Manifesto tecno-otimista: o que Marc Andreessen escreveu, parte por parte
Publicado em 16 de outubro de 2023, o texto tem 105 frases que começam com "We believe" e termina com 56 nomes, entre eles Nick Land e o perfil @BasedBeffJezos.
Redação Aceleração Eficaz · · 11 min de leitura
O manifesto tecno-otimista é um texto de cerca de 5 mil palavras que Marc Andreessen, cofundador da Netscape e do fundo de capital de risco Andreessen Horowitz (a16z), publicou em 16 de outubro de 2023. Ele defende que tecnologia e mercado livre movem o progresso humano, lista inimigos e cita Nick Land e Beff Jezos entre seus santos padroeiros.
O título original é "The Techno-Optimist Manifesto" e o texto saiu no site da própria a16z. Abre com três epígrafes (Walker Percy, Marian Tupy e Thomas Edison) e se divide em quinze seções curtas. Quase tudo vem em frases de uma ou duas linhas, e 105 delas começam com "We believe", nós acreditamos. A leitura abaixo segue a ordem do original, junta seções vizinhas e mostra, bloco a bloco, o que está escrito e quem respondeu.
Quem assina não é um filósofo. Andreessen ajudou a criar o Mosaic quando ainda estudava na Universidade de Illinois, cofundou a Netscape em 1994 e, em 2009, abriu a a16z com Ben Horowitz. A firma investe em inteligência artificial, cripto e defesa, justamente os setores que o manifesto pede para acelerar.
Mentiras e verdade: como o texto abre
A primeira seção, "Lies", começa com uma frase só: "We are being lied to." Vem então a lista do que, segundo o autor, nos dizem sobre a tecnologia: que ela tira empregos, reduz salários, aumenta a desigualdade, ameaça a saúde, arruína o ambiente e corrompe as crianças. Até o mito de Prometeu, reciclado em Frankenstein, Oppenheimer e no Exterminador do Futuro, entra no rol do que "haunts our nightmares". Andreessen não discute item por item. Trata tudo como uma campanha de pessimismo e segue em frente.
Em "Truth", o tom vira credo. "Our civilization was built on technology", escreve, e repete a frase no presente. A seção diz que a humanidade glorificou a tecnologia por centenas de anos, até pouco tempo atrás, e termina com um chamado: "It is time to be Techno-Optimists."
Tecnologia, mercado e a máquina tecnocapital
As três seções seguintes formam o núcleo econômico. Em "Technology", a primeira linha compara sociedades a tubarões, que crescem ou morrem, e a tecnologia vira "a lever on the world", uma alavanca para fazer mais com menos, e o texto enfileira exemplos: a fome teve a Revolução Verde como resposta, o frio teve o aquecimento das casas, as pandemias tiveram as vacinas.
Em "Markets", o livre mercado aparece como "the most effective way to organize a technological economy" e como "a discovery machine, a form of intelligence". Milton Friedman entra para dizer que as necessidades humanas são infinitas; David Ricardo, para garantir que a vantagem comparativa mantém o emprego alto qualquer que seja o nível de tecnologia. É a resposta do autor a quem teme o desemprego causado por máquinas, tema que o blog trata em se a IA vai substituir empregos. A renda básica universal leva uma frase dura: "would turn people into zoo animals to be farmed by the state".
A seção "The Techno-Capital Machine" é a que mais interessa a quem estuda aceleracionismo. Andreessen escreve que tecnologia somada a mercado dá "what Nick Land has termed the techno-capital machine, the engine of perpetual material creation, growth, and abundance". Poucas linhas depois aparece a frase "We believe in accelerationism", com a definição "the conscious and deliberate propulsion of technological development" e a meta de cumprir "the Law of Accelerating Returns".
Os dois conceitos vêm de lugares opostos. A máquina tecnocapital é vocabulário de Nick Land, o filósofo britânico que nos anos 1990, na Universidade de Warwick, descrevia o capitalismo como um processo que se acelera sozinho e escapa ao controle humano. A lei dos retornos acelerados, citada com o nome do autor, é de Ray Kurzweil e sua tese da singularidade, que promete aos humanos a fusão com as máquinas. Andreessen põe as duas ideias na mesma seção, a poucas linhas de distância, e não comenta a diferença.
