Mark Fisher e o realismo capitalista: o conceito, o k-punk e o que ler em português
O livro de 81 páginas que o autor do blog k-punk lançou no fim de 2009 vendeu 55 mil exemplares em inglês até março de 2019, segundo a London Review of Books, e chegou ao Brasil em 2020 pela Autonomia Literária.
Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura
Mark Fisher (1968-2017) foi um crítico cultural britânico, autor do blog k-punk e do livro Realismo capitalista (2009). O termo nomeia, nas palavras dele, a sensação generalizada de que o capitalismo é o único sistema viável e de que nem sequer se consegue imaginar uma alternativa. A edição brasileira é da Autonomia Literária, de 2020.
Para quem chega pelo aceleracionismo, Fisher é uma ponte. Passou boa parte dos anos 1990 no CCRU, o grupo de pesquisa de Nick Land na Universidade de Warwick, e nos anos 2010 virou uma das vozes do aceleracionismo de esquerda, a corrente que quer usar a tecnologia criada pelo capitalismo para ir além dele.
O que o livro chama de realismo capitalista
O nome brinca com o realismo socialista, a estética oficial da União Soviética. O subtítulo original, Is There No Alternative?, responde ao slogan de Margaret Thatcher, “There is no alternative” (não há alternativa). A definição vem logo no começo: realismo capitalista é “a sensação generalizada de que não só o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até imaginar uma alternativa coerente a ele”, em tradução livre do trecho reproduzido pela página do livro na Wikipédia em inglês.
Fisher avisa que o fenômeno vai além da publicidade. Ele o descreve como algo “mais parecido com uma atmosfera difusa, que condiciona não apenas a produção da cultura, mas também a regulação do trabalho e da educação, e age como uma espécie de barreira invisível que restringe o pensamento e a ação” (em tradução livre).
O exemplo central é o socorro aos bancos depois da crise financeira de 2008. Para os políticos e para a população, argumenta o livro, deixar o sistema bancário quebrar era inimaginável, e por isso o dinheiro público entrou.
O livro trabalha ainda com outros dois conceitos. A ontologia empresarial (business ontology) é a ideologia em que qualquer propósito, da escola ao hospital, só se explica em termos de negócio. A impotência reflexiva descreve quem sabe que o sistema vai mal, mas acredita que não há nada a fazer; segundo Fisher, essa crença se cumpre sozinha e cobra um preço da saúde mental.
O momento ajudou. O livro saiu, lembra Jenny Turner, um ano depois do crash financeiro e quase dois depois da corrida ao banco britânico Northern Rock.
De onde vem a frase sobre o fim do mundo
O primeiro capítulo se chama, no original, “It’s easier to imagine the end of the world than the end of capitalism”: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Fisher atribui a frase, ao mesmo tempo, ao crítico americano Fredric Jameson e ao filósofo esloveno Slavoj Žižek, e diz que ela resume o realismo capitalista.
A resenha da jornalista Jenny Turner na London Review of Books de 9 de maio de 2019 aponta a formulação mais antiga num livro de Jameson de 1991, Postmodernism, or the Cultural Logic of Late Capitalism. Ali ele escreve que “parece ser mais fácil para nós, hoje, imaginar a deterioração completa da Terra e da natureza do que o colapso do capitalismo tardio; talvez isso se deva a alguma fraqueza da nossa imaginação” (em tradução livre). Turner observa que Fisher escrevia quase vinte anos depois, com os processos descritos por Jameson já bem mais avançados.
No Brasil, a frase virou chamada do livro. A página da Autonomia Literária apresenta Realismo capitalista com a pergunta “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?”, e o site Outras Palavras anunciou o lançamento em 29 de setembro de 2020 com o título “O fim do mundo ou o fim do capitalismo?”.
k-punk, o blog que virou livro de 817 páginas
Fisher nasceu em Leicester, na Inglaterra, em 11 de julho de 1968. Formou-se na Universidade de Hull em 1989 e defendeu o doutorado em Warwick em 1999, com a tese Flatline Constructs: Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction, segundo a biografia dele na Wikipédia em inglês. Antes dos livros, deu aulas de filosofia num further education college, as escolas britânicas de ensino pós-secundário.
Em 2003 abriu o k-punk, um blog sobre discos, cinema, televisão, história britânica recente e filosofia francesa. O crítico de música Simon Reynolds o chamou de “uma revista de um homem só, superior à maioria das revistas da Grã-Bretanha” (em tradução livre). O blog durou até 2015.
Três anos depois, em novembro de 2018, a editora Repeater reuniu esses textos e inéditos em k-punk: The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher, organizado por Darren Ambrose, com 817 páginas.
