Fragmento sobre as máquinas: o texto de Marx sobre automação que o aceleracionismo redescobriu
Escrito em 1858 e publicado só no século 20, o trecho dos Grundrisse sobre automação e “intelecto geral” virou referência dos operaístas italianos, do manifesto de Srnicek e Williams e de quem discute inteligência artificial. O que Marx escreve, passo a passo, e onde ler em português.
Redação Aceleração Eficaz · · 10 min de leitura
O fragmento sobre as máquinas é um trecho curto dos Grundrisse, os cadernos que Karl Marx escreveu em Londres entre 1857 e 1858 e não publicou. Nele, a fábrica vira um sistema automático, o saber social passa a produzir riqueza e o tempo de trabalho deixa de medi-la. Em português, o texto está na edição da Boitempo.
Onde fica o fragmento e por que demorou a aparecer?
Marx escreveu os Grundrisse entre outubro de 1857 e maio de 1858, segundo a página da Boitempo, exilado em Londres e com a crise financeira de 1857 em curso. Numa carta a Friedrich Engels de dezembro daquele ano, contou que trabalhava “feito louco, todas as noites” para deixar claros os contornos do estudo “antes do dilúvio” (em tradução livre). Saíram sete cadernos de notas, escritos para ele mesmo. O fragmento fica na passagem do caderno VI para o VII, dentro do capítulo sobre o capital.
O jornalista Paul Mason, num texto de 17 de julho de 2015 no Guardian, monta a cena: Kentish Town, Londres, fevereiro de 1858, “por volta das 4 da manhã”, com Marx procurado na Alemanha e enchendo páginas de “experimentos mentais e notas para si” (em tradução livre).
O público levou quase um século para ver essas páginas. Karl Kautsky publicou em 1903 e 1904 apenas a introdução e um ensaio sobre Bastiat e Carey, conta o verbete da Wikipédia em inglês sobre a obra. David Riazanov, diretor do Instituto Marx-Engels de Moscou, anunciou a existência dos sete cadernos em 1923. A primeira edição saiu em Moscou, em dois volumes, em 1939 e 1941, e teve pouca repercussão. Berlim Oriental ganhou a edição alemã em volume único em 1953, pela Dietz; nela, o fragmento vai da página 583 à 594.
No mundo de língua inglesa, o texto ganhou peso graças ao ucraniano Roman Rosdolsky, que achou um exemplar raro na Biblioteca Pública de Nova York em 1947 e dedicou boa parte da vida a estudá-lo; seu estudo da gênese de O capital saiu em alemão em 1968. David McLellan publicou uma seleção em inglês em 1971, e a tradução completa de Martin Nicolaus chegou em 1973, pela Penguin, em parceria com a New Left Review.
Na Itália, Renato Solmi traduziu o trecho para o número 4 da revista Quaderni rossi, de 1964, nas páginas 289 a 300, por sugestão de Raniero Panzieri, que escreveu sobre a mesma passagem naquele número, segundo nota da revista Doppiozero. Cinquenta anos depois, o filósofo Matteo Pasquinelli ainda falava no “cosiddetto ‘Frammento sulle macchine’”, o assim chamado fragmento.
O que Marx escreve, passo a passo
A lista segue a ordem do texto. As frases em português são da tradução de Mario Duayer e Nélio Schneider, como aparecem no artigo de Rodrigo Santaella Gonçalves e Victor Marques na revista DasQuestões, da UnB, em 2021, com as páginas da Boitempo. As que vêm do inglês de Nicolaus estão marcadas.
- O meio de trabalho passa por várias metamorfoses até virar um sistema automático de maquinaria, movido por um autômato. O trabalhador deixa de manejar a ferramenta e vira “acessório vivo” do conjunto, porque “o que era atividade do trabalhador vivo devém atividade da máquina”. Na versão de Nicolaus, os operários são só os “elos conscientes” do mecanismo (em tradução livre).
- A tendência do capital, escreve Marx, é “conferir à produção um caráter científico” (p. 583).
