Manifesto aceleracionista: o que Srnicek e Williams propuseram em 2013 e as quatro demandas de Inventing the Future
Publicado em 14 de maio de 2013, o texto tem 37 pontos em três partes, ganhou tradução brasileira na revista Lugar Comum, da UFRJ, em 2014, e virou livro pela Verso em 2015.
Redação Aceleração Eficaz · · 11 min de leitura
O Manifesto aceleracionista, nome curto de #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics, foi publicado por Alex Williams e Nick Srnicek em 14 de maio de 2013 no site Critical Legal Thinking. O texto pede que a esquerda use a tecnologia criada pelo capitalismo para construir um pós-capitalismo. Em português, saiu em 2014 na revista Lugar Comum, da UFRJ.
São 37 pontos numerados. Segundo a reportagem de Andy Beckett no The Guardian, de maio de 2017, blogs de política e filosofia do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Itália passaram a dizer que os dois tinham fundado uma filosofia política nova, o “aceleracionismo de esquerda”. Dois anos depois do manifesto veio o livro, com quatro demandas concretas.
Quem são Nick Srnicek e Alex Williams
Nick Srnicek é canadense, nascido em 1982. Fez mestrado na University of Western Ontario, concluído em 2007, e doutorado em relações internacionais na London School of Economics, com a tese Representing complexity, de 2013, segundo a Wikipédia em inglês. Hoje dá aula de economia digital no King's College London.
Foi em Western Ontario, conta Beckett, que o então mestrando começou a ler o k-punk, blog de Mark Fisher, autor de Realismo capitalista, e ficou amigo dele. A crise financeira de 2008 e a resposta da esquerda, que o jornal descreve como ineficaz e antiquada (os protestos de rua do Occupy, por exemplo), convenceram Srnicek de que faltava uma política radical atualizada.
Alex Williams aparece na mesma reportagem como “um jovem teórico político britânico” (em tradução livre, como as demais citações do inglês neste texto). Na nota biográfica da tradução brasileira, de 2014, ele era doutorando na University of East London, e Srnicek, professor bolsista de geopolítica e globalização na University College London. A nota anunciava um livro em preparo, Folk Politics. O que saiu em 2015 foi Inventing the Future, cujos dois primeiros capítulos tratam justamente da “folk politics”.
O que diz o manifesto, parte por parte
O original em inglês tem três seções: “Introduction: On the Conjuncture”, com 6 pontos; “Interregnum: On Accelerationisms”, com 7; e “Manifesto: On the Future”, com 24. A tradução de Bruno Stehling, doutorando na ECO/UFRJ e integrante da rede Universidade Nômade, saiu no número 41 da Lugar Comum, na seção “Maquinações”. As citações em português a seguir vêm dela.
Conjuntura: o futuro cancelado
A primeira parte abre com o colapso do sistema climático, o esgotamento das reservas de água e energia e a crise financeira que levou governos à austeridade. Cita também a automação crescente, “inclusive no trabalho intelectual”. Diante disso, a política recua. O ponto 3 fecha o diagnóstico: “Nessa paralisia do imaginário político, o futuro foi cancelado.”
Interregno: contra Land, com Marx
A segunda parte separa dois sentidos de acelerar. O alvo é Nick Land, descrito como dono de uma “crença míope, porém hipnótica, de que a velocidade capitalista por si só poderia gerar uma transição global” rumo a uma singularidade tecnológica. Para Williams e Srnicek, “o neoliberalismo de Land confunde velocidade com aceleração”. O capital corre, mas dentro de parâmetros que nunca mudam: é “uma simples arremetida descerebrada”.
O ponto 3 recorre a Deleuze e Guattari e ao “acelerar o processo” do Anti-Édipo: “o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra”. Traduzindo, o capitalismo solta forças novas e logo as amarra de novo ao lucro.
Há também uma linha sobre trabalho que hoje se lê de outro jeito. O ponto 4 diz que a pequena elite de trabalhadores intelectuais encolhe, e cada vez mais “na medida em que a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual”.
Marx entra no ponto 5 como o pensador aceleracionista por excelência, ao lado de Land. As conquistas do capitalismo, diz o texto, não deveriam ser revertidas, e sim “aceleradas para além das restrições da forma valor capitalista”. O ponto 6 cita Lênin em “Esquerdismo: doença infantil do comunismo” (1918): “O socialismo é inconcebível sem a engenharia capitalista de larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna.”
