tendências internacionais e monitorando fontes abertas, e que intensificou o acompanhamento depois de identificar uma corrente mais extremista do grupo.

O que a pesquisa chama de aceleracionismo militante

Uma definição de trabalho saiu em 9 de maio de 2022 no site do Accelerationism Research Consortium (ARC), num texto de Matthew Kriner em nome do comitê do consórcio. Em tradução livre, aceleracionismo militante é um conjunto de táticas e estratégias para “pressionar e agravar divisões sociais latentes, muitas vezes pela violência”, e com isso “apressar o colapso da sociedade”.

O ARC conta que o movimento respondeu por dezenas de atentados no mundo em duas décadas. Faltava, ainda assim, consenso sobre como descrevê-lo, o que atrapalhava governos e polícias.

O mesmo texto separa logo de saída a versão violenta da filosófica. Como conceito filosófico, escreve Kriner, aceleracionismo é reconhecer que as falhas da modernidade, do liberalismo e do capitalismo produzem a própria queda, cada vez mais rápida. O militante parte de uma crítica parecida e conclui que pode e deve apressar esse fim com violência política ou terrorismo. O nome não foi escolhido pelos pesquisadores: gente desse meio passou a se apresentar assim.

Há duas ideias do ARC que ajudam a ler o noticiário. Alguns se declaram aceleracionistas; outros só adotam as táticas, sem o rótulo. E os grupos funcionam menos como organizações e mais como marcas, adotadas e largadas por células que não têm ligação estrutural entre si, o que leva o consórcio a estudar redes em vez de siglas. A corrente ideológica dominante, segundo o texto, é o neofascismo.

Em março de 2024, a Global Network on Extremism and Technology (GNET), projeto do centro de estudos sobre radicalização do King's College de Londres apoiado por um fórum de empresas de internet, publicou o relatório Behind the Skull Mask. Kriner assina com Erica Barbarossa, Isabela Bernardo e Michael Broschowitz. Os quatro repetem a definição e afirmam que esse movimento transnacional passou as redes da Al-Qaeda e do Estado Islâmico como a principal ameaça terrorista do mundo ocidental.

Uma linha do tempo brasileira

Os casos abaixo vêm de polícia, imprensa e pesquisa. Nem todos levam o rótulo, e o último mostra por quê.

  1. No ataque de Aracruz (ES), em novembro de 2022, um adolescente de 16 anos matou quatro pessoas. Segundo um texto de Sofia Schurig publicado pela GNET em 22 de novembro de 2024, a Polícia Federal atribuiu a radicalização dele à exposição a canais do Telegram da rede Terrorgram, que espalha propaganda aceleracionista.
  2. Junho e novembro de 2023 trazem as fases da Operação Accelerare descritas acima, no Rio Grande do Sul.
  3. Uma análise feita para o Núcleo Jornalismo em fevereiro de 2024, citada por Schurig, contou alta de 279% nos inquéritos da Polícia Federal sobre propaganda nazista em redes sociais de 2022 para 2023. Foram 129 em 2023, o maior número já registrado, e 177 entre janeiro de 2021 e fevereiro de 2024, dos quais 82 seguiam abertos.
  4. A SaferNet recebeu 1.341 denúncias de neonazismo em 2025, contra 814 no ano anterior, alta de 64,7%. As de apologia e incitação a crimes contra a vida foram de 2.710 para 4.752, segundo os indicadores divulgados em fevereiro de 2026.
  5. Em 14 de maio de 2026, a Operação Revelare prendeu em Porto Alegre um homem de 20 anos suspeito de liderar um grupo neonazista, informou o Extra Classe. O delegado Vinícius Nathan disse que o grupo espalhava adesivos com QR code que levavam a grupos de mensagens. A polícia não encontrou ação do grupo em escolas nem atentados.
  6. Em 4 de agosto de 2026, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Rede Interrompida contra oito investigados de 19 a 31 anos, em cinco estados, suspeitos de discutir ações violentas em Brasília no período eleitoral e de trocar manuais de explosivos. A reportagem da Agência Brasil não usa a palavra aceleracionismo. A PCDF informou que os fatos ainda não tinham sido enquadrados na Lei de Terrorismo.

