Ray Kurzweil e a singularidade: o que ele acertou e o que errou
O inventor que previu a derrota de Kasparov errou o ditado e as estradas inteligentes, mantém 2029 e 2045 e tem 20 mil dólares apostados no teste de Turing
Redação Aceleração Eficaz · · 11 min de leitura
Ray Kurzweil é o inventor americano que pôs data na chegada das máquinas: inteligência artificial no nível humano em 2029 e a singularidade, a fusão entre humanos e computadores, em 2045. A tabela abaixo reúne previsões dele que já venceram, quem conferiu cada uma e o placar que ele mesmo se deu.
Nascido em Queens, Nova York, em 12 de fevereiro de 1948, ele fez carreira de inventor antes de virar profeta. Em 13 de janeiro de 1976 apresentou, com a Federação Nacional dos Cegos dos Estados Unidos, a Kurzweil Reading Machine, que lia textos impressos em voz alta; Stevie Wonder foi o primeiro usuário da versão de produção. Em 1984 veio o sintetizador K250. Ganhou a Medalha Nacional de Tecnologia em 1999 e, em dezembro de 2012, foi contratado por Larry Page para trabalhar com aprendizado de máquina no Google.
As duas datas que ele não mudou
A primeira data é de 1999. Saiu em The Age of Spiritual Machines, livro com centenas de previsões organizadas por década: 2009, 2019, 2029 e 2099. Ali Kurzweil marcou 2029 para a inteligência de nível humano. Em junho de 2024, ao Observer, lembrou que naquele ano as pessoas achavam que isso levaria um século ou mais. Ele disse 30 anos.
A segunda vem de The Singularity Is Near, de 2005. Na tradução brasileira, o livro divide a história do universo em seis épocas: física e química, biologia e DNA, cérebros, tecnologia, a fusão da tecnologia humana com a inteligência humana e, na última, o universo que desperta. A singularidade é a fusão da quinta época, que ele situa por volta de 2045.
Em 2024 ele repetiu as duas. "I have stayed consistent. So 2029, both for human-level intelligence and for artificial general intelligence (AGI)", disse ao Observer, ou seja, manteve a coerência e fica com 2029 tanto para a inteligência de nível humano quanto para a inteligência artificial geral, em tradução livre.
A lei dos retornos acelerados
Por trás das datas há uma tese que Kurzweil chama de lei dos retornos acelerados, tema de um ensaio dele de março de 2001 e do capítulo 2 do livro de 2005. Cada tecnologia vira ferramenta para construir a seguinte, e por isso o progresso das tecnologias de informação segue curvas exponenciais que podem ser medidas.
O exemplo preferido dele é o preço por desempenho da computação. Em 2010, escreveu que essa curva cresce de forma duplamente exponencial há 110 anos, sem se abalar com duas guerras mundiais, a Grande Depressão ou o fim da União Soviética. Chamar isso de lei de Moore seria um equívoco, diz. A regra de dobrar os componentes de um chip a cada dois anos foi a quinta etapa de crescimento exponencial da computação, não a primeira. Ao Observer, em 2024, deu o ritmo atual: o preço por desempenho dobra a cada 15 meses.
Previsões conferidas, uma a uma
Kurzweil é um dos poucos futuristas que dá para auditar, porque escreveu datas. A última coluna diz quem julgou: às vezes ele mesmo, no ensaio How My Predictions Are Faring, de 2010, às vezes voluntários reunidos pelo pesquisador Stuart Armstrong no fórum LessWrong.