- A riqueza passa a depender menos das horas trabalhadas e mais “do nível geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção”.
- O roubo de tempo de trabalho alheio, sobre o qual repousa a riqueza da época, aparece como “fundamento miserável em comparação com esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria”.
- Surge a contradição central: “O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza” (pp. 588-9).
- As forças produtivas e as relações sociais, que o capital trata como simples meios, são as condições materiais para fazer essa base “voar pelos ares”.
- Marx copia então um panfleto inglês de 1821, The Source and Remedy: rica de verdade é a nação em que a jornada é de 6 horas, e não de 12, e riqueza é “tempo disponível” fora da produção direta, para cada indivíduo e para a sociedade inteira (em tradução livre do texto de Nicolaus). Keynes chegaria em 1930 a uma conta parecida, a semana de 15 horas.
- A natureza não constrói máquinas, locomotivas, ferrovias, telégrafos nem máquinas de fiar automáticas; elas são “órgãos do cérebro humano, criados pela mão humana”, o poder do saber objetivado (em tradução livre). Nelas, o saber social vira “força produtiva imediata”, e a própria vida social cai sob o controle do intelecto geral, o general intellect das edições em inglês.
Entre o quarto e o quinto passo fica o parágrafo que resume a aposta, à página 588 da edição brasileira:
Tão logo o trabalho na sua forma imediata deixa de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua medida e, em consequência, o valor de troca deixa de ser [a medida] do valor de uso. O trabalho excedente da massa deixa de ser condição para o desenvolvimento da riqueza geral, assim como o não trabalho dos poucos deixa de ser condição do desenvolvimento das forças gerais do cérebro humano. Com isso, desmorona a produção baseada no valor de troca, e o próprio processo de produção material imediato é despido da forma da precariedade e contradição.
Mais adiante, Marx tira a consequência: a medida da riqueza deixa de ser, “de modo algum”, o tempo de trabalho e passa a ser o tempo disponível (em tradução livre). As mesmas páginas guardam a outra face. “A maquinaria mais desenvolvida força o trabalhador a trabalhar agora mais tempo que o fazia o selvagem” (p. 591), e Marx registra “a luta dos trabalhadores contra a maquinaria” num aceno simpático aos ludistas, na leitura de Gonçalves e Marques.
Por que o discurso de 1848 entra nessa conversa?
Dez anos antes dos cadernos, em 9 de janeiro de 1848, Marx falou à Associação Democrática de Bruxelas sobre o livre-comércio. O discurso saiu em panfleto na mesma cidade, em fevereiro. O fecho é o que circula até hoje: “em geral, o sistema de proteção de nossos dias é conservador, enquanto o sistema de livre comércio é destrutivo. Rompe velhas nacionalidades e leva ao extremo o antagonismo do proletariado e da burguesia. Em uma palavra, o sistema de livre comércio acelera a revolução social”. A tradução é a citada por Gonçalves e Marques; na versão inglesa do Marxists Internet Archive, o verbo é hastens, apressar. Em seguida, Marx avisa que só nesse sentido vota a favor do livre-comércio.
O argumento já tem o desenho que o aceleracionismo tornaria famoso: em vez de proteger as velhas formas, apostar que a dissolução delas empurra o conflito adiante. Andy Beckett, no Guardian, em 2017, escreveu que de certo modo Marx foi o primeiro aceleracionista, lembrando que o Manifesto Comunista, do mesmo ano, olha para o capitalismo tão maravilhado quanto horrorizado. Gonçalves e Marques veem ecos do discurso na escolha de Deleuze e Guattari, em 1972, por “acelerar o processo” em vez de sair do mercado mundial.
A ponte com o fragmento é de método. Em 1848, Marx aposta que o mercado mundial acirra o antagonismo de classe. Em 1858, aposta que a automação corrói a medida do valor. Nas duas vezes, a saída passa por dentro do processo que o capital acelera.