Inteligência e energia
"We believe intelligence is the ultimate engine of progress", abre a seção sobre inteligência. Daí sai a defesa da IA, que o texto chama de "a universal problem solver". Também está ali a frase mais dura do documento: "We believe any deceleration of AI will cost lives." Mortes que uma IA não desenvolvida poderia ter evitado, diz a linha seguinte, são "a form of murder".
Na energia, a proposta vem com número. O autor quer levar o planeta inteiro ao consumo per capita dos países ricos e depois multiplicar esse consumo por mil. A saída limpa já existiria: "We have the silver bullet for virtually unlimited zero-emissions energy today", e essa bala de prata é a fissão nuclear. Para mostrar que a ideia não é nova, o texto lembra o Projeto Independência, de 1973, em que Richard Nixon pediu mil usinas nucleares até o ano 2000. A fusão seria a segunda bala de prata.
Abundância, super-homens e valores
"Abundance" fecha a conta. Inteligência e energia, postas em um circuito que se realimenta e levadas "to infinity", derrubariam o preço dos bens físicos até deixá-los "as cheap as pencils". Abundância traria mais gente, e mais gente traria mais ideias. O texto chega a afirmar: "We believe the global population can quite easily expand to 50 billion people or more", antes de colonizar outros planetas.
Depois vem um recuo curto. Em "Not Utopia, But Close Enough", Andreessen diz não ser utópico e adota a "visão restrita" de Thomas Sowell, que manda tomar as pessoas como são e testar ideias na prática.
"Becoming Technological Supermen" e "Technological Values" trocam a economia pela moral. A primeira anuncia que vai parafrasear "a manifesto of a different time and place" e escreve: "Technology must be a violent assault on the forces of the unknown, to force them to bow before man." A frase é do Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti, de 1909, no qual a palavra era poesia. Logo depois vêm a crença na natureza e também em superá-la e a linha "We are not victims, we are conquerors." A segunda seção pede ambição, agressividade, persistência e "radical competence", e rejeita o ressentimento.
A seção "The Meaning of Life" traz a frase com que o autor se coloca acima da disputa partidária: "Techno-Optimism is a material philosophy, not a political philosophy." Os tecno-otimistas, diz o parágrafo seguinte, não são necessariamente de esquerda nem de direita. Os anos de 2024 a 2026 testaram essa promessa.
Os inimigos que o texto nomeia
"We have enemies." A seção mais comentada começa assim e esclarece em seguida que os inimigos são ideias, não pessoas. Segundo o texto, a sociedade vive há seis décadas uma "mass demoralization campaign" contra a tecnologia, tocada sob nomes como risco existencial, sustentabilidade, ESG, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ética da tecnologia, gestão de risco e decrescimento. Seriam "zombie ideas, many derived from Communism".
Os inimigos aparecem um por linha, sempre com a fórmula "Our enemy is". Na ordem do original:
- a estagnação, a primeira da lista;
- o estatismo, o autoritarismo, o coletivismo, o planejamento central e o socialismo;
- a burocracia, a "vetocracy" e a gerontocracia;
- a corrupção, a captura regulatória, os monopólios e os cartéis;
- a torre de marfim e a "know-it-all credentialed expert worldview";
- o controle da fala e do pensamento, com o "1984" de George Orwell usado como manual;
- o princípio da precaução, que segundo o texto "would have prevented virtually all progress since man first harnessed fire";
- a desaceleração, o decrescimento e o despovoamento;
- o Último Homem de Nietzsche, citado em um trecho longo de "Assim falou Zaratustra".
O princípio da precaução recebe o ataque mais longo. Andreessen afirma que ele foi criado para impedir a energia nuclear civil, o que chama de talvez "the most catastrophic mistake in Western society in my lifetime". Quem adere às ideias inimigas, segundo o texto, sofre de "ressentiment", e a seção termina com um convite: "The water is warm."
