Guillaume Verdon, o Beff Jezos: quem é o físico por trás do e/acc
Do mestrado em Waterloo ao chip Z1, prometido para 2027: a vida do engenheiro que escreveu o e/acc sob pseudônimo e foi identificado por uma perícia de voz.
Redação Aceleração Eficaz · · 9 min de leitura
Guillaume Verdon é o físico canadense que, sob o pseudônimo Beff Jezos, ajudou a lançar no Twitter, em 2022, o aceleracionismo efetivo (e/acc). Ex-engenheiro de computação quântica do Google, ele dirige a Extropic, que desenvolve chips termodinâmicos para inteligência artificial. A Forbes revelou sua identidade em 1º de dezembro de 2023.
O nome do perfil, @BasedBeffJezos, troca as iniciais de Jeff Bezos. Quando a reportagem da Forbes saiu, a conta tinha 50 mil seguidores e fãs no topo do Vale do Silício. Marc Andreessen o chamava de "patron saint of techno-optimism"; Garry Tan, presidente da Y Combinator, de "brother". Sam Altman trocava provocações com ele, e Elon Musk aplaudia os memes.
Este perfil segue a vida de Verdon em ordem de datas e depois separa três assuntos que costumam vir misturados: o personagem, as ideias e a empresa.
Linha do tempo, de Waterloo à Extropic
- Janeiro de 2017. Verdon deposita na Universidade de Waterloo, no Canadá, a dissertação de mestrado "Probing Quantum Fields: Measurements and Quantum Energy Teleportation", feita no Instituto de Computação Quântica.
- Março de 2020. Sai no arXiv o artigo que apresenta o TensorFlow Quantum, biblioteca do Google para aprendizado de máquina quântico. Verdon é o segundo de 29 autores.
- 2022. Com Trevor McCourt, ele funda a empresa que depois se chamaria Extropic. O primeiro nome era Qyber.
- 31 de outubro de 2022. A newsletter do movimento republica na íntegra o texto inaugural do e/acc, assinado por quatro perfis anônimos: @BasedBeffJezos, @bayeslord, @zestular e @creatine_cycle.
- 1º de dezembro de 2023. A Forbes, em reportagem de Emily Baker-White, identifica Verdon como o homem por trás de Beff Jezos.
- 29 de dezembro de 2023. Já com nome e rosto, ele passa quase três horas no podcast de Lex Fridman, no episódio 407.
- 29 de outubro de 2025. A Extropic apresenta o X0, seu primeiro chip termodinâmico de silício, e o XTR-0, um computador de mesa para testes.
- Julho de 2026. No dia 29, sai a carta de intenções com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos para até US$ 75 milhões do programa CHIPS.
- 3 de agosto de 2026. A empresa anuncia que o projeto do Z1, primeiro chip em escala de produção, foi enviado à fábrica, com acesso antecipado previsto para 2027.
Do laboratório X do Google ao anonimato
Verdon nasceu em Montreal. Estudou na Universidade McGill e fez a pós-graduação em Waterloo, onde teve o físico Achim Kempf como orientador, segundo a Wikipédia. Em 2018 apresentou trabalhos na conferência de computação quântica adiabática da Nasa.
No Google, ficou com a parte teórica do time que lançou o TensorFlow Quantum. Depois passou ao X, o laboratório de projetos de longo prazo da empresa, onde trabalhou com redes neurais de grafos quânticas e registrou patentes em computação e aprendizado de máquina quânticos.
O dinheiro para começar a Extropic veio em parte de um negócio paralelo de NFTs, iniciado ainda no X como piada de 1º de abril. A brincadeira deu lucro e ele continuou. "It's like it was meta-ironic and then became post-ironic", contou à Forbes. Com o que ganhou, comprou placas de vídeo, vendeu o carro e voltou a morar com os pais.
No perfil, o tom era outro. Jezos escrevia que as instituições tinham apodrecido além de qualquer conserto e que a imprensa era "a vector for cybernetic control of culture", segundo a Forbes.
Como a Forbes chegou ao nome
A repórter Emily Baker-White cruzou detalhes que Jezos contava sobre si mesmo com fatos públicos da vida de Verdon. Para confirmar, a revista recorreu a Catalin Grigoras, diretor do Centro Nacional de Perícia em Mídia dos Estados Unidos. Ele comparou gravações de Jezos com palestras de Verdon e concluiu que era 2.954.870 vezes mais provável que a voz de uma das gravações fosse dele do que de qualquer outra pessoa.
A Forbes justificou a publicação pelo interesse público, dada a influência crescente do perfil. Num parêntese, o texto diz que revelar o nome por trás de uma conta anônima de figura pública não é doxxing, termo que reserva para a exposição maliciosa de endereço ou telefone de alguém. Até em um servidor de Discord do próprio e/acc havia quem cobrasse o anonimato. "Dude needs to dox himself, and start speaking math and engineering", escreveu um participante.
Verdon confirmou tudo em entrevista. Disse que, com as identidades agora ligadas, poderia pôr o próprio nome por trás das palavras, e que aceitou falar porque achava que era hora. Contou também que o personagem fora "very instrumental to get all sorts of deal flow, whether it's talent, investors, or partnerships".
Semanas depois, foi a Lex Fridman dar a versão longa. O episódio 407, publicado em 29 de dezembro de 2023, tem capítulos sobre aprendizado de máquina quântico, a escala de Kardashev, que mede civilizações pela energia que usam, humor e memes, e até um sobre Jeff Bezos.
