Aceleracionismo de esquerda e de direita: o que separa Srnicek e Williams de Nick Land
As duas metades saíram do mesmo departamento de filosofia, em Warwick, e se separaram em 2013, quando o manifesto de Srnicek e Williams chamou a visão de Land de míope.
Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura
Aceleracionismo de esquerda e de direita são as duas leituras rivais da mesma ideia desde 2013. A esquerda de Nick Srnicek e Alex Williams quer acelerar a tecnologia e tirá-la do comando do capital para reduzir o trabalho. A direita de Nick Land quer acelerar o próprio capital, mesmo que isso deixe a democracia e o humano para trás.
A separação tem data. Em 14 de maio de 2013, o site britânico Critical Legal Thinking publicou o “#Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics”, de Williams e Srnicek. O texto citava Land de passagem e o chamava de “acute” e “hypnotising”, mas também de “myopic” e “confused”, conforme registrou o Guardian numa longa reportagem de 2017. Na mesma reportagem, Land devolveu a crítica. Para ele, tratar a tecnologia como coisa separável do capitalismo é um erro teórico. A definição geral do termo, com as outras correntes, está no guia sobre o que é aceleracionismo.
O que separa as duas metades, ponto por ponto
A tabela compara os dois lados em sete pontos. Ela se apoia nos textos de cada corrente e em duas leituras críticas: a do jornalista Andy Beckett, no Guardian, e a do ensaísta Eudald Espluga, publicada em maio de 2026 pelo CCCB, o centro de cultura contemporânea de Barcelona.
| Ponto | Esquerda | Direita |
|---|---|---|
| Quem escreve | Nick Srnicek e Alex Williams, com Mark Fisher por perto | Nick Land; no neorreacionarismo, também Curtis Yarvin |
| Textos de partida | “#Accelerate” (2013) e “Inventing the Future” (2015) | A palestra “Meltdown” (1994) e “The Dark Enlightenment” (2012-2013) |
| O que acelerar | Tecnologia e automação, tiradas da lógica do lucro | O capital, visto como força que anda sozinha |
| Visão do capitalismo | Freio das forças produtivas, a ser superado | Motor que não deve ser contido |
| Lugar do humano | Trabalhar menos e decidir mais sobre a técnica | Peso morto que o capital pode descartar, na descrição do manifesto de 2013 |
| Proposta política | Planejamento pós-capitalista e disputa pelas plataformas | Cidades-Estado autoritárias e governantes no modelo de presidente de empresa |
| Ecos em 2026 | Pós-trabalho, renda básica, semana de trabalho menor | Peter Thiel, Elon Musk e J.D. Vance, a quem o CCCB associa o movimento |
A linha que decide tudo é a terceira. Os dois lados usam o mesmo verbo para objetos diferentes: a esquerda acelera a máquina para trocar de dono, a direita acelera o capital e aceita perder o comando.
Um mesmo departamento de filosofia na origem
Antes de virar duas escolas, o aceleracionismo era um grupo de amigos na Universidade de Warwick, na Inglaterra. Em 1995, Land, Sadie Plant, Mark Fisher, Robin Mackay e cerca de duas dúzias de estudantes e professores criaram a Cybernetic Culture Research Unit (CCRU). A unidade durou menos de cinco anos como grupo ativo. Funcionou numa sala do departamento de filosofia e depois num quarto alugado em Leamington Spa, em cima de uma loja da Body Shop, conta Beckett.
Plant e Fisher tinham lido os mesmos franceses que Land. Gostavam mais de máquinas do que ele, porém. Ela tinha um dos primeiros computadores da Apple; ele foi dos primeiros a andar de celular.
A ponte com a esquerda passou por um blog. Fisher escrevia desde 2003 o k-punk, sobre discos, televisão, história britânica e filosofia francesa. No fim da década, um mestrando de ciência política da Universidade de Western Ontario, no Canadá, começou a lê-lo: Nick Srnicek. Os dois ficaram amigos. Fisher achava o capitalismo uma decepção para quem esperava aceleração, com empresas cautelosas e ciclos de produtos quase iguais, e perdia a paciência com uma esquerda que ignorava a tecnologia. A crise de 2008 e protestos de vida curta, como o Occupy, convenceram Srnicek de que faltava uma política radical atualizada. Fisher morreu em janeiro de 2017; o perfil de Mark Fisher e do “Realismo capitalista” conta essa parte.
Espluga acrescenta um detalhe sobre o nome. Citando Maya B. Kronic e Amy Ireland, ele escreve que o “-ismo” nasceu como meme entre alunos e seguidores de Land, que usavam a hashtag #Accelerate para postar notícias tecnoapocalípticas sobre automação e colapso do capitalismo. A versão de esquerda veio depois, como resposta.