Fisher também foi editor. Ajudou a fundar a Zero Books, que publicou Realismo capitalista, e depois a Repeater, ativa desde 2014; as duas eram tocadas pelo romancista Tariq Goddard, amigo dele, conta Turner na LRB. O livro de estreia tinha 81 páginas, vendeu mais de 30 mil exemplares até 2017 e passava de 55 mil em março de 2019. Nos últimos anos de vida, Fisher dava aulas no departamento de Culturas Visuais do Goldsmiths, em Londres.
A ponte entre o CCRU e o aceleracionismo de esquerda
O CCRU (Cybernetic Culture Research Unit) nasceu em 1995, criado por Sadie Plant, Nick Land, Robin Mackay, Fisher e mais umas duas dúzias de estudantes e professores de Warwick, segundo a reportagem de Andy Beckett no Guardian de 11 de maio de 2017. Fisher parece ter mantido lealdade pessoal a Land, anota Turner, mas não o acompanhou na virada para a neorreação.
A mesma reportagem do Guardian conta como a ideia passou para outra geração. O CCRU se desfez no começo dos anos 2000. Uns seis anos depois, Nick Srnicek, então mestrando de ciência política na Universidade de Western Ontario, no Canadá, começou a ler o k-punk. Fisher achava o capitalismo uma decepção para quem queria aceleração, com empresas cautelosas e ciclos de produtos quase iguais, e se irritava com uma esquerda que ignorava a tecnologia nova. Os dois ficaram amigos.
Em 2013, Srnicek e Alex Williams lançaram o manifesto aceleracionista. Fisher assinou uma das frases de apresentação do livro seguinte da dupla, Inventing the Future (2015): segundo a página da editora Verso, ele o chamou de “exatamente o que precisamos agora” (em tradução livre).
A versão mais clara do aceleracionismo de Fisher está no ensaio que ele publicou na revista e-flux em junho de 2013. O texto abre com “Vivemos um momento de profunda desaceleração cultural” e propõe ler o aceleracionismo “não como uma forma herética de marxismo, mas como uma tentativa de convergir, intensificar e politizar as dimensões mais desafiadoras e exploratórias da cultura popular”, na tradução de Victor Wolfenbüttel e Leonardo Foletto publicada pelo BaixaCultura em 16 de maio de 2024.
No mesmo ensaio, Fisher chama a passagem do Anti-Édipo sobre “acelerar o processo” de possível epígrafe do aceleracionismo e lembra que Land a usou nos anos 1990 “para fins explicitamente antimarxistas” (em tradução livre). A proposta dele era ler o trecho de Deleuze e Guattari como um modelo novo do que o marxismo poderia ser. O alvo da crítica era uma esquerda “reduzida a defender, sem competência, relíquias na forma de compromissos antigos (a social-democracia, o New Deal)”.
Comunismo ácido, o quarto livro que ficou pela metade
Quando morreu, Fisher trabalhava num quarto livro, Acid Communism. O rascunho inacabado fecha hoje a coletânea k-punk, segundo a LRB. “O conceito de comunismo ácido é uma provocação e uma promessa”, escreveu ele, “uma espécie de piada, mas com um propósito muito sério” (em tradução livre).
A ideia era voltar aos anos 1970 e ler o começo da restauração neoliberal como uma tentativa deliberada de conter o “surto democrático” do pós-guerra. Naqueles anos, na leitura de Fisher, cada vez mais gente via o que o filósofo Herbert Marcuse chamou de “o espectro de um mundo que poderia ser livre”. A tarefa, escreveu, era “recuperar o otimismo daquele momento dos anos 1970” e analisar as máquinas que o capital usou para converter confiança em desânimo.
A leitura da Aceleração Eficaz é que esse projeto inacabado explica por que Fisher é lido de novo no debate sobre inteligência artificial. Quando a automação aparece só como corte de custo e demissão, e ninguém pergunta por jornada menor ou renda, o horizonte fica exatamente onde Realismo capitalista dizia que ele estava.
Fisher morreu em 13 de janeiro de 2017, aos 48 anos, em Felixstowe, no litoral de Suffolk, depois de anos de depressão, segundo a Wikipédia. The Weird and the Eerie saiu pouco depois (a LRB data o livro de 2016; a Wikipédia, de 2017). A primeira Mark Fisher Memorial Lecture, no Goldsmiths, em janeiro de 2018, foi dada pelo artista Kodwo Eshun, que lembrou os simpósios de Fisher sobre aceleracionismo, em 2011, e sobre H. P. Lovecraft, em 2012.
O que ler primeiro, em português
Os livros de Fisher saem no Brasil pela Autonomia Literária desde 2020. Uma ordem possível para começar, com os dados das páginas da editora:
- Realismo capitalista (2020), tradução de Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira, posfácio de Victor Marques, 218 páginas. É o texto curto que apresenta o conceito.
