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Aceleração Eficaz

Comunismo de luxo totalmente automatizado: a tese de Aaron Bastani

Do meme de 2014 ao manifesto da Verso e à tradução brasileira: o que o jornalista da Novara Media propõe, de onde vem a ideia e por que a crítica a chama de aceleracionismo de esquerda.

Redação Aceleração Eficaz · · 10 min de leitura

Comunismo de luxo totalmente automatizado é a tese do jornalista britânico Aaron Bastani, cofundador da Novara Media: automação, energia solar, mineração de asteroides e edição genética podem acabar com a escassez, desde que a propriedade dessas tecnologias seja coletiva. O livro saiu pela Verso em junho de 2019 e no Brasil em 2023, pela Autonomia Literária.

A expressão é mais velha que o livro. Bastani a usou pela primeira vez em 2014, num vídeo da série IMO Bastani, e ela correu a internet como meme, inclusive na variante "fully automated luxury gay space communism". Os pesquisadores Thomas Hobson e Kaajal Modi a descreveram como uma frase dita meio de brincadeira por esquerdistas de Londres. Cinco anos depois, a brincadeira virou um livro de 288 páginas.

Um jornalista de Bournemouth na Novara Media

Bastani nasceu Aaron John Peters, em Bournemouth, no sul da Inglaterra, em 25 de fevereiro de 1984. O pai, Mammad Bastani, chegou ao Reino Unido como refugiado da Revolução Iraniana. A mãe trabalhou com limpeza, serviços e cuidados pessoais. Em 2014 ele trocou de sobrenome e passou a usar o do pai, segundo o verbete da Wikipédia em inglês.

Fez graduação e mestrado na University College London e doutorado na Royal Holloway, terminado em 2015 sob orientação de Andrew Chadwick. A tese tem um título que já anuncia o personagem: "Strike! Occupy! Retweet!", sobre ação coletiva nas ruas e ação conectada nas redes na Grã-Bretanha da austeridade.

Os protestos contra o aumento das mensalidades universitárias, em 2010, aproximaram Bastani e James Butler, apresentados pela jornalista Laurie Penny. Em 2011 os dois fundaram a Novara Media, batizada com o nome da cidade italiana de A classe operária vai ao paraíso, o filme de Elio Petri. Começou como um programa de rádio de uma hora na Resonance FM e cresceu com o vídeo e com a liderança de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista, que apoiava. Em 2023, a revista New Statesman pôs Bastani em 50º lugar entre as figuras mais influentes da esquerda britânica. Ele escreve com frequência para o site UnHerd.

Da reportagem de 2015 ao manifesto da Verso

Em 18 de março de 2015, o jornalista Brian Merchant dedicou ao tema uma reportagem no Guardian. Bastani disse ali que, num mundo de robôs, "a única demanda utópica possível é a automação total de tudo e a propriedade comum do que for automatizado" (em tradução livre). Na prática, pediria semana de 10 ou 12 horas, salário social garantido e moradia, educação e saúde asseguradas a todos.

A mesma reportagem mostra que a ideia tinha parentes. O grupo de esquerda Plan C contou ter visto o lema "Luxury for All" numa manifestação em Berlim, em meados dos anos 2000, e citou como inspiração a trilogia marciana de Kim Stanley Robinson e A Pattern Language, tratado utópico escrito por três arquitetos nos anos 1970. Bastani preferia outra genealogia: uma leitura moderna de O capital e dos Grundrisse de Marx. Imaginava, por exemplo, um Uber municipal, de carros sem motorista e sem lucro. Resumiu a estratégia numa imagem: "trata-se de tomar a padaria, e não de roubar o pão" (em tradução livre).

O livro, Fully Automated Luxury Communism: A Manifesto, chegou às livrarias em 11 de junho de 2019. Na resenha do Guardian, Andy Beckett o chamou de "curto e vertiginosamente confiante" (em tradução livre) e anotou o preço, 16,99 libras.

