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Aceleração Eficaz

Nick Land: quem é o filósofo do aceleracionismo, do CCRU à neorreação

Professor em Warwick até 1998 e cofundador do CCRU, o britânico vive em Xangai, escreveu “The Dark Enlightenment” em 2012 e aparece como referência no manifesto de Marc Andreessen de 2023.

Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura

Nick Land é um filósofo britânico, nascido em 1962, que deu aulas na Universidade de Warwick de 1987 a 1998, cofundou ali o grupo CCRU e escreveu a versão mais radical do aceleracionismo: a ideia de que o capitalismo é um processo que deve ser intensificado, e não freado. Vive em Xangai desde os anos 2000.

O percurso dele vai da teoria de esquerda dos anos 1990, que lia Georges Bataille, Karl Marx e a dupla Deleuze e Guattari ao lado de ficção científica e música eletrônica, até a neorreação, corrente antidemocrática conhecida pela sigla NRx. Por isso o nome aparece ao mesmo tempo em teses de filosofia, em fóruns de tecnologia e no manifesto tecno-otimista de Marc Andreessen.

De Warwick a Xangai, ano a ano

As datas abaixo vêm da biografia de Land na Wikipédia em inglês e da reportagem de Andy Beckett publicada no Guardian em 11 de maio de 2017, até hoje o relato mais detalhado sobre o grupo de Warwick. Onde as duas fontes divergem, a lista avisa.

  • 1962 a 1987: nasce em 1962 e termina o doutorado na Universidade de Essex em 1987, com uma tese sobre o ensaio de Heidegger dedicado ao poeta Georg Trakl.
  • 1987: começa a dar aulas de filosofia continental em Warwick, no centro da Inglaterra.
  • 1992: lança pela Routledge The Thirst for Annihilation, livro sobre Georges Bataille e o que o subtítulo chama de niilismo virulento.
  • 1995: Land, Sadie Plant, Mark Fisher, Robin Mackay e cerca de duas dezenas de alunos e professores criam a Cybernetic Culture Research Unit, o CCRU, que funcionou de fato por menos de cinco anos.
  • 1997 e 1998: Plant deixa a universidade em 1997; Land pede demissão no ano seguinte.
  • Começo dos anos 2000: depois de cerca de um ano de abuso de anfetamina, como ele mesmo descreveu, tem um colapso e some da vida pública. Muda-se para Taiwan e, uns dois anos depois, para Xangai.
  • 2004: num artigo para o Shanghai Star, jornal chinês em inglês, chama a fusão chinesa de marxismo e capitalismo de “the greatest political engine of social and economic development the world has ever known”.
  • 2011: a editora britânica Urbanomic publica Fanged Noumena: Collected Writings 1987-2007. No começo de 2017, exemplares usados eram vendidos por 180 libras na Amazon, conta o Guardian.
  • 2012: sai em partes, num blog, The Dark Enlightenment, o ensaio que virou leitura de base da neorreação. A Wikipédia data o texto de 2012; o Guardian fala em 2013.
  • 2014: o ensaio “Teleoplexy: Notes on Acceleration” entra na coletânea #Accelerate: The Accelerationist Reader, também da Urbanomic.
  • 2017: em março, o New Centre for Research & Practice, escola on-line onde ele dava cursos, rompe com ele; em 25 de maio, publica na revista Jacobite “A Quick-and-Dirty Introduction to Accelerationism”.
  • 2022 a 2024: o blog Xenosystems sai do ar em 2022 e volta como livro pela Passage Publishing em 2024; The Dark Enlightenment ganha edição impressa pela Imperium Press em 2022.
  • Outubro de 2023: depois de um intervalo longe das redes, abre a conta Xenocosmography, dedicada a temas religiosos e numerológicos.
  • 2025: a revista Das Questões, da Universidade de Brasília, publica em português o ensaio “Desejo maquínico”, de 1993.

Fisher, o aluno mais famoso daquela turma, é tema de outro texto do blog, sobre Mark Fisher e o realismo capitalista. Os dois seguiram direções opostas depois do fim do grupo.

A influência de Land na filosofia acadêmica passa por outros alunos. Ele deu aulas a Ray Brassier e Iain Hamilton Grant, dois nomes do realismo especulativo, corrente dos anos 2000 que propõe pensar o mundo sem pôr o sujeito humano no centro. O filósofo Graham Harman o descreveu como o primeiro filósofo recente a levar a sério H. P. Lovecraft, o escritor de horror cósmico.