Manifesto: o que fazer
A terceira parte começa por uma divisão interna da esquerda. De um lado, quem sustenta “uma política popular de localismo, ação direta e incansável horizontalismo”. Do outro, uma política aceleracionista com “uma modernidade de abstração, complexidade, globalidade e tecnologia”. Os autores ficam com o segundo grupo e dizem que o fracasso do primeiro “está embutido desde o começo”.
O ponto 2 é o mais citado: “Todos queremos trabalhar menos.” Ele lembra que Keynes, em “Perspectivas Econômicas para Nossos Netos” (1930), previu jornadas de três horas por dia, e que o resultado foi o oposto, com o trabalho tomando a vida inteira. Dois pontos depois vem o aviso contra a nostalgia: “Nenhum retorno ao fordismo é possível.”
Sobre tecnologia, a posição tem duas metades. A base material do neoliberalismo não precisa ser destruída; deve servir de “um trampolim para lançar o pós-capitalismo” (ponto 5). E o ponto 7 diz “Queremos acelerar o processo de evolução tecnológica”, com a ressalva de que “o que estamos defendendo não é tecnutopismo”.
O planejamento volta ao centro. Para o ponto 8, “qualquer pós-capitalismo exigirá planejamento pós-capitalista”, e o 9 lista as ferramentas: análise de redes sociais, modelagem baseada em agentes, big data e modelos econômicos de não equilíbrio. “A esquerda aceleracionista deve se alfabetizar em cada uma dessas áreas técnicas.” O exemplo histórico é o Cybersyn, projeto de gestão da economia do governo de Salvador Allende, no Chile (1971-1973), que o texto chama de “emblemático dessa atitude experimental”.
Do ponto 11 ao 18, o assunto é poder. “Plataformas são a infraestrutura da sociedade global”, escrevem, e a esquerda precisa de “hegemonia sociotécnica”. Protesto não basta: o hábito de “marchar, erguer cartazes, e estabelecer zonas autônomas temporárias” corre o risco de virar substituto confortável para o resultado efetivo. A fórmula de organização está no ponto 14: “O comando do Plano deve ser casado com a ordem improvisada da Rede.”
Para o médio prazo, três metas. Montar uma infraestrutura intelectual que imite a Sociedade Mont Pelerin, o clube que preparou o neoliberalismo. Reformar a mídia em larga escala. E reconstituir o poder de classe sem esperar que um proletariado global surja sozinho.
O fecho pede “uma política prometeica de domínio máximo sobre a sociedade e seu ambiente” (ponto 21) e põe a alternativa sem meio-termo: “A escolha que enfrentamos é séria: um pós-capitalismo globalizado ou uma lenta fragmentação rumo ao primitivismo, à crise perpétua e ao colapso ecológico planetário.” O ponto 24 cabe em seis palavras: “O futuro precisa ser construído.”
Do manifesto ao livro
Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work saiu pela Verso, em Londres, em 2015, com 245 páginas. Os capítulos 1 e 2 criticam a “folk politics”, a esquerda que desde os anos 1960 prefere protesto, resistência e ação imediata a metas de longo prazo. O capítulo 3 compara isso com a estratégia de cima para baixo do neoliberalismo, do Colóquio Walter Lippmann à Sociedade Mont Pelerin, passando por redes de think tanks, segundo a sinopse do livro.
Beckett conta que o livro teve elogios do deputado trabalhista Jon Cruddas e dos escritores Paul Mason e Mike Davis. E que a palavra aceleracionismo não aparece nele. “Desistimos do termo”, disse Srnicek. “Ficou popularizado demais. E, de todo modo, não queremos apenas que tudo vá mais rápido. Defender uma semana de trabalho mais curta é defender que a vida das pessoas desacelere.”
Em outubro de 2016, a Verso lançou uma nova edição, com 272 páginas e um capítulo em que os autores respondem aos críticos.
As quatro demandas de Inventing the Future
O capítulo 6 propõe uma espécie de “Mont Pelerin da esquerda” para empurrar quatro demandas. A tabela mostra cada uma e de onde ela vem no manifesto de 2013.