O programa da esquerda: planejar, disputar plataformas, trabalhar menos
O ponto de partida está numa frase que o Guardian destacou do manifesto: “Capitalism has begun to constrain the productive forces of technology”. Em tradução livre, o capitalismo passou a frear as forças produtivas da tecnologia. A proposta é soltar essas capacidades e redirecioná-las para fins comuns.
O texto briga também com o tecnootimismo. “Never believe that technology will be sufficient to save us”, escrevem os autores. Eles querem acelerar a técnica “precisely because it is needed in order to win social conflicts”, isto é, como arma de uma disputa política que não se resolve sozinha.
Três ideias completam o programa. Uma é o planejamento: “any post-capitalism will require post-capitalist planning”, e o exemplo citado é o projeto chileno Cybersyn, que juntava cibernética, modelos econômicos e uma plataforma democrática. Outra é a disputa pelas plataformas digitais, que o manifesto chama de infraestrutura da sociedade global. A terceira incomoda parte da própria esquerda. O texto pede para deixar para trás o apego à democracia como processo e critica a “folk politics” do localismo, da ação direta e da horizontalidade.
Em 2015, pela editora Verso, a dupla lançou “Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work”. A resenha de Chris Newlove na revista International Socialism resume o livro em quatro demandas: automação total, redução da jornada, renda básica universal e enfraquecimento da ética do trabalho. Segundo o Guardian, foi a obra especulativa de esquerda que mais chamou atenção em anos, com elogios do deputado trabalhista Jon Cruddas e dos escritores Paul Mason e Mike Davis. As demandas estão detalhadas no artigo sobre o manifesto aceleracionista de Srnicek e Williams.
A direita de Land: o capital sem freio
Para Land, quem acelera é o capital, e ninguém o pilota. Em 1994, na palestra “Meltdown”, ele previu que uma singularidade tecnocapitalista derrubaria a ordem social e escreveu que “nothing human makes it out of the near future”, nada humano sai do futuro próximo, como lembra Espluga.
O manifesto de esquerda descreveu bem essa visão. Nela, o humano acaba descartado como “mere drag”, um peso que atrasa, diante de uma inteligência planetária abstrata que se constrói sozinha. É a saída que a direita aceita e a esquerda recusa.
Desde 2013, segundo o Guardian, Land virou guru do neorreacionarismo, o NRx, movimento de extrema direita nascido nos Estados Unidos que quer substituir Estados nacionais, democracia e burocracias por cidades-Estado autoritárias. “The Dark Enlightenment” passou a ser lido como um dos documentos fundadores do grupo. Na época da reportagem, Land defendia que aceleracionistas apoiassem o NRx, assim como Trump e o Brexit, para apressar o fim do status quo.
O filósofo Ray Brassier, estudioso do aceleracionismo, resumiu a guinada ao jornal: “Nick Land has gone from arguing ‘Politics is dead’, 20 years ago, to this completely old-fashioned, standard reactionary stuff.”
Espluga liga o movimento a Curtis Yarvin e ao próprio Land. A proposta, nas palavras dele, é abolir instituições democráticas em favor de “CEO-dictators” que governem Estados como empresas. O ensaísta associa a corrente a Thiel, Musk e Vance e usa a expressão “tecnofascismo”, da filósofa italiana Donatella Di Cesare. Para ele, não existe um Land aceleracionista separado de um Land neorreacionário: “there is only the collapseist Land”. A trajetória completa está no perfil de Nick Land.
Onde fica o e/acc
O aceleracionismo efetivo, o e/acc, surgiu em julho de 2022 e escolheu o lado de Land na leitura do capital. As notas de princípios assinadas por Beff Jezos e bayeslord afirmam que “Capitalism is hence a form of intelligence” e, numa nota de rodapé, reconhecem que essa visão já estava no texto fundador de Land. A meta declarada é chegar à “technocapital singularity”.
Na política, a mesma página traz outra nota de rodapé, sobre os Network States de Balaji Srinivasan: um arquipélago de Estados em rede, com regras de governo diferentes, competindo por membros e capital. A comparação com as cidades-Estado do NRx é inevitável, mas o texto credita a ideia a Balaji, sem citar o neorreacionarismo. O alvo explícito das notas é a regulação: “over-regulating technologies suppresses variance”.
Marc Andreessen tornou a ligação explícita. O Manifesto Tecno-Otimista, de 16 de outubro de 2023, usa a “techno-capital machine”, expressão que atribui a Land, e põe o filósofo na lista de “santos padroeiros”, junto com @BasedBeffJezos e @bayeslord.