Por que adolescentes estão no centro

Schurig descreve o mecanismo assim: o material que radicaliza crianças e adolescentes recorre à retórica aceleracionista e apresenta a violência como catalisador necessário de mudança social, explorando a desilusão e a frustração de quem o consome. Ela acompanhou 112 perfis e mais de 30 hashtags da comunidade de true crime no TikTok. Os vídeos que glorificavam autores de massacres somavam mais de 344 milhões de visualizações, em inglês, espanhol, português e russo.

O texto lembra ainda dados do Ministério da Justiça. Até junho de 2023, havia 2.830 investigações sobre violência nas escolas e mais de 380 prisões, que incluíam adultos que incentivaram ou facilitaram os crimes.

No Rio Grande do Sul, o policial civil e deputado estadual Leonel Radde (PT), que colaborou com a antropóloga Adriana Dias no monitoramento de células neonazistas, separou dois perfis em entrevista ao Extra Classe. Os grupos de gangue, mais antigos, ele associa aos skinheads. Já “o outro grupo, chamado aceleracionista, é mais vinculado a redes sociais”, com Discord, WhatsApp e Telegram.

Radde descreve uma lógica de jogo. Nesses grupos, diz ele, os integrantes “recebem missões a serem cumpridas” e sobem na hierarquia conforme a violência do que fazem.

Fora do Brasil, o relatório da GNET encontrou o mesmo trânsito. Os sinais aceleracionistas aparecem em plataformas alternativas como Telegram, Gab, Odysee e BitChute, em ambientes de jogos como Discord, Steam, Xbox Live, Roblox e Minecraft, e Facebook, Instagram, YouTube e X seguem como alvos de alto valor.

Três coisas diferentes com o mesmo nome

O ARC admite que o militante herda uma crítica ao capitalismo parecida com a das correntes filosóficas. A diferença está no método. Pela divisão do consórcio, só uma das três abraça violência política ou terrorismo.

  • Nascido em textos de teoria, o aceleracionismo filosófico tem raiz em Nick Land na Universidade de Warwick nos anos 1990 e, à esquerda, com o manifesto de Nick Srnicek e Alex Williams, de 2013, que propõe usar a automação para encurtar a jornada de trabalho. O debate acontece em livros, revistas e aulas; o artigo sobre o manifesto e o texto sobre esquerda e direita contam essa história.
  • Já o aceleracionismo efetivo, ou e/acc, surgiu em 10 de julho de 2022, em notas de Beff Jezos e bayeslord no Substack. Prefere mercados competitivos e vê no controle de cima para baixo um jeito de suprimir a variação que permite à civilização se adaptar. É uma briga sobre regulação de tecnologia, travada sobretudo no Vale do Silício.
  • A vertente militante, assunto deste texto, quer agravar divisões sociais pela violência até a sociedade ruir. Nas operações brasileiras, aparece junto de neonazismo, recrutamento de adolescentes e planos de ataque a escolas.

A tabela com as cinco correntes, de Nick Land ao d/acc, está no texto o que é aceleracionismo.

Como saber de qual aceleracionismo um texto fala

  1. Veja quem usa a palavra. Num boletim de polícia ou num relatório da GNET, ela descreve a versão militante. Numa resenha de livro de filosofia ou num debate sobre regulação de inteligência artificial, descreve uma das outras duas.
  2. Pergunte o que se quer acelerar. Tecnologia, automação e crescimento econômico são o assunto das correntes filosóficas e do e/acc. Colapso social e guerra racial aparecem na corrente violenta, segundo o ARC e a GNET.
  3. Procure um crime descrito. A Lei 7.716, de 1989, pune com reclusão de dois a cinco anos e multa quem fabrica, vende, distribui ou veicula símbolos ou propaganda com a suástica para divulgar o nazismo. A incitação à discriminação feita em rede social ou na internet tem a mesma pena.
  4. Repare se o texto dá nome a atiradores. Schurig recomenda que as plataformas moderem hashtags e perfis com os nomes de atiradores neonazistas, e liga a glorificação desses autores à alta da violência nas escolas. Reportagem cuidadosa explica o fenômeno sem dar fama a quem matou.