- O ensaio “Os interrompidos sonhos aceleracionistas da cultura popular”, de 2013, que o BaixaCultura publicou de graça em maio de 2024. Mostra o que Fisher entendia por aceleracionismo.
- Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos (2022), tradução de Guilherme Ziggy, prefácio de Amauri Gonzo, 288 páginas. Textos sobre Joy Division, Burial, John le Carré e Christopher Nolan, em torno da tese de que vivemos assombrados por futuros que não aconteceram.
- Desejo pós-capitalista: últimas aulas (2025), tradução de Fábio Fernandes, 272 páginas. Transcreve o último curso de Fisher no mestrado do Goldsmiths, lançado em inglês em 2020.
- Do realismo capitalista ao comunismo ácido: o legado de Mark Fisher (2023), de Antônio Galvão, juiz e doutorando em filosofia do direito na USP, com prefácio de Alysson Mascaro e 184 páginas. É um estudo brasileiro sobre a obra inteira.
Quem lê espanhol encontra o rascunho de Acid Communism no terceiro volume de K-Punk, da argentina Caja Negra (2021, tradução de Patricio Orellana). Em português, os dois lançamentos mais novos são de 2026: O estranho e o sinistro, tradução de Rodrigo Gonsalves para The Weird and the Eerie, e Constructos flatline: materialismo gótico e ficção teórica cibernética, de Humberto do Amaral, com 320 páginas. É a tese de doutorado que Fisher defendeu em Warwick em 1999, publicada no Brasil 27 anos depois.
Perguntas frequentes
O que é realismo capitalista?
É o nome que Mark Fisher deu, em livro de 2009, à crença difundida de que não existe alternativa ao capitalismo e de que nem dá para imaginar uma. Para ele, essa crença molda a cultura, o trabalho, a escola e a saúde mental das pessoas, e não apenas os programas de governo. O conceito brinca com o realismo socialista soviético.
Quem disse que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?
Mark Fisher atribuiu a frase a Fredric Jameson e a Slavoj Žižek e a usou como título do primeiro capítulo de Realismo capitalista. A versão mais antiga apontada pela London Review of Books está num livro de Jameson de 1991 sobre o pós-modernismo, em formulação mais longa, que fala da deterioração da Terra e do colapso do capitalismo tardio.
Mark Fisher era aceleracionista?
Era, na vertente de esquerda. Ele fez parte do CCRU de Nick Land em Warwick, mas não seguiu Land na guinada para a neorreação. Num ensaio de 2013 para a revista e-flux, defendeu um aceleracionismo ligado à cultura popular e, em 2015, recomendou publicamente Inventing the Future, de Nick Srnicek e Alex Williams, de quem era amigo.
Quais livros de Mark Fisher existem em português?
Pela Autonomia Literária saíram Realismo capitalista (2020), Fantasmas da minha vida (2022), Desejo pós-capitalista: últimas aulas (2025), O estranho e o sinistro (2026) e Constructos flatline (2026), versão em livro da tese de doutorado. A coletânea k-punk, onde está o rascunho de Acid Communism, tem edição em espanhol, mas esta redação não encontrou tradução brasileira em livro.
Fontes
- Mark Fisher · Wikipedia (inglês)
- Capitalist Realism · Wikipedia (inglês)
- Not No Longer but Not Yet (resenha de k-punk) · London Review of Books, v. 41, n. 9 (Jenny Turner, 09/05/2019)
- Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian (Andy Beckett, 11/05/2017)
- A social and psychic revolution of almost inconceivable magnitude: Popular Culture's Interrupted Accelerationist Dreams · e-flux journal #46 (Mark Fisher, junho de 2013)
- Os interrompidos sonhos aceleracionistas da cultura popular · BaixaCultura (tradução de Victor Wolfenbüttel e Leonardo Foletto, 16/05/2024)
- Realismo capitalista · Autonomia Literária (2020)
- Fantasmas da minha vida · Autonomia Literária (2022)
- Desejo pós-capitalista: últimas aulas · Autonomia Literária (2025)
- O estranho e o sinistro · Autonomia Literária (2026)
- Constructos flatline: materialismo gótico e ficção teórica cibernética · Autonomia Literária (2026)
- Do realismo capitalista ao comunismo ácido: o legado de Mark Fisher · Autonomia Literária (Antônio Galvão, 2023)
- O fim do mundo ou o fim do capitalismo? · Outras Palavras (Simone Paz, 29/09/2020)
- Inventing the Future · Verso Books
- K-Punk, volumen 3 (Caja Negra, 2021) · Arts Libris, ficha do livro