| Demanda | O que o livro pede | Raiz no manifesto de 2013 |
|---|---|---|
| Automação total | Passar para máquinas o máximo possível de trabalho. O livro cita pesquisas segundo as quais de 47% a 80% dos empregos atuais poderiam ser automatizados (p. 112), com exceções como o cuidado. | Ponto 7 da terceira parte: “Queremos acelerar o processo de evolução tecnológica.” |
| Jornada menor | Reduzir a semana de trabalho e dividir melhor o trabalho que sobrar. | Ponto 2: “Todos queremos trabalhar menos.”, com a previsão de Keynes de três horas por dia. |
| Renda básica | Uma renda incondicional e generosa para todos os cidadãos. | A expressão renda básica não aparece no manifesto; entra no livro. |
| Fim da ética do trabalho | Diminuir o peso moral do emprego como medida do valor de uma pessoa. | Ponto 2, que acusa o trabalho de permear cada aspecto da vida. |
Chris Newlove, na revista International Socialism (n. 152, outono de 2016), resume o argumento. Com jornada menor, a automação poderia acrescentar um dia ao fim de semana. Com renda suficiente para viver, o trabalhador poderia recusar emprego mal pago ou penoso, e o serviço visto como subalterno teria de pagar mais.
A sinopse amarra as quatro num circuito: encarecer o trabalho estimula o investimento em tecnologia que poupa trabalho, e a oferta mais apertada de mão de obra acelera de novo a técnica. A ideia de que a máquina pode devolver tempo livre tem um antecessor de 1857-1858, o Fragmento sobre as máquinas, de Marx.
O parentesco com o comunismo de luxo totalmente automatizado, de Aaron Bastani, é explícito na imprensa: a resenha de Ian Lowrie na Los Angeles Review of Books, de 8 de janeiro de 2016, diz que os dois pedem “algo como” esse comunismo.
Capitalismo de plataforma e os livros seguintes
Sozinho, Srnicek escreveu Platform Capitalism, pela editora britânica Polity. A página da Wikipédia sobre o conceito data o livro de 2016; a do autor, de 2017. O tema já estava no manifesto, e o livro o torna teoria econômica: plataformas se põem no meio das trocas de terceiros para extrair dados. Na tradução de Inês Castilho para uma resenha de Frank Pasquale publicada no Outras Palavras, em 2017: “Ao proporcionar um espaço digital para outros interagirem”, explica Srnicek, “as plataformas posicionam-se de modo a extrair dados”.
O livro separa cinco tipos de plataforma: de publicidade (Google, Facebook), de nuvem (Amazon Web Services, Salesforce), industriais (GE, Siemens), de produto (Spotify) e as que o Outras Palavras chamou de plataformas de bicos (Uber, Airbnb).
Não encontramos edição brasileira em livro até 1º de novembro de 2026. Em espanhol, saiu como Capitalismo de plataformas (Caja Negra, Buenos Aires, 2018), resenhado por Julián Tylbor no La Izquierda Diario em janeiro de 2019; lá, o quinto tipo virou “plataformas austeras”.
Em 2023, com a pesquisadora de cinema Helen Hester, autora de Xenofeminism, ele publicou After Work: A History of the Home and the Fight for Free Time (Verso, 288 páginas). O tema volta à jornada, agora pelo lado de casa. Segundo a Publishers Weekly, o livro estuda o trabalho doméstico em cinco países do norte da Europa e nos Estados Unidos e sustenta que a técnica, da tina à máquina de lavar, criou mais trabalho, e não mais tempo livre.
As críticas, da esquerda e de Land
Newlove previu que o livro se tornaria “uma obra cada vez mais influente” e registrou que um No Jobs Bloc inspirado nele marchou no protesto da People's Assembly contra a austeridade, em abril de 2016. Mas fez três reparos. Os autores veem a classe trabalhadora como fraca demais para mudar a sociedade. Tomam a precarização generalizada como certa sem muita evidência empírica. E trocam a hegemonia de Gramsci pela versão de Ernesto Laclau.
Lowrie, então doutorando em antropologia na Rice University, foi mais duro com a ecologia. Escreveu que a dupla mostra “praticamente nenhuma autorreflexão” sobre o vínculo da microeletrônica com regimes de produção brutalmente extrativos e que é “otimista demais” sobre a difusão de saber que o controle popular de uma economia planejada por máquinas exigiria. Mesmo assim, admitiu que é difícil negar a força de persuasão do livro.
Land respondeu numa frase, ao Guardian: “A noção de que a tecnologia que se autoimpulsiona é separável do capitalismo é um erro teórico profundo.” Srnicek, na mesma reportagem, disse que a obra de Land “é uma leitura válida de Deleuze e Guattari” e recusou o “inumanismo” dela.
No Brasil, Rodrigo Santaella Gonçalves (IFCE) e Victor Marques (UFABC) trataram do assunto na revista Das Questões, da UnB, em 2021. O artigo opõe o aceleracionismo de direita, “fáustico”, de Land, ao de esquerda, “prometeico”, de Fisher. E põe Srnicek e Williams ao lado de Aaron Bastani e da dupla Phillips e Rozworski entre os que levaram a provocação filosófica para o debate de estratégia.