Três rupturas e cinco frentes de abundância

A tese parte de uma história contada em saltos. Para Bastani, a humanidade passou por duas grandes rupturas (Disruptions, no original): a domesticação de animais e plantas e a Revolução Industrial. A terceira estaria em curso. Ela se define pelo que o autor chama de oferta extrema, a tendência de informação, trabalho, energia, recursos e até remédios ficarem cada vez mais fartos. O capitalismo, nessa leitura, cria incentivos de curto prazo que produzem escassez artificial onde a técnica já permitiria abundância.

O resumo do verbete sobre o livro organiza o argumento em cinco motores tecnológicos:

  • Full Automation (automação total): robôs e inteligência artificial dispensam o trabalho humano na indústria, no transporte e nos serviços.
  • Limitless Power (energia sem limite): sol, outras renováveis e baterias levam o custo marginal da energia para perto de zero.
  • Mining the Sky (minerar o céu): asteroides e a extração avançada em terra fornecem matéria-prima em quantidade quase ilimitada.
  • Editing Destiny (editar o destino): a edição genética por CRISPR e a biologia sintética eliminam doenças hereditárias e alongam a vida saudável.
  • Food without Animals (comida sem animais): fermentação de precisão e agricultura celular produzem alimento farto sem criação de gado.

Os números escolhidos dão o tom. A capacidade solar instalada no mundo "aumentou cem vezes entre 2004 e 2014", escreve Bastani, e Luxemburgo já criava regras para sediar empresas de mineração de asteroides. O cinturão entre Marte e Júpiter teria "825 quintilhões de toneladas de ferro". Para a carne, o livro chega a prever o uso de "uma impressora 3D para 'imprimir' bifes" (todas as citações em tradução livre).

Ville Kellokumpu, na revista Society and Space, transcreveu a frase que melhor dá o espírito da obra, na página 189: "Nossas ambições precisam ser prometeicas porque a nossa tecnologia já está nos tornando deuses, então é melhor aprendermos a fazer isso bem" (em tradução livre).

Serviços universais e jornada curta

Para chegar lá, Bastani aposta em política pública. Beckett notou que o livro elogiava o Partido Trabalhista de Corbyn, em especial o ministro da Fazenda do gabinete paralelo, John McDonnell, e sua equipe de jovens assessores. Entre as propostas, a economia de cooperativas e novos órgãos regionais de investimento.

Em palestra publicada pelo TED em janeiro de 2023, ele defendeu os serviços básicos universais: o governo ofereceria de graça moradia, saúde, educação e transporte, em vez de deixar esses itens ao mercado. A apresentação, de 19 minutos, terminou com perguntas de Chris Anderson, que dirige o TED, e da especialista em finanças públicas Maja Bosnic.

Meses antes, no podcast TED Interview, publicado em agosto de 2022, Bastani explicou a Steven Johnson em que ordem espera a automação. A contabilidade estaria entre as primeiras profissões atingidas; cuidados pessoais e limpeza, as ocupações da mãe dele, entre as últimas, porque exigem coordenação motora fina e resposta emocional em tempo real. Sobre a tradição socialista que reivindica, disse que ela nunca quis trabalhar mais: "A boa vida não era trabalhar. É o tempo livre" (em tradução livre).

Por que os críticos o chamam de aceleracionista

O rótulo veio dos resenhistas. Beckett escreveu que, por trás da embalagem marxista, Bastani "é na verdade um aceleracionista" e ironizou a retórica de "Lênin vai ao Vale do Silício". Kellokumpu foi direto: o livro é, "no fundo, um projeto aceleracionista de esquerda" (ambas em tradução livre).

A família é conhecida. Em 2013, Nick Srnicek e Alex Williams publicaram o manifesto aceleracionista, que pedia à esquerda para trocar a nostalgia pela disputa da tecnologia; em 2015 vieram as demandas de automação total e jornada menor. O que separa essa linha da de Nick Land está no texto sobre aceleracionismo de esquerda e de direita. Bastani fica do lado de Srnicek e Williams, mas, para parte da crítica, com mais engenharia que teoria política.

Essa falta de teoria foi a queixa de Mark Featherstone, na revista Theory, Culture and Society. Ele reconheceu a tentativa de imaginar uma sociedade além do realismo capitalista de Mark Fisher, mas cobrou "uma teoria do poder, da luta de classes e da revolução" (em tradução livre).

