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Aceleração Eficaz

Deleuze, Guattari e o aceleracionismo: o trecho do Anti-Édipo que manda “acelerar o processo”

Uma passagem de poucas linhas, no capítulo 3 de O anti-Édipo, de 1972, aparece em quase todo texto sobre aceleracionismo. O que ela diz, de onde vem o verbo tirado de Nietzsche e por que Nick Land e a esquerda a leram de modos opostos.

Redação Aceleração Eficaz · · 9 min de leitura

No capítulo 3 de O anti-Édipo, de 1972, Gilles Deleuze e Félix Guattari perguntam qual seria a “via revolucionária” e sugerem, em vez de sair do mercado mundial, ir ainda mais longe nele e “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche. O trecho é citado em quase todo texto sobre aceleracionismo. No Brasil, o livro sai pela Editora 34.

Deleuze nasceu em Paris em 1925, deu aulas na Universidade de Vincennes de 1969 a 1987 e morreu em 1995. Guattari era psicanalista. Juntos assinaram O anti-Édipo, Kafka (1975), Mil platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991), segundo a página da Editora 34, que descreve o primeiro como escrito “sob o influxo de Maio de 68”. Nenhum dos dois usou a palavra aceleracionismo. Ela só apareceu em 2010, num livro do inglês Benjamin Noys, que era crítico da ideia.

Noys resumiu o que esses autores afirmariam: “o poder capitalista de dissolução e fragmentação, que sempre deve ser levado um passo adiante para quebrar os grilhões do próprio capital”. A tradução é de um artigo da revista Das Questões, da UnB, publicado em junho de 2021, que chama a passagem do Anti-Édipo de “repetida em quase todos os textos” do tema.

O que diz o trecho do Anti-Édipo

A passagem fecha a seção sobre a máquina capitalista civilizada. Na edição brasileira de 2010, traduzida por Luiz B. L. Orlandi, está na página 318; na americana da University of Minnesota Press, de 1983, usada por Rosales e pelo Obsolete Capitalism, citados adiante, na 239. Logo antes, os autores perguntam qual é a solução e descartam a psicanálise, que acham comprometida demais com o dinheiro para ajudar. Então vem o parágrafo, aqui em tradução livre a partir do inglês:

Mas qual é a via revolucionária? Haverá uma? Retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos países do Terceiro Mundo, numa curiosa retomada da “solução econômica” fascista? Ou seria o caso de ir na direção contrária? De ir ainda mais longe, isto é, no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam desterritorializados o bastante, descodificados o bastante, do ponto de vista de uma teoria e de uma prática de caráter altamente esquizofrênico. Não se retirar do processo, e sim ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche: nesse assunto, a verdade é que ainda não vimos nada.

Na versão de Orlandi, conforme os fragmentos reproduzidos pela UnB, a pergunta central é se se deve ir “ainda mais longe no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização?”, e o ponto de vista é o “de uma teoria e de uma prática dos fluxos com alto teor esquizofrênico”. O fecho fica assim: “não retirar-se do processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche”.

Dois termos do livro destravam a frase. Descodificar é desfazer os códigos que prendiam riqueza e gente a uma linhagem, a um costume, a uma posição. Desterritorializar é soltar fluxos de dinheiro, trabalho e desejo do território em que estavam. No vocabulário do Anti-Édipo, o capitalismo faz as duas coisas com mais força que qualquer sociedade anterior e, ao mesmo tempo, devolve os fluxos a territórios novos ou reciclados: Estado, família, nação, propriedade. Esse segundo movimento é a reterritorialização.

Mark Fisher tirou daí a consequência num ensaio de junho de 2013 na revista e-flux. Se o capitalismo é a tensão entre os dois movimentos, uma forma de superá-lo, “perhaps the only way”, seria remover os “reterritorializing shock absorbers”, os amortecedores que reterritorializam. Fisher chamou o parágrafo de candidato a epígrafe do aceleracionismo e de “teasingly enigmatic”, enigmático de propósito, e lembrou que os autores “do not elaborate”: não explicam o que querem dizer.

A frase de Nietzsche por trás do “acelerar”

Quem rastreou a origem do verbo foi o coletivo italiano Obsolete Capitalism, num estudo de agosto de 2015 chamado “The Strong of the Future”. É um fragmento póstumo de Nietzsche, do outono de 1887, intitulado “Os fortes do futuro”. Na compilação A vontade de poder, montada em 1906 por Peter Gast, apelido de Heinrich Köselitz, e por Elisabeth Förster-Nietzsche, ele recebeu o número 898. Na edição crítica de Colli e Montinari aparece como 9[153].

A frase em alemão é “Die Ausgleichung des europäischen Menschen ist der große Prozeß, der nicht zu hemmen ist: man sollte ihn noch beschleunigen.” Em tradução livre: o nivelamento do homem europeu é o grande processo que não se deve deter; seria preciso até acelerá-lo. Na sequência, na versão francesa que o estudo reproduz, Nietzsche diz que com isso estão dadas “la nécessité de creuser un fossé, la nécessité d’une distance, d’une hiérarchie”, isto é, a de cavar um fosso, abrir distância e criar hierarquia, e não a de frear o processo.