Os 56 santos padroeiros
No lugar de notas de rodapé, o manifesto fecha com 56 nomes e a instrução "read the work of these people, and you too will become a Techno-Optimist". A lista vem em ordem alfabética, com três perfis do X na frente: @BasedBeffJezos, @bayeslord e @PessimistsArc. Os dois primeiros assinaram, em 2022, os textos que lançaram o e/acc, o aceleracionismo efetivo. O primeiro é o perfil de Guillaume Verdon, o Beff Jezos, cuja identidade a revista Forbes revelaria em dezembro de 2023.
O resto mistura economistas liberais (Adam Smith, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Milton Friedman, Thomas Sowell, Deirdre McCloskey), cientistas (Richard Feynman, John Von Neumann, David Deutsch), escritores de tecnologia (Stewart Brand, Kevin Kelly, Virginia Postrel) e William Nordhaus, Nobel de Economia de 2018 pelo trabalho sobre clima. Há ainda John Galt, personagem de ficção de Ayn Rand, e James Burnham, ex-trotskista que virou teórico da elite gerencial. Nick Land e Marinetti, o futurista que apoiou Mussolini, estão lá também.
O ensaio de junho de 2023 sobre IA
Quatro meses antes, em 6 de junho de 2023, Andreessen tinha publicado "Why AI Will Save the World", que antecipa a seção sobre inteligência. A tese está na primeira página: "AI will not destroy the world, and in fact may save it." O texto descreve um futuro em que "every child will have an AI tutor" e cada cientista terá um assistente de IA.
O ensaio responde a cinco riscos, um por subtítulo: a IA nos matar, arruinar a sociedade, tirar todos os empregos, criar desigualdade grave e servir a gente mal-intencionada. Para explicar quem pede regulação, recorre à imagem dos "Baptists and Bootleggers" da Lei Seca americana, em que reformadores sinceros servem de cobertura a quem lucra com a proibição. O sexto risco, para ele o maior, é geopolítico: "The single greatest risk of AI is that China wins global AI dominance".
Quem respondeu, e com que argumento
A resposta mais lida saiu no dia seguinte. Em 17 de outubro de 2023, Amanda Silberling, Dominic-Madori Davis e Kyle Wiggers, do TechCrunch, publicaram "When was the last time Marc Andreessen talked to a poor person?". O artigo chama o manifesto de "a contemporary rehashing of trickle-down economics", lembra que o autor tem fortuna ligada às empresas que defende ("But money can be blinding") e diz que aplicativos como Uber e Amazon "effectively made large swathes of society renters". O fecho descreve Andreessen como produto de "a tech bubble that doesn't understand the people whom it purports to serve".
A resposta de dentro do campo otimista veio de Vitalik Buterin, criador do Ethereum. Em 27 de novembro de 2023, ele publicou "My techno-optimism", que concorda com a defesa da tecnologia e discorda da pressa sem direção. Dali nasceu o d/acc, a aceleração defensiva e descentralizada, explicada em detalhe no texto sobre o d/acc de Vitalik Buterin.
A leitura da Aceleração Eficaz é que as duas críticas acertam alvos diferentes. A do TechCrunch mira quem ganha com a tecnologia; a de Buterin, que tecnologia vale acelerar. O manifesto não responde a nenhuma das duas, porque trata qualquer freio como inimigo.
Do manifesto à política, de 2024 a 2026
Nove meses depois, a frase sobre "not a political philosophy" foi posta à prova. Em 16 de julho de 2024, no podcast "The Ben & Marc Show", Andreessen e Horowitz anunciaram apoio a Donald Trump, segundo o TechCrunch. O imposto sobre ganhos de capital não realizados, proposto pelo governo Biden, foi "the final straw"; para Andreessen, ele tornaria startups "completely implausible". Horowitz disse: "I wish we didn't have to pick a side".
Depois da eleição, o Washington Post noticiou que Andreessen recrutava gente para o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), de Elon Musk. A Fortune reuniu o relato em 5 de dezembro de 2024 e acrescentou a versão do Financial Times: Andreessen "has no formal role", embora venha passando tempo em Mar-a-Lago.