Há ainda um parentesco liberal. O conceito costuma ser comparado ao ensaio de 1930 em que John Maynard Keynes previu a semana de 15 horas para os netos. Bastani aceita a comparação e a usa como cobrança. No podcast de 2022, lembrou que Keynes marcou esse mundo para cem anos depois e comentou que ele estava "a oito anos de distância" (em tradução livre), sem sinal de jornada menor.

A base marxista vem dos Grundrisse, os rascunhos de 1857 e 1858 em que está o fragmento sobre as máquinas. Ali Marx descreve uma produção em que o saber acumulado nas máquinas pesa mais que as horas de trabalho, e é dessa passagem que Bastani tira a ideia de que a automação pode corroer o valor das mercadorias.

As objeções: água, Marx e o céu

A crítica mais detalhada saiu em 28 de junho de 2019 na Los Angeles Review of Books, assinada por Jason Barker e intitulada "Artificial Stupidity". Barker lembrou que a abundância de uns costuma custar caro a outros. Citando uma reportagem da Wired de 2018, escreveu que no Salar de Atacama, no Chile, "as atividades de mineração consumiram 65% da água da região" (em tradução livre). E que o preço do watt solar caiu 75% entre 2009 e 2017, enquanto na Alemanha, onde o setor solar cresceu muito entre 2006 e 2016, a eletricidade subiu 51%.

No terreno da teoria, Barker contestou a leitura de Marx. "Em lugar nenhum Marx afirma que o objetivo do comunismo é eliminar o trabalho", escreveu, e lembrou que, no capítulo 15 de O capital, a maquinaria aparece como "o meio mais seguro de prolongar a jornada de trabalho" (ambas em tradução livre). Para ele, a variável que falta no livro é a luta de classes.

Kellokumpu apontou uma contradição interna. O próprio Bastani admite, na página 117, que minerais como lítio e cobalto "são, em última análise, limitados" (em tradução livre), e a saída que propõe, nas páginas 119 a 137, é buscá-los fora da Terra, em asteroides como o Psyche 16. O resenhista chamou a manobra de solução espacial (space fix) e intitulou a seção de fantasia aceleracionista de fuga.

O economista francês Frédéric Lordon foi o mais duro. O texto dele saiu em português em 14 de dezembro de 2021, no site Outras Palavras, em tradução de Antonio Martins:

Trata-se de uma espécie de profecia tecnologista baseada em impressoras 3D, células fotovoltaicas onipresentes e a conquista do espaço, prometendo soluções para as crises climáticas e energéticas e "abundância" para todos. Essa é mais ou menos a perspectiva de uma visão capitalista mal reconstruída.

Nos Estados Unidos, a recepção foi mista, segundo o verbete do livro. Annie Lowrey, na Atlantic, achou a visão "convincente", mas viu uma compreensão "de pernas para o ar" da história recente, que não credita ao capitalismo a queda da pobreza. Andy Kessler, no Wall Street Journal, chamou a ideia de "pura bobagem", porque padrão de vida mais alto depende de produtividade do trabalho. Oli Mould, no openDemocracy, ficou do lado oposto e viu um livro "cheio de esperança", com a ressalva de que o leitor precisa dar "um pequeno salto de fé" (citações em tradução livre). O deputado trabalhista Jon Cruddas, em The Dignity of Labour, de 2021, acusou Bastani de determinismo tecnológico.

A tradução brasileira, de 2023

Em português, o livro saiu em 2023 pela Autonomia Literária, com o título Comunismo de luxo totalmente automatizado, 304 páginas e tradução de Everton Lourenço; a edição é de Cauê Seignemartin Ameni, Manuela Beloni e Hugo Albuquerque. A sinopse diz que Bastani mostra "como nos movemos para a abundância de energia, alimentamos um mundo de 9 bilhões de pessoas, superamos o trabalho, transcendemos os limites da biologia". Na Martins Fontes Paulista, o título aparecia como esgotado em 1º de novembro de 2026.

Quando a tradução chegou, o leitor brasileiro já tinha à mão uma das críticas mais severas, a de Lordon, publicada pelo Outras Palavras dois anos antes.