Como operaístas, Negri e o manifesto de 2013 usaram o texto?
A tradução de 1964 caiu no operaísmo italiano, a corrente que nasceu em torno de Panzieri e da Quaderni rossi. Paolo Virno, num ensaio de 1990 na revista Luogo comune resumido por Pasquinelli no EuroNomade, descreve três usos sucessivos: nos anos 1960, contra a suposta neutralidade da ciência; nos anos 1970, como crítica do socialismo de Estado e da ideologia do trabalho; nos anos 1980 e 1990, como retrato do pós-fordismo e da sociedade do conhecimento.
Antonio Negri, da autonomia italiana, chegou a questionar se O capital seria o ponto mais desenvolvido da análise de Marx e tratou os Grundrisse como “texto dedicado à subjetividade revolucionária” (em tradução livre). Na leitura pós-operaísta, o intelecto geral virou a chave para descrever o trabalho cognitivo do pós-fordismo, o terceiro uso da lista de Virno.
O manifesto aceleracionista de Alex Williams e Nick Srnicek, de 2013, põe Marx no centro. “É Marx, junto com Land, que continua a ser o pensador aceleracionista paradigmático”, diz o ponto 5, na tradução de Bruno Stehling para a revista Lugar Comum. O diagnóstico do texto fala de uma elite intelectual que encolhe à medida que “a automação algorítmica adentra as esferas de trabalho afetivo e intelectual”. Em 2014, Pasquinelli organizou a coletânea Gli algoritmi del capitale, da editora Ombre corte, de Verona, que abre com a tradução italiana do manifesto e lembra, na introdução, os cinquenta anos da versão da Quaderni rossi.
Gonçalves e Marques leem a passagem como estratégia. Os trabalhadores que quebravam máquinas, dizem eles, nadavam contra a corrente, e Marx propõe outra via: lutar pela redução da jornada. Ela parte da nova realidade em vez de negá-la, conquista tempo livre já, forma a “classe para si” e obriga o capital a buscar lucro pela produtividade, o que o faz trabalhar mais depressa pela própria dissolução. A conclusão dos autores: “Um aceleracionismo de esquerda como o de Marx não é, portanto, uma política do quanto pior melhor.”
Em 2015, o fragmento chegou ao jornal com Paul Mason. No texto do Guardian que anunciou seu livro Postcapitalism, lançado pela Allen Lane em 30 de julho de 2015, ele diz que a esquerda dos anos 1960 admitiu que o trecho “desafia toda interpretação séria de Marx concebida até então” e que, para Marx, o intelecto geral faria o capitalismo “voar pelos ares” (em tradução livre). A edição brasileira, Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro, saiu pela Companhia das Letras em 2017 e está fora de catálogo, segundo o BaixaCultura. A mesma família de ideias desemboca no comunismo de luxo de Aaron Bastani.
O fragmento previu a inteligência artificial?
No sentido literal, não. O texto fala de fábricas a vapor, máquinas de fiar automáticas e telégrafos, e não descreve nada parecido com computação. O que ele antecipa é a hipótese de que o conhecimento acumulado da sociedade, uma vez embutido em máquinas, produz mais do que as horas de quem trabalha. É por essa porta que o manifesto de 2013 junta Marx à automação do trabalho intelectual.
Um livro inteiro foi dedicado a essa ponte: The Eye of the Master, de Pasquinelli, publicado pela Verso em outubro de 2023, com 272 páginas. A tese, segundo a editora, é que o código interno da IA é moldado pela inteligência do trabalho e das relações sociais, das máquinas de calcular de Charles Babbage, na era industrial, aos algoritmos atuais de reconhecimento de imagem e vigilância. O autor volta ao intelecto geral da economia política britânica do século 19 para explicar a política da IA.
A leitura da Aceleração Eficaz é que Marx descreve ali duas tendências que convivem: a automação reduz o trabalho necessário e, nas mesmas páginas, a máquina mais desenvolvida alonga a jornada. Qual delas prevalece não está escrito no fragmento. Depende de quem fica com o tempo liberado, a mesma disputa que volta no debate sobre IA e emprego.