O manifesto diante da IA
A leitura da Aceleração Eficaz é que a linha do ponto 4 sobre automação algorítmica no trabalho intelectual e afetivo, escrita em 2013, descreve bem o que a IA generativa passou a fazer depois de 2022, de texto a atendimento. O manifesto acertou a direção. Errou no otimismo sobre quem controlaria essas máquinas.
O próprio Srnicek foi por esse caminho. Silicon Empires: The Fight for the Future of AI saiu pela Polity em outubro de 2025. Na descrição reproduzida por Stuart Elden no blog Progressive Geographies, a IA atual, longe de ser uma tecnologia disruptiva, “parece destinada a consolidar o poder e a posição das big techs”. O lançamento no King's College London foi em 10 de dezembro de 2025, no Bush House, com Juan Grigera, professor de desenvolvimento internacional.
Até 1º de novembro de 2026, nenhum livro de Srnicek tinha edição brasileira que pudéssemos confirmar. A tradução do manifesto feita em 2014 continua aberta, em PDF, na página da revista Lugar Comum no portal de periódicos da UFRJ.
Perguntas frequentes
O que é o Manifesto aceleracionista?
É o texto #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics, de Alex Williams e Nick Srnicek, publicado em 14 de maio de 2013 no site Critical Legal Thinking. Em 37 pontos, defende que a esquerda abandone a política só local e de protesto e use a tecnologia e a capacidade de planejamento criadas pelo capitalismo para construir uma sociedade pós-capitalista. Há tradução em português, de Bruno Stehling, na revista Lugar Comum, da UFRJ.
Quais são as quatro demandas de Inventing the Future?
O livro de 2015, da editora Verso, pede automação total de todo trabalho possível, redução da semana de trabalho com divisão do que sobrar, uma renda incondicional e generosa para todos e o enfraquecimento da ética do trabalho. Os autores argumentam que encarecer a mão de obra empurra empresas a investir em máquinas que poupam trabalho, e que esse ciclo libera tempo para as pessoas.
Qual a diferença entre o aceleracionismo de Srnicek e Williams e o de Nick Land?
Land vê o capitalismo como a própria força de aceleração e acha que separar tecnologia e capital é, nas palavras dele ao Guardian, um erro teórico profundo. Srnicek e Williams dizem que o capital só corre dentro de trilhos fixos e querem uma aceleração com direção, planejada e controlada coletivamente, que use as máquinas para reduzir a jornada e chegar a outro sistema econômico.
Capitalismo de plataforma tem edição em português?
Não achamos edição brasileira de Platform Capitalism, livro de Nick Srnicek publicado pela Polity, até 1º de novembro de 2026. Em espanhol, existe Capitalismo de plataformas, da editora argentina Caja Negra, de 2018. Em português, há resenhas traduzidas, como a de Frank Pasquale no site Outras Palavras, de 2017, que reproduz a tabela com os cinco tipos de plataforma descritos pelo autor.
Fontes
- #ACCELERATE MANIFESTO for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking
- Manifesto aceleracionista (tradução de Bruno Stehling), Lugar Comum n. 41 · Revista Lugar Comum, UFRJ
- Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian (Andy Beckett, 11/05/2017)
- Inventing the Future · Wikipédia (inglês)
- Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work · Verso Books
- Nick Srnicek · Wikipédia (inglês)
- For a right not to work (Chris Newlove), International Socialism n. 152 · International Socialism / Marxists Internet Archive
- On Algorithmic Communism (Ian Lowrie, 08/01/2016) · Los Angeles Review of Books
- Platform capitalism · Wikipédia (inglês)
- Os desafios cruciais da era Uber (Frank Pasquale, trad. Inês Castilho) · Outras Palavras
- [Reseña] Capitalismo de plataformas (Julián Tylbor, 27/01/2019) · La Izquierda Diario
- After Work: A History of the Home and the Fight for Free Time · Publishers Weekly
- Nick Srnicek, Silicon Empires: The Fight for the Future of AI (Polity, October 2025) · Progressive Geographies (Stuart Elden)
- Book Discussion: Silicon Empires - The Fight for the Future of AI · King's College London
- Por uma política orientada ao futuro: a provocação filosófica e estratégica do “aceleracionismo de esquerda” · Revista Das Questões, UnB (2021)