O dinheiro da a16z também foi para as eleições de meio de mandato. Em outubro de 2025, a NBC News descreveu o Leading the Future, um super PAC pró-IA com "more than $100 million" em verba inicial, bancado pela a16z, por Greg Brockman, da OpenAI, por Joe Lonsdale e por Ron Conway. O objetivo declarado é apoiar, em 2026, candidatos favoráveis a regras federais únicas para a IA. A reportagem diz que a Casa Branca ficou incomodada.
Em 25 de março de 2026, Trump nomeou Andreessen, Larry Ellison, Jensen Huang e Mark Zuckerberg para o Conselho de Assessores em Ciência e Tecnologia da Presidência (PCAST), segundo a Bloomberg Law. O conselho, presidido por David Sacks e Michael Kratsios, vai tratar de política de inteligência artificial.
O caso mais recente é uma disputa de versões. Andreessen disse em podcast que, num almoço em maio de 2024, a Casa Branca de Biden revelou planos para, na prática, proibir startups de IA. Em setembro de 2026, Bruce Reed, ex-vice-chefe de gabinete, e Ben Buchanan, ex-assessor de IA, responderam em artigo no Politico que o almoço tratou do imposto mínimo para bilionários e da fiscalização de cripto pela SEC, e que "no one who read it would conclude that we had conveyed any intention to ban AI startups". Os dois lembraram que as startups de IA passaram de cerca de 20% da turma da Y Combinator em 2021 para quase 90% em 2025. Em nota citada pelo Silicon Report em 11 de setembro, a a16z disse que mantém o seu relato.
Perguntas frequentes
O que é o tecno-otimismo de Marc Andreessen?
É a posição de que o avanço tecnológico somado ao livre mercado resolve os problemas materiais da humanidade e deve ser acelerado, não freado. Andreessen a resumiu em 2023 num texto publicado no site da a16z, em que chama de inimigos o princípio da precaução, a burocracia e o decrescimento, e diz que frear a IA custa vidas.
Quem são os santos padroeiros do manifesto tecno-otimista?
São 56 nomes listados no fim do texto como leitura recomendada no lugar de notas de rodapé. Começam por três perfis do X (@BasedBeffJezos, @bayeslord e @PessimistsArc) e seguem em ordem alfabética, de Ada Lovelace a William Nordhaus, passando por Hayek, Nietzsche, Nick Land, Ray Kurzweil, Marinetti e o personagem John Galt.
Andreessen é aceleracionista?
Ele se declara assim no próprio manifesto, numa linha que começa com "We believe in accelerationism". A definição que usa é técnica e otimista: impulsionar de forma deliberada o desenvolvimento tecnológico. A frase cita a máquina tecnocapital de Nick Land e a lei dos retornos acelerados de Ray Kurzweil, duas tradições que pensam o futuro humano de forma muito diferente.
Qual a diferença entre o tecno-otimismo de Andreessen e o d/acc?
Andreessen quer acelerar toda tecnologia e vê qualquer freio como custo em vidas. O d/acc, proposto por Vitalik Buterin em novembro de 2023 como resposta ao manifesto, aceita acelerar, mas escolhe o quê: dá prioridade a tecnologias de defesa, descentralizadas e democráticas, e desconfia de projetos que concentram poder em poucas empresas ou governos.
Fontes
- The Techno-Optimist Manifesto · Andreessen Horowitz (a16z)
- Why AI Will Save the World · Andreessen Horowitz (a16z)
- When was the last time Marc Andreessen talked to a poor person? · TechCrunch
- My techno-optimism · Vitalik Buterin (blog pessoal)
- Andreessen Horowitz co-founders explain why they're supporting Trump · TechCrunch
- Marc Andreessen is recruiting and interviewing staff for Elon Musk's Department of Government Efficiency · Fortune
- White House irked by Leading the Future, a new $100M pro-AI super PAC · NBC News
- Trump Taps Zuckerberg, Andreessen and Huang for Tech Council · Bloomberg Law
- Former Biden aides deny conveying any intention to ban AI startups · Silicon Report