O que Land diz sobre o capitalismo

A tese central cabe numa frase da introdução que ele escreveu para a Jacobite em 2017: “Accelerationism is simply the self-awareness of capitalism, which has scarcely begun.” Em tradução livre: o aceleracionismo seria apenas a autoconsciência do capitalismo, que mal começou.

Land trata o capital como um processo com direção própria. No mesmo texto, escreve que ele “grows in order to grow” e que a humanidade é “its temporary host, not its master”, hospedeira temporária e não dona. Daí a fama de anti-humanista. Mercado, técnica e computação aparecem nos ensaios dele como partes de um único movimento que se acelera sozinho, e a política, quando tenta frear, só atrasa o inevitável.

A palavra que ele herda de Deleuze e Guattari é desterritorialização: o capitalismo desfaz costumes, laços, fronteiras e identidades e transforma tudo em fluxo de dinheiro e informação. “Deterritorialization is the only thing accelerationism has ever really talked about”, diz a introdução de 2017. O trecho do Anti-Édipo (1972) que fala em acelerar o processo, expressão que Deleuze e Guattari tiraram de Nietzsche, é a base dessa leitura.

O tom vem de longe. Em 1992, segundo Beckett, Land já escrevia que o capitalismo nunca tinha sido solto de verdade, porque a política o segurava, “the last great sentimental indulgence of mankind”. Na mesma época, chamou a Europa de “the racial trash-can of Asia”. As duas frases são anteriores em duas décadas à fase neorreacionária.

A China entrou cedo nessa conta. Em Warwick, o CCRU escrevia sobre uma “neo-China” imaginária, com pouco detalhe concreto. Quando passou a morar em Xangai, Land concluiu, segundo disse a Beckett, que o país já era “to a massive degree” uma sociedade aceleracionista, obcecada pelo futuro e mudando em alta velocidade.

Do CCRU vem um termo que circula até hoje em fóruns e em textos sobre memes: hiperstição, a ficção que, ao se espalhar, ajuda a produzir a realidade que descreve. O grupo chamava o próprio gênero de teoria-ficção e misturava cibernética, ocultismo, numerologia, cultura rave e ficção científica. Na conferência Virtual Futures de 1996, segundo relato reproduzido pela Wikipédia, Land fez uma apresentação deitado no chão, grunhindo ao microfone.

O ensaio de 2014 sobre teleoplexia dá nome, em linhas gerais, ao circuito em que técnica e economia se realimentam e ganham velocidade. Não encontramos tradução dele em português até novembro de 2026.

A virada para a neorreação e as acusações de racismo

Depois da mudança para a China, Land voltou a publicar muito na internet, nem sempre com o próprio nome. The Dark Enlightenment organiza ideias que o programador Curtis Yarvin vinha publicando em 2007 e 2008 sob o pseudônimo Mencius Moldbug, segundo o verbete da Wikipédia sobre o movimento. A neorreação propõe trocar a democracia e o Estado nacional por cidades-Estado autoritárias e capitalistas. Land passou a dizer que aceleracionistas deviam apoiar Trump e o Brexit para apressar o fim do status quo.

O Guardian registra que ele escreveu com aprovação sobre “human biodiversity” e “capitalistic human sorting”, rótulos de uma ideia pseudocientífica, popular na extrema direita, de que raças diferentes se sairiam “naturalmente” melhor ou pior nas sociedades modernas. Em março de 2017, o New Centre encerrou a relação com ele depois de tuítes com opiniões intolerantes sobre muçulmanos e imigrantes.

Ray Brassier, filósofo que foi aluno dele em Warwick e organizou a coletânea de 2011, resumiu a mudança ao jornal: “Nick Land has gone from arguing ‘Politics is dead’, 20 years ago, to this completely old-fashioned, standard reactionary stuff.” Ou seja, de quem anunciava a morte da política para um reacionarismo antiquado.

A esquerda aceleracionista também rompeu com ele. O manifesto aceleracionista de Nick Srnicek e Alex Williams, publicado em 14 de maio de 2013, diz que Land captou o fenômeno “most acutely”, mas com uma crença “myopic yet hypnotising”, e que o neoliberalismo landiano “confuses speed with acceleration”. Ao Guardian, Land respondeu que separar a tecnologia do capitalismo “is a deep theoretical error”. Os argumentos dos dois lados estão em aceleracionismo de esquerda e de direita.

Por que o e/acc cita Nick Land

O e/acc, o aceleracionismo efetivo, surgiu em 2022 em posts de Beff Jezos e de um parceiro que assina bayes. O texto “Notes on e/acc principles and tenets”, de 10 de julho de 2022, reconhece a dívida: “Viewing Capitalism as a form of intelligence was also something that Nick Land would emphasize in his original founding text for accelerationism.”