| Previsão | Onde apareceu | Prazo | O que aconteceu | Quem julgou |
|---|---|---|---|---|
| Um computador derrota o campeão mundial de xadrez | The Age of Intelligent Machines, escrito entre 1986 e 1989 | 1998 | O Deep Blue, da IBM, venceu Garry Kasparov em 1997 | Kurzweil, em 2010: acerto, com um ano de folga |
| Uma rede mundial de computadores liga as pessoas | The Age of Intelligent Machines | Anos 1990 | A web se espalhou pelo mundo naquela década | Kurzweil, em 2010: acerto |
| Uma onda de democratização nascida dessa rede descentralizada varre a União Soviética | The Age of Intelligent Machines | Sem ano marcado | A União Soviética acabou em 1991 | Kurzweil, em 2010: acerto; a ideia vinha de Ithiel de Sola Pool (1983) |
| PC de mil dólares faz cerca de um trilhão de cálculos por segundo | The Age of Spiritual Machines, 1999 | 2009 | Segundo ele, já dava para chegar perto de um teraflop | Kurzweil: correta |
| A maioria dos computadores portáteis não terá teclado | The Age of Spiritual Machines | 2009 | Celulares e tablets sem teclado físico se espalharam | Kurzweil: correta. Um crítico que ele cita marcou como falsa |
| Teclados ainda existem, mas a maior parte do texto é criada pela fala | The Age of Spiritual Machines | 2009 | O ditado por voz tinha milhões de usuários, mas não era a regra | Kurzweil: errada |
| Estradas inteligentes, em que o carro se guia por sensores da pista, para viagens longas | The Age of Spiritual Machines | 2009 | Não havia; ele cita projetos europeus de transporte inteligente | Kurzweil: errada, com cerca de dez anos de atraso |
| Empresa a oeste do Mississippi e ao norte da linha Mason-Dixon passa de um trilhão de dólares em valor de mercado | The Age of Spiritual Machines | 2009 | Era a Microsoft, que valia um quarto disso em 2010 | Kurzweil: errada |
| Ligações telefônicas trazem imagens tridimensionais de alta resolução projetadas direto nos olhos | The Age of Spiritual Machines | 2019 | Não aconteceu | Voluntários do LessWrong, 2020: falsa por unanimidade |
| A existência de uma subclasse humana continua sendo um problema | The Age of Spiritual Machines | 2019 | Continuou | LessWrong, 2020: a mais certeira das 105, com nota média 1,3 numa escala em que 1 é verdadeira |
| Computador passa no teste de Turing | Aposta registrada no Long Bets em 2002 | 2029 | Em 2025, o GPT-4.5 foi tomado por humano em conversas de cinco minutos | Em aberto até o fim de 2029 |
| Velocidade de escape da longevidade | Entrevista ao Observer, 2024 | Começo dos anos 2030 | Prazo ainda não venceu | Em aberto |
| Inteligência humana expandida um milhão de vezes | The Singularity Is Near, 2005, e Observer, 2024 | 2045 | Prazo ainda não venceu | Em aberto |
Os acertos mais claros da tabela são os da primeira leva, escrita nos anos 1980 sobre a década seguinte. Dois dos três erros que ele mesmo admitiu não dependiam de chip. O ditado por voz existia em 2009, mas as pessoas continuaram digitando, e estrada inteligente depende de obra. Na rodada de 2019, foi a realidade virtual que derrubou a média.
A nota que ele se deu e a que recebeu
No ensaio de 2010, Kurzweil revisou as 147 previsões que tinha feito para 2009. Contou 115 inteiramente corretas (78%), 12 essencialmente corretas (8%), 17 parcialmente corretas (12%) e 3 erradas (2%). Somadas as duas primeiras faixas, 86%. Os críticos, segundo ele, sofriam de viés de seleção e olhavam só os poucos erros.
Stuart Armstrong refez a conta com voluntários. Dividiu o livro em 172 previsões, avaliadas numa escala de cinco pontos. O resultado saiu em 16 de janeiro de 2013: 46% das avaliações marcaram falsa ou quase falsa, e 42% verdadeira ou quase verdadeira. Um segundo grupo, montado por Malo Bourgon na plataforma Youtopia, foi mais duro, com 30% de verdadeiras e 57% de falsas.
Armstrong concluiu: "Kurzweil remains an acceptable prognosticator, with very poor self-assessment", um prognosticador aceitável, com uma autoavaliação muito ruim, em tradução livre. Como as previsões não eram de sim ou não, lembrou, até 30% fica bem acima do acaso.
Em 6 de maio de 2020 veio a rodada de 2019. Armstrong separou 105 afirmações; 34 dos 46 voluntários devolveram as fichas, num total de 3.078 avaliações. Mais da metade saiu como claramente errada, resultado bem pior que o de 2009. Armstrong fechou com um elogio: Kurzweil "had the guts and the courtesy to write down his predictions and give them a date", teve a coragem e a cortesia de escrever as previsões e pôr data nelas, em tradução livre.
O teste de Turing e a aposta de 20 mil dólares
A previsão de 2029 tem árbitro. Em 2002, Mitch Kapor, fundador da Lotus, registrou no site Long Bets a aposta número 1: até 2029, nenhum computador terá passado no teste de Turing. Kurzweil apostou contra, em 20 mil dólares. Se Kapor vencer, o dinheiro vai para a Electronic Frontier Foundation; se Kurzweil vencer, para a Kurzweil Foundation.