Onde denunciar

Conteúdo neonazista ou que incite ataques pode ser denunciado de forma anônima na Central Nacional de Denúncias da SaferNet. Segundo a Agência Brasil, basta colar no formulário o link da página, do grupo ou do canal. Em ameaça imediata a uma escola ou a uma pessoa, ligue 190, da Polícia Militar.

Perguntas frequentes

O que é aceleracionismo extremista?

É o nome que polícia e centros de pesquisa sobre terrorismo dão a uma estratégia de grupos violentos, em geral neofascistas: provocar e aprofundar conflitos na sociedade, muitas vezes com atentados, para que ela desmorone mais depressa. Pesquisadores também chamam essa vertente de aceleracionismo militante, para separá-la das correntes filosóficas e do movimento tecnológico que usam a mesma palavra sem defender violência.

Aceleracionismo é crime no Brasil?

A palavra em si não é crime, e ler ou estudar a filosofia aceleracionista é legal. O que a lei pune são condutas: divulgar o nazismo com a suástica, incitar discriminação, fazer apologia de crime, associar-se para cometer crimes ou planejar atentados. Na terceira fase da Operação Accelerare, em 2023, os presos responderam por apologia ao nazismo e associação criminosa, e não por se dizerem aceleracionistas.

Qual a diferença entre aceleracionismo extremista e e/acc?

O e/acc, ou aceleracionismo efetivo, é uma corrente do setor de tecnologia que pede menos regulação e mais velocidade no desenvolvimento de inteligência artificial; seus defensores escrevem, investem e fazem lobby. A versão extremista quer derrubar a ordem social com violência e aparece em investigações policiais. As duas compartilham só o nome, e nenhum relatório policial citado aqui liga uma à outra.

Como denunciar um grupo neonazista na internet?

Copie o endereço da página, do perfil, do grupo ou do canal e cole no formulário da Central Nacional de Denúncias da SaferNet, que aceita relatos sem identificação. Em 2025, a central recebeu 87.689 denúncias novas de crimes na internet, 28,4% a mais que em 2024, segundo a Agência Brasil. Se houver ameaça concreta e imediata contra uma escola ou uma pessoa, a recomendação é ligar 190.

Fontes

  1. Operação Accelerare prende lideranças de grupos extremistas radicais · Polícia Civil do Rio Grande do Sul
  2. Operação Accelerare III prende sete lideranças de grupos nazistas aceleracionistas · Polícia Civil do Rio Grande do Sul
  3. Polícia Civil do Rio Grande do Sul prende sete lideranças de grupos nazistas · Ministério da Justiça e Segurança Pública
  4. Atuação da Inteligência resulta em novas prisões de integrantes de grupos neonazistas · Agência Brasileira de Inteligência
  5. An Introduction to Militant Accelerationism · Accelerationism Research Consortium
  6. Behind the Skull Mask: An Overview of Militant Accelerationism · GNET (ICSR, King's College London)
  7. Terrorgram and Youth Radicalisation: Understanding Brazil's Online Extremist Landscape · GNET
  8. Suspeito de liderar grupo neonazista é preso em Porto Alegre · Extra Classe
  9. PCDF investiga suspeitos de planejar atentados no período eleitoral · Agência Brasil
  10. Indicadores da Central Nacional de Denúncias 2025 · SaferNet Brasil
  11. Denúncias de crimes cibernéticos crescem 28% em 2025, mostra Safernet · Agência Brasil
  12. Denuncie · SaferNet Brasil
  13. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 · Planalto
  14. Notes on e/acc principles and tenets · Beff's Newsletter (Substack)
  15. #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking

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