O caminho da palavra até Paris passa por Pierre Klossowski. Walter Kaufmann, na tradução inglesa de 1967, verteu beschleunigen como “hasten”, apressar. Klossowski usou “accélérer” em Nietzsche e o círculo vicioso, de 1969, livro dedicado a Deleuze, e o Obsolete Capitalism conclui que essa versão “has been at the basis of Deleuze’s choice”. O estudioso Christian Kerslake, citado ali, achou a passagem do Anti-Édipo “difficult to comprehend”.

O contexto muda o sentido. Kevin Thomas, num texto de setembro de 2024 no boletim Marx and Friends, lembra que Nietzsche era “staunchly antiegalitarian”, ferrenhamente contra a igualdade. A aceleração da modernidade, para ele, ajudaria a vencer o niilismo, e nunca a chegar a uma sociedade mais igual.

A esquerda tem um precedente próprio, e ele está em Marx. Num discurso à Associação Democrática de Bruxelas em 9 de janeiro de 1848, ele se disse a favor do livre comércio por um motivo só: “em uma palavra, o sistema de livre comércio acelera a revolução social”, na tradução que a UnB usa. Na versão em inglês o verbo é “hastens”, o mesmo de Kaufmann. Uma década depois, nos cadernos dos Grundrisse, Marx escreveria o fragmento sobre as máquinas, a outra raiz do debate.

Lyotard, Warwick e a leitura de Nick Land

Dois anos depois do Anti-Édipo, em 1974, Jean-François Lyotard lançou Économie libidinale pela mesma editora, a Minuit. Segundo a reportagem de Andy Beckett no Guardian, de maio de 2017, o livro dizia que até os aspectos opressivos do capitalismo eram “enjoyed”, desfrutados, por quem vivia sob ele, e que “the system of capital is, when all’s said and done, natural”. Lyotard acabou renegando a obra como seu “evil book”. Noys junta os dois títulos a A troca simbólica e a morte, de Jean Baudrillard (1976), como as obras de partida do que depois ganharia nome.

Na Inglaterra, os livros franceses demoraram a chegar. O Guardian conta que Iain Hamilton Grant, aluno de mestrado em Warwick no início dos anos 1990, se espantou com Lyotard: “For a book by a Marxist to say, ‘There’s no way out of this’”. Em vez de escrever a dissertação, passou seis meses fazendo a primeira tradução inglesa de Libidinal Economy, publicada em 1993 pela Indiana University Press. Grant era aluno de Nick Land, o professor que levou a passagem do Anti-Édipo ao extremo.

Em “Machinic Desire”, de 1993, Land invoca a injunção de Deleuze de ir “mais rápido na direção da desterritorialização” e conclui que “a revolução maquínica deve, portanto, ir na direção oposta à regulamentação socialista, pressionando por uma mercadorização cada vez mais desinibida dos processos que estão destruindo o campo social”. O ensaio inteiro saiu em português em 2025, como “Desejo maquínico”, na mesma revista da UnB.

Os textos seguintes radicalizaram a linha. “Meltdown”, de 1994, fala em aceleração do colapso. “Cyberpositive”, de 1995, escrito com Sadie Plant, contrapõe à preferência de Norbert Wiener pela retroalimentação negativa, a que corrige desvios e busca equilíbrio, um elogio dos circuitos positivos, que se amplificam até sair de controle. Numa introdução de 2017, Land resumiu a posição em três frases que a UnB traduz assim: “O processo não deve ser criticado. O processo é a crítica, retroalimentando-se à medida que escala. A única maneira de avançar é pelo meio, o que significa mais para dentro.”

Fisher, que fez parte do CCRU com Land, escreveu em 2013 que essa apropriação usou o trecho “for explicitly anti-Marxist ends”, com fins explicitamente antimarxistas, e facilitou a leitura dos marxistas ortodoxos, para quem o parágrafo seria só mais um exemplo de como Maio de 68 desembocou no neoliberalismo. Até Nick Srnicek, coautor do manifesto de esquerda, disse ao Guardian que “Land’s stuff is a valid reading of Deleuze and Guattari”, com a ressalva do “inhumanism of it all”.

Como a esquerda releu o mesmo parágrafo

A pergunta de Fisher em 2013 foi outra: “what if we read this section of Anti-Oedipus not as a recanting of Marxism, but as a new model for what Marxism could be?” Ou seja, ler o trecho como modelo de um marxismo hostil ao capital e atento ao desejo, e não como retratação. Para ele, foi a melancolia de uma esquerda presa ao próprio passado que deixou Land “bait the ‘90s Left with Anti-Oedipus”, provocar a esquerda dos anos 1990 com o livro.

O manifesto de Srnicek e Alex Williams, publicado em maio de 2013, ficou com o diagnóstico e trocou o remédio. No ponto 3 da segunda parte, cita Deleuze e Guattari para dizer que “o que a velocidade capitalista desterritorializa com uma mão, ela reterritorializa com a outra”, na tradução da revista Lugar Comum. A conclusão dos dois é que correr mais dentro do capital não leva a lugar novo; seria preciso redirecionar a técnica, e o ponto anterior acusa o “Landian neoliberalism” de confundir velocidade com aceleração.