As regras são bem mais duras que a versão popular do teste. Três juízes trocam mensagens de texto com quatro candidatos, três pessoas e um computador, durante duas horas com cada um, o que soma 24 horas de entrevista. A máquina precisa enganar pelo menos dois dos três juízes e, num ranking de quem parece mais humano, ficar no mesmo nível ou acima de dois dos três humanos.
Em 31 de março de 2025, Cameron Jones e Benjamin Bergen publicaram no arXiv o estudo Large Language Models Pass the Turing Test. Em testes controlados e pré-registrados, com conversas de cinco minutos, o GPT-4.5 instruído a adotar uma persona humana foi apontado como o humano em 73% das vezes, mais do que as pessoas reais. O LLaMa-3.1 ficou em 56% e o ELIZA em 23%. Os autores tratam o resultado como a primeira evidência empírica de que um sistema artificial passa num teste de Turing padrão de três participantes. Cinco minutos não são duas horas, e a aposta segue aberta.
O que diz o livro de 2024
The Singularity Is Nearer: When We Merge with AI saiu nos Estados Unidos em 25 de junho de 2024, com 419 páginas, depois de adiado de 2021 para 2022 e de 2022 para 2024. Kurzweil tinha 76 anos e o cargo de "principal researcher and AI visionary" no Google. Ao Observer, explicou que o livro de 2005 falava de um futuro que pouca gente entendia, porque ninguém sabia o que era IA.
O roteiro da entrevista inclui nanorrobôs que entram no cérebro pelos capilares, sem cirurgia, a velocidade de escape da longevidade no começo dos anos 2030 e uma renda básica universal na mesma década, para amortecer a perda de empregos para a IA. Essa renda, diz ele, não vai bastar no início, mas vai bastar com o tempo.
"I take about 80 pills a day", disse: são cerca de 80 comprimidos por dia, em tradução livre. O congelamento criogênico é o plano B. Ele espera ter um "replicante" digital de si mesmo no fim desta década e já fez algo parecido com o pai, juntando tudo o que ele escreveu. A frase final da entrevista: "It is not going to be us versus AI: AI is going inside ourselves", não vai ser nós contra a IA, a IA vai entrar em nós, em tradução livre.
Os críticos da singularidade
Em 12 de outubro de 2011, Paul Allen, cofundador da Microsoft, e o cientista da computação Mark Greaves publicaram na MIT Technology Review o artigo The Singularity Isn't Near. Os dois chamaram de freio da complexidade (complexity brake) o fato de que, quanto mais a ciência avança sobre o cérebro, mais conhecimento especializado precisa para descrevê-lo. Se a singularidade vier até 2045, escreveram, será por descobertas imprevisíveis, e não porque a lei dos retornos acelerados a tornou inevitável.
O cientista cognitivo Douglas Hofstadter disse dos livros de Kurzweil e de Hans Moravec que são "an intimate mixture of rubbish and good ideas", uma mistura íntima de lixo e boas ideias, em tradução livre. Kapor, o adversário da aposta, chamou a singularidade de "intelligent design for the IQ 140 people", design inteligente para gente de QI 140, em tradução livre, movido por um impulso religioso.
Em 2024, Becca Rothfeld escreveu no Washington Post que o novo livro é difícil de resumir por ser "so careless and careening", descuidado e desgovernado, em tradução livre, e que às vezes as profecias soam como trechos de textos religiosos messiânicos. As frases de Hofstadter, Kapor e Rothfeld chegam aqui pelos verbetes de Kurzweil e do livro na Wikipédia em inglês.
Kurzweil no manifesto de Andreessen
Kurzweil também aparece no debate do aceleracionismo efetivo, o e/acc. No Manifesto Tecno-Otimista que Marc Andreessen publicou em 16 de outubro de 2023, a lei aparece com o nome do autor: "Technological advances tend to feed on themselves, increasing the rate of further advance". O parágrafo seguinte abre com "We believe in accelerationism", nós acreditamos no aceleracionismo, em tradução livre. Kurzweil também está na lista de santos padroeiros do texto, quatro nomes depois de Nick Land.
A leitura da Aceleração Eficaz é que os dois nomes descrevem motores diferentes. Em Kurzweil, a aceleração é uma regularidade tirada de gráficos de preço por desempenho, com destino e data, a fusão de 2045. Em Land, quem acelera é o capital, e o processo escapa ao controle humano. Para separar as linhagens, vale ler o que é aceleracionismo.