Andreessen foi mais longe. O “The Techno-Optimist Manifesto”, publicado pela a16z em 16 de outubro de 2023, diz: “Combine technology and markets and you get what Nick Land has termed the techno-capital machine, the engine of perpetual material creation, growth, and abundance.” No fim, o texto põe Land numa lista de “Patron Saints of Techno-Optimism”, ao lado de Adam Smith, Ada Lovelace e dos perfis de Beff Jezos e bayes.

A diferença está no lugar do ser humano. Land descreveu como inevitável a “disintegration of the human species” quando a inteligência artificial melhorasse o bastante, nas palavras resumidas por Beckett. O manifesto de 2023 usa a mesma máquina para prometer abundância para as pessoas. Os dois falam do mesmo motor; só um deles aposta que a espécie continua no banco do motorista.

Nick Land em português

Até novembro de 2026 não encontramos livro de Nick Land editado no Brasil. Os textos circulam em inglês, nas edições da Urbanomic, e em espanhol: a editora argentina Caja Negra incluiu “Meltdown” e “Crítica do miserabilismo transcendental” na antologia Aceleracionismo: estrategias para una transición hacia el postcapitalismo, de 2017, segundo o site BaixaCultura.

O caminho mais curto em português é a revista Das Questões, da UnB. A edição v. 20, n. 1, publicada em 31 de outubro de 2025 com o dossiê “CCRU 30 anos”, traz a tradução de “Desejo maquínico”, escrito em 1993, dois anos antes da fundação do CCRU, e uma resenha de O exterminador do futuro: mídia, horror e política em Nick Land, livro de Fabrício Silveira lançado pela Zouk em 2025. Os dois textos são de acesso livre no portal de periódicos da universidade.

Perguntas frequentes

Nick Land é de direita?

Hoje, sim. Nos anos 1990 ele era um professor de filosofia continental que lia autores de esquerda, mas a partir de 2012 passou a escrever para a neorreação, movimento que rejeita a democracia e a igualdade. Defendeu apoiar Trump e o Brexit para apressar o fim da ordem vigente e perdeu vínculo com uma escola on-line em 2017 por tuítes contra muçulmanos e imigrantes.

Quais livros de Nick Land existem em português?

Nenhum livro inteiro dele saiu no Brasil até novembro de 2026, pelo que conseguimos apurar. Em português há a tradução do ensaio “Desejo maquínico”, de 1993, publicada de graça pela revista Das Questões, da UnB, em 2025. Em inglês, a porta de entrada é Fanged Noumena (Urbanomic, 2011); em espanhol, a antologia da Caja Negra de 2017.

O que foi o CCRU?

A Cybernetic Culture Research Unit foi um coletivo criado em 1995 por Nick Land, Sadie Plant e estudantes da Universidade de Warwick, entre eles Mark Fisher. Funcionou por menos de cinco anos, primeiro numa sala do departamento de filosofia e depois num quarto alugado em Leamington Spa. Produzia teoria-ficção, misturando cibernética, ocultismo, ficção científica e música eletrônica.

Qual a relação entre Nick Land e o e/acc?

O e/acc pegou de Land a ideia de tratar o capitalismo como uma forma de inteligência, como admite o texto de princípios publicado por Beff Jezos e bayes em julho de 2022. Marc Andreessen atribuiu a Land a expressão techno-capital machine e o listou entre os patronos do seu manifesto de 2023. O e/acc, porém, troca o pessimismo anti-humano de Land por uma promessa de abundância.

Fontes

  1. Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian (Andy Beckett, 11/05/2017)
  2. Nick Land · Wikipedia (inglês)
  3. A Quick-and-Dirty Introduction to Accelerationism · Jacobite (Nick Land, 25/05/2017), cópia do Internet Archive
  4. Dark Enlightenment · Wikipedia (inglês)
  5. #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking (Srnicek e Williams, 14/05/2013)
  6. Notes on e/acc principles and tenets · Beff Jezos e bayes, Substack (10/07/2022)
  7. The Techno-Optimist Manifesto · a16z (Marc Andreessen, 16/10/2023)
  8. Desejo maquínico (tradução) · Das Questões, UnB, v. 20, n. 1 (2025)
  9. Resenha de O exterminador do futuro: mídia, horror e política em Nick Land · Das Questões, UnB, v. 20, n. 1 (2025)
  10. Os interrompidos sonhos aceleracionistas da cultura popular (apresentação) · BaixaCultura (16/05/2024)

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