Outros leitores desconfiam das duas apropriações. José Rosales fez a pergunta mais seca num texto de dezembro de 2014 no Critical Legal Thinking, escrito logo depois que a coletânea #Accelerate, da Urbanomic, reacendeu o assunto: se a tarefa é acelerar o processo, “which process exactly?”, qual processo, exatamente? Kevin Thomas vai mais longe e diz que Deleuze e Guattari “do not give an affirmative answer” à própria pergunta. Para ele, o “ainda não vimos nada” soa como aviso, porque acelerar o capital, como Marx mostrou, costuma significar intensificar a exploração. Outra passagem do livro diz que o capitalismo, com seus fluxos, pode “dispatch itself straight to the moon”.

Os próprios autores corrigiram a mira. Em Mil platôs, de 1980, alertaram, segundo o resumo de Beckett, que aceleração capitalista demais poderia sugar a sociedade para “black holes” de fascismo e niilismo. O artigo da UnB marca a diferença de destino: “Se tanto para Marx quanto para Deleuze a aceleração das tendências do capital conduz à sua superação, em Nick Land o capitalismo é o fim do jogo.” É por isso que hoje se fala em aceleracionismo de esquerda e de direita a partir do mesmo parágrafo.

A leitura da Aceleração Eficaz é que o trecho se sustenta melhor como pergunta do que como programa. São três interrogações seguidas, um “talvez” e uma frase final que adia a resposta. Quem o transforma em palavra de ordem, de um lado ou de outro, preenche por conta própria o que Deleuze e Guattari deixaram em aberto.

Para ler a passagem em português, a referência é O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1, Editora 34, coleção Trans, 2010, com segunda edição em 2011 e 560 páginas; o trecho está na página 318, e as notas de Orlandi ajudam com o vocabulário. Mil platôs, o volume 2 de Capitalismo e esquizofrenia, sai pela mesma editora desde 1995. Já Économie libidinale, de Lyotard, não tinha edição brasileira até 1º de novembro de 2026, pelo que conseguimos apurar.

Perguntas frequentes

Deleuze e Guattari eram aceleracionistas?

Depende de quem responde. A palavra só surgiu em 2010, quinze anos depois da morte de Deleuze, e o parágrafo de 1972 termina em pergunta. Nick Land leu nele uma ordem para soltar o mercado. Mark Fisher e o manifesto de 2013 viram uma pista para outra esquerda. Leitores como Kevin Thomas acham que os dois descreviam o risco de acelerar, sem defender a aceleração.

Em que página do Anti-Édipo está a frase “acelerar o processo”?

Na edição brasileira da Editora 34, traduzida por Luiz B. L. Orlandi e lançada em 2010, a passagem fica na página 318, no fim da seção sobre a máquina capitalista civilizada, dentro do terceiro capítulo. Quem procura em inglês pode usar a edição da University of Minnesota Press de 1983, a que aparece nos estudos citados neste artigo, onde ela está na página 239.

Qual a relação entre Lyotard e o aceleracionismo?

Jean-François Lyotard publicou Économie libidinale em 1974, dois anos depois do Anti-Édipo, e o livro entrou na lista de obras de partida que Benjamin Noys montou ao batizar o aceleracionismo. A tese mais provocadora era que o capital seria natural e desejado até por quem ele explora. Lyotard renegou o livro mais tarde. Iain Hamilton Grant o verteu para o inglês em 1993; em português, não há edição.

O que é desterritorialização, em poucas palavras?

Trata-se do movimento de arrancar algo do lugar, do costume ou do código que o prendia. No Anti-Édipo o termo descreve o que o capitalismo faz com dinheiro, trabalho e desejo, que passam a circular soltos. A contrapartida é a reterritorialização, quando Estado, família ou nação voltam a amarrar esses fluxos. Acelerar o processo, no trecho famoso, seria empurrar a primeira tendência mais longe.

Fontes

  1. O anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia 1 · Editora 34
  2. Mil platôs, vol. 1: Capitalismo e esquizofrenia 2 · Editora 34
  3. Por uma política orientada ao futuro: a provocação filosófica e estratégica do “aceleracionismo de esquerda” · Das Questões, UnB, v. 12, n. 1 (2021)
  4. Desejo maquínico (tradução) · Das Questões, UnB, v. 20, n. 1 (2025)
  5. Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian
  6. A Social and Psychic Revolution of Almost Inconceivable Magnitude: Popular Culture’s Interrupted Accelerationist Dreams · e-flux Journal, n. 46
  7. The Strong of the Future: Nietzsche’s Accelerationist Fragment in Deleuze and Guattari’s Anti-Oedipus · Obsolete Capitalism (PDF no Monoskop)
  8. Were Deleuze and Guattari accelerationists? · Marx and Friends
  9. Deleuze and the Accelerationsists · Critical Legal Thinking
  10. On the Question of Free Trade · Marxists Internet Archive
  11. Libidinal Economy · Wikipedia
  12. #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking

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