Seis anos depois, a inteligência artificial

Em 27 de maio de 2025, no programa americano Breaking Points, Bastani revisitou o livro. Pela transcrição automática do episódio, disse que o escreveu entre 2016 e 2018 e que não imaginava ver a IA tão avançada, nem a indústria chinesa de carros elétricos tão forte. As perguntas do livro, afirmou, ficaram mais urgentes em 2025 do que ele previa.

Ele também admitiu ter olhado pouco para a geopolítica e para a disputa entre Estados Unidos e China. A proposta, agora, tem endereço: o governo federal americano deveria ter 5% das ações, com gente no conselho, de toda grande empresa que desenvolve IA acima de certo valor de mercado, e o país precisaria de um fabricante público de microprocessadores, nos moldes do que Taiwan fez com a TSMC. No rumo atual, previu, os Zuckerbergs e Bezos da IA vão virar trilionários.

O próximo livro já tem nome. A página de Bastani no TED anuncia Mortals, sobre os efeitos sociais, políticos e econômicos do envelhecimento da população.

Perguntas frequentes

O que é comunismo de luxo totalmente automatizado?

É o nome que Aaron Bastani deu a uma sociedade em que máquinas, energia renovável barata, mineração espacial e biotecnologia derrubariam o custo dos bens básicos, e em que essas tecnologias seriam de propriedade pública. A palavra luxo marca a diferença em relação a um socialismo de austeridade: a meta é fartura para todos. A ideia virou livro em 2019, pela editora britânica Verso.

Existe edição do livro em português?

Existe. A Autonomia Literária lançou Comunismo de luxo totalmente automatizado em 2023, traduzido por Everton Lourenço, com 304 páginas, contra 288 do original em inglês. O ISBN é 9786587233932. Como algumas livrarias já o listam como esgotado, vale procurar no site da própria editora, em livrarias de bairro e em sebos virtuais.

Aaron Bastani é aceleracionista?

Ele se apresenta como socialista, e o rótulo veio de resenhistas como Andy Beckett, do Guardian, e Ville Kellokumpu, da Society and Space. A semelhança com Srnicek e Williams está na aposta de que a tecnologia criada pelo capitalismo pode servir para superá-lo. Do aceleracionismo de direita de Nick Land, ele se separa pelo papel que dá ao Estado e à propriedade coletiva.

Quais são as principais críticas ao livro?

As objeções se repetem em três frentes. Há a ecológica, porque lítio, cobalto e foguetes também cobram seu preço da natureza. Há a teórica, de leitores de Marx como Jason Barker e Frédéric Lordon, para quem a obra apaga a luta de classes. E há a política: o livro diria pouco sobre como tirar das empresas a propriedade dessas tecnologias.

Fontes

  1. Fully automated luxury communism · The Guardian (Brian Merchant, 18/03/2015)
  2. Fully Automated Luxury Communism by Aaron Bastani: a manifesto for the future · The Guardian (Andy Beckett, 29/05/2019)
  3. Artificial Stupidity · Los Angeles Review of Books (Jason Barker, 28/06/2019)
  4. Fully Automated Luxury Communism: A Manifesto by Aaron Bastani · Society and Space (Ville Kellokumpu, 03/09/2019)
  5. Em busca de um comunismo luxuoso · Outras Palavras (Frédéric Lordon, trad. Antonio Martins, 14/12/2021)
  6. Fully Automated Luxury Communism: book review · openDemocracy (Oli Mould, 14/05/2019)
  7. Aaron Bastani is thinking about automated luxury communism (transcrição) · TED Interview
  8. A socialist perspective on the pursuit of happiness · TED
  9. Aaron Bastani (página do palestrante) · TED
  10. WATCH: Fake AI News Clips FLOOD Internet (com Aaron Bastani) · Breaking Points (YouTube, 27/05/2025)
  11. Comunismo de luxo totalmente automatizado (ficha do livro) · Martins Fontes Paulista
  12. Aaron Bastani · Wikipédia (em inglês)
  13. Fully Automated Luxury Communism · Wikipédia (em inglês)

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