As edições brasileiras
The Singularity Is Near saiu no Brasil como A Singularidade Está Próxima: quando os humanos transcendem a biologia, com tradução de Ana Goldberger, em coedição do Itaú Cultural com a Iluminuras. O sumário está no acervo da Biblioteca do Senado. A sequência chegou como A Singularidade Está Mais Próxima: A Fusão do Ser Humano com o Poder da Inteligência Artificial, pela Goya/Aleph, com tradução de Renato Marques, em 400 páginas e por R$ 99,90, segundo a CartaCapital, que publicou em português a entrevista ao Observer.
Abril de 2026, na HumanX
Kurzweil voltou às datas num painel do evento HumanX, em abril de 2026, com o filho, Ethan Kurzweil, sócio do fundo Chemistry, e a repórter Shirin Ghaffary, da Bloomberg. No relato de Sabrina Ortiz para o The Deep View, publicado em 13 de abril, ele disse ter previsto um intervalo de alguns anos entre o momento em que as primeiras pessoas encontram a IA geral e o momento em que todo mundo encontra, "so that's consistent with that prediction that we would start now": o que bate com a previsão de que isso começaria agora, em tradução livre.
No mesmo painel, defendeu a corrida entre as empresas de IA. A competição, disse, alimenta o crescimento exponencial e vai fazer dos próximos dez anos um período "absolutely fantastic".
Perguntas frequentes
O que é a singularidade, segundo Ray Kurzweil?
É o ponto, que ele situa por volta de 2045, em que a inteligência biológica e a das máquinas passam a formar uma coisa só. Kurzweil imagina interfaces entre cérebro e computador feitas de nanorrobôs e uma inteligência total um milhão de vezes maior que a de hoje. A ideia não é só dele: Paul Allen e Mark Greaves citam o futurista Vernor Vinge ao lado de Kurzweil entre os que veem o mundo perto desse ponto de virada.
Em que ano a IA chega ao nível humano, para Kurzweil?
Em 2029. Ele marcou a data em 1999 e a repetiu em 2024 e em 2026. Na definição dele, inteligência de nível humano é uma IA com a habilidade dos humanos mais competentes em cada área. A inteligência artificial geral seria um passo diferente: fazer tudo o que qualquer pessoa faz, e melhor. Para Kurzweil, as duas chegam na mesma época.
Quantas previsões de Kurzweil deram certo?
Depende de quem faz a conta. Na revisão do próprio autor, 86% das 147 previsões para 2009 estavam certas ou quase. Nas notas dos voluntários de Stuart Armstrong, a parcela de acerto ficou entre 30% e 42% para aquele ano, e a lista de 2019 se saiu pior. Para Armstrong, Kurzweil não pode reivindicar um acerto acima de 50%.
Os livros de Kurzweil têm edição em português?
Os dois sobre a singularidade têm. O de 2005 foi traduzido por Ana Goldberger e lançado pela Iluminuras com o Itaú Cultural. O de 2024 saiu pela Goya/Aleph, em tradução de Renato Marques. A entrevista que ele deu ao Observer sobre o livro novo foi publicada em português pela CartaCapital, para quem prefere começar por um texto curto.
Fontes
- How My Predictions Are Faring · Ray Kurzweil (Kurzweil Library), 2010
- Assessing Kurzweil: the results · Stuart Armstrong, LessWrong, 16/01/2013
- Assessing Kurzweil predictions about 2019: the results · Stuart Armstrong, LessWrong, 06/05/2020
- AI scientist Ray Kurzweil: 'We are going to expand intelligence a millionfold by 2045' · The Observer (The Guardian), 29/06/2024
- 'Até 2045, a tecnologia terá expandido a inteligência humana em 1 milhão de vezes', projeta Ray Kurzweil · CartaCapital, 2024
- Why Kurzweil still sees AGI coming by 2029 · The Deep View, 13/04/2026
- Bet 1: By 2029 no computer will have passed the Turing Test · Long Bets
- Large Language Models Pass the Turing Test · arXiv (Jones e Bergen), 31/03/2025
- Paul Allen: The Singularity Isn't Near · MIT Technology Review, 12/10/2011
- Ray Kurzweil · Wikipedia (inglês)
- The Singularity Is Nearer · Wikipedia (inglês)
- A Singularidade Está Próxima: sumário · Biblioteca do Senado Federal
- The Techno-Optimist Manifesto · a16z, 16/10/2023