Para ler o trecho inteiro, a edição brasileira de referência é Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858, da Boitempo com a Editora UFRJ, de 2011, traduzida direto do alemão por Mario Duayer e Nélio Schneider, com 792 páginas e ISBN 9788575591727; as citações deste artigo estão entre as páginas 583 e 591. A tradução inglesa de Nicolaus está aberta no Marxists Internet Archive, nos capítulos 13 e 14 da edição on-line. The Eye of the Master não tem edição em português até novembro de 2026.
Perguntas frequentes
O que é o intelecto geral (general intellect) em Marx?
É a expressão do fragmento para o saber social acumulado quando ele vira força de produção, embutido em máquinas, ciência aplicada e organização do trabalho. Marx imagina a vida social sob o controle desse intelecto coletivo, com a riqueza dependendo cada vez menos das horas trabalhadas. Operaístas italianos, Paul Mason e Matteo Pasquinelli retomaram o termo para falar da economia da informação e da inteligência artificial.
Onde ler o fragmento sobre as máquinas em português?
Na edição completa dos Grundrisse lançada pela Boitempo em 2011, em parceria com a Editora UFRJ, com tradução do alemão de Mario Duayer e Nélio Schneider. O trecho está no capítulo do capital, e as frases mais conhecidas caem entre as páginas 583 e 591. Quem prefere o inglês encontra a versão de Martin Nicolaus de graça no Marxists Internet Archive.
Marx previu a automação e a inteligência artificial?
Previu a automação industrial, que já via nas fábricas inglesas, e levou a ideia ao limite: um sistema de máquinas em que o operário só vigia. Computadores não aparecem no texto. Os leitores de hoje aproveitam a hipótese de que o saber coletivo guardado em máquinas reduz o peso das horas de trabalho, sem garantia de que o tempo liberado fique com quem trabalha.
Qual a relação entre o fragmento e o aceleracionismo?
A esquerda aceleracionista vê no trecho a ideia de que o desenvolvimento técnico do próprio capital cria as condições para superá-lo. Alex Williams e Nick Srnicek chamam Marx, no manifesto de 2013, de pensador aceleracionista exemplar, e a coletânea italiana de Pasquinelli em 2014 juntou o manifesto ao debate sobre o fragmento. Nick Land, na direita, aproveita o mesmo impulso técnico sem a promessa de emancipação.
Fontes
- Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858 (trad. Mario Duayer e Nélio Schneider) · Boitempo
- Grundrisse, Notebook VI/VII: The Chapter on Capital (trad. Martin Nicolaus) · Marxists Internet Archive
- Grundrisse, Notebook VII: The Chapter on Capital (trad. Martin Nicolaus) · Marxists Internet Archive
- Grundrisse · Wikipédia (inglês)
- Por uma política orientada ao futuro: a provocação filosófica e estratégica do “aceleracionismo de esquerda” (Rodrigo Santaella Gonçalves e Victor Marques) · Revista DasQuestões, UnB, v. 12, n. 1 (2021)
- Frammento sulle macchine, nella traduzione di Renato Solmi · Doppiozero (30/05/2015)
- A mezzo secolo dalla ricezione del ‘Frammento sulle macchine’ di Marx (Matteo Pasquinelli) · EuroNomade (06/10/2014)
- The end of capitalism has begun (Paul Mason, 17/07/2015) · The Guardian
- Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in (Andy Beckett, 11/05/2017) · The Guardian
- On the Question of Free Trade (discurso de 9 de janeiro de 1848) · Marxists Internet Archive
- Manifesto aceleracionista (tradução de Bruno Stehling), Lugar Comum n. 41 · Revista Lugar Comum, UFRJ
- The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence (Matteo Pasquinelli) · Verso Books
- Os interrompidos sonhos aceleracionistas da cultura popular (Mark Fisher) · BaixaCultura (16/05/2024)