Da esquerda, o e/acc está longe. Em 2013, Srnicek e Williams rejeitavam os tecnoutópicos que esperam da tecnologia o fim automático dos conflitos sociais; as notas de 2022 pedem fé no processo de adaptação dinâmica. A história completa está no artigo sobre o e/acc, o aceleracionismo efetivo.
De onde vem o rótulo “aceleracionismo marxista”
O manifesto dá a pista: “It is Marx, along with Land, who remains the paradigmatic accelerationist thinker”. Para os autores, Marx via o capitalismo como o sistema econômico mais avançado até então, e seus ganhos deviam ser acelerados além dos limites da forma-valor, não revertidos.
Em português, a expressão aparece num artigo do filósofo Jorge León Casero, professor da Universidade de Zaragoza, publicado pelo jornal espanhol El Salto em fevereiro de 2020 e traduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos. Casero escreve que o aceleracionismo se bifurca em “uma concepção marxista, defendida por Williams e Srnicek”, e outra “(anarco)liberal”, de Land.
O argumento dessa versão, segundo ele, é que a tecnologia gera dois processos distintos dentro do capitalismo: diminuir o trabalho humano necessário para cada tarefa e aumentar sem parar a produção de mercadorias. A técnica, assim, pode servir “ao empoderamento de seus produtores frente ao capital”. Casero cita ainda Antonio Negri, para quem “o nome aceleracionismo é certamente infeliz”. A base mais citada dessa linha é o trecho dos Grundrisse sobre maquinaria, explicado no artigo sobre o Fragmento sobre as máquinas.
O próprio Srnicek largou a palavra. Em 2017, ele disse ao Guardian que a dupla tinha desistido do termo, popularizado demais, e lembrou: “Arguing for a shorter working week is arguing for people’s lives to slow down.” A palavra aceleracionismo nem aparece em “Inventing the Future”. O manifesto de 2013 segue aberto para leitura no site do Critical Legal Thinking, na página original da publicação.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre aceleracionismo de esquerda e de direita?
A diferença está no que cada lado quer acelerar. A esquerda, a partir do manifesto de Srnicek e Williams de 2013, defende acelerar tecnologia e automação sob controle coletivo, para encurtar a jornada e chegar ao pós-trabalho. A direita, inspirada em Nick Land, vê o capital como força autônoma e aceita que ele avance mesmo à custa da democracia liberal, o que a aproximou do neorreacionarismo.
Nick Land é de direita?
Sim, pela trajetória registrada na imprensa. Depois de deixar Warwick e se mudar para a China, Land se tornou, segundo o Guardian, uma referência do neorreacionarismo americano a partir de 2013 e passou a defender apoio a Trump e ao Brexit como forma de apressar o fim da ordem vigente. O ensaísta Eudald Espluga, do CCCB, o trata como profeta da chamada Dark Enlightenment.
O e/acc é aceleracionismo de direita?
Em parte. As notas de 2022 herdam de Land a ideia do capital como forma de inteligência e citam o filósofo numa nota de rodapé, e Marc Andreessen pôs Land entre os santos padroeiros do manifesto de 2023. Da esquerda aceleracionista o e/acc se afasta: confia que a tecnologia livre de regulação resolve os problemas, enquanto Srnicek e Williams escreveram que ela nunca basta sem ação política.
O que é aceleracionismo marxista?
É o nome usado para a versão de esquerda quando ela se apoia em Marx. O argumento é que o capitalismo criou máquinas capazes de reduzir o trabalho, mas prende esse potencial à produção sem fim de mercadorias. Srnicek e Williams chamam Marx de pensador aceleracionista por excelência, e o filósofo Jorge León Casero usa a expressão para separar essa linha da versão liberal de Land.
Fontes
- #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics · Critical Legal Thinking (Alex Williams e Nick Srnicek, 14/05/2013)
- Accelerationism: how a fringe philosophy predicted the future we live in · The Guardian (Andy Beckett, 11/05/2017)
- Nick Land, or the Origins of the Techno-Fascist Apocalypse · CCCB (Eudald Espluga, 26/05/2026)
- Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work · Verso Books (Nick Srnicek e Alex Williams, 2015)
- For a right not to work · International Socialism 152, via Marxists Internet Archive (Chris Newlove, outono de 2016)
- Aceleracionismo: por um controle proletário das tecnologias de produção · Instituto Humanitas Unisinos (Jorge León Casero, tradução de artigo do El Salto, 22/02/2020)
- Notes on e/acc principles and tenets · Substack de Beff Jezos e bayeslord (10/07/2022)
- The Techno-Optimist Manifesto · a16z (Marc Andreessen, 16/10/2023)