As ideias: energia, consciência e memes
O texto inaugural do e/acc abre com uma frase que não é dos autores: "Accelerationism is simply the self-awareness of capitalism, which has scarcely begun." Ela vem do ensaio "A Quick-and-Dirty Introduction to Accelerationism", que Nick Land publicou na revista Jacobite em 25 de maio de 2017, e entra sem crédito. Em seguida, o texto diz que a meta da humanidade é "preserve the light of consciousness", define o e/acc como ideias e práticas para aumentar a chance de uma "technocapital singularity" e convida o leitor a trabalhar por "a hundred trillion meta-organisms flourishing in the galaxy".
Os autores avisam que escrevem "partly joking, partly serious". Num tuíte reproduzido, de 31 de maio de 2022, @zestular resumiu: "e/acc is EA, but based". EA é a sigla em inglês do altruísmo eficaz, movimento de filantropia que, segundo a Forbes, virou também reduto de quem teme que a IA se volte contra os humanos.
À Forbes, Verdon pôs a meta em números físicos: "Our goal is really to increase the scope and scale of civilization as measured in terms of its energy production and consumption." Civilização melhor, nessa conta, é a que produz e gasta mais energia.
O formato também foi planejado. "If you're going to create an ideology in the time of social media, you've got to engineer it to be viral", explicou. No Twitter, Jezos definiu o movimento como "a memetic optimism virus", "a meta-religion", "a form of spirituality" e "not a cult". Na entrevista, o tom baixou: em tradução livre, "somos só gente otimista que quer construir um futuro melhor". E completou que, na vida real, é "a gentle Canadian".
O alvo declarado é a segurança de IA. "We think this whole AI safety industry is just a pretense for securing more control", disse Verdon, que defende modelos de código aberto para que a tecnologia não fique "in the hands of a single company". Jezos dizia que os doomers, como são chamados os pessimistas da IA, eram "instrumental to forces of evil and civilizational decline". O choque entre as duas tribos, que explodiu na crise da OpenAI em novembro de 2023, está descrito em e/acc, altruísmo eficaz, d/acc e doomers, e a história do movimento, no texto sobre o que é o e/acc.
A ponte com a filosofia veio por acaso, segundo o próprio Verdon. Enquanto escrevia o texto com @bayeslord, alguém disse aos dois que aquilo lembrava a obra de Nick Land. Verdon afirmou que nunca falou com Land nem com Curtis Yarvin, mas Land apoiou publicamente o e/acc. Em 16 de outubro de 2023, pouco mais de seis semanas antes da Forbes, Andreessen já tinha aberto com o nome do perfil a lista de santos padroeiros do manifesto tecno-otimista.
O chip termodinâmico da Extropic
Em 2023 a empresa ainda era segredo. Jezos a chamava de "AI Manhattan Project" e brincava: "If you knew what I was building, you'd try to ban it." À Forbes, Verdon descreveu só "a different type of physics-based computer that is not quantum" e contou ter levantado US$ 14,1 milhões, com HOF Capital, Julian Capital e Buckley Ventures entre os investidores.
A ideia ficou pública em 29 de outubro de 2025. Em vez de bits que valem 0 ou 1 com certeza, o X0 usa pbits, circuitos feitos de transistores comuns cuja tensão oscila ao acaso entre dois estados. A probabilidade de cair em cada um é programável, e o ruído térmico vira matéria-prima. A arquitetura se chama TSU, unidade de amostragem termodinâmica, e roda um tipo de modelo gerativo que a empresa batizou de DTM, que tira dados do ruído aos poucos. Veio junto o thrml, uma biblioteca em Python para simular o chip.
A promessa central tem asterisco. A Extropic escreve que rodar DTMs nas TSUs "could be 10,000x more energy efficient" do que os algoritmos atuais em placas de vídeo, "as shown by our simulations" em testes pequenos. O mesmo texto diz que um computador mais eficiente "can be built by a dozen people in a garage outside Boston", enquanto ampliar a produção de energia exige um Estado inteiro.
Em 2026 o dinheiro público entrou na história. Pela carta de intenções de 29 de julho, o escritório de pesquisa do programa CHIPS pode pôr até US$ 75 milhões para levar os primeiros aglomerados de Z1 ao ar e fabricar os chips em uma fundição americana. A empresa, hoje sediada em Waltham, Massachusetts, informou que duas versões do X0 foram produzidas e testadas em fábricas diferentes. "Brute-forcing the digital, deterministic paradigm to unfathomable scale cannot be the endgame", disse Verdon no comunicado.
O anúncio de 3 de agosto detalhou o Z1. Haverá um módulo compacto, o stick, com mais de 500 mil pbits, uma placa PCIe com mais de 4 milhões e um aglomerado com mais de 1 bilhão, todos com acesso antecipado em 2027. Até ali, a Extropic tinha fabricado dezenas de XTR-0 e enviado as máquinas a usuários pioneiros.
A leitura da Aceleração Eficaz é que o número de 10 mil vezes continua sendo resultado de simulação, medido pela própria empresa. A prova em silício de verdade depende do Z1, que só chega aos primeiros clientes em 2027.
As críticas, de Stanford a Chichester
Fred Turner, professor de comunicação em Stanford que estuda o aceleracionismo, rejeitou a premissa de que engenharia resolve cultura. "The world is just not like that. It just isn't", disse à Forbes. Para ele, quem convence os outros do contrário ganha o poder que costuma ficar com governos. E arrematou: "The truth is, they have no social vision."
Benjamin Noys, da Universidade de Chichester, que deu nome ao aceleracionismo em 2010, viu no e/acc "very traditional libertarian right-wing hostility to regulation". Disse também que a marca é central no projeto: quando gente suficiente fala de uma ideia, ela vira real, "and so does the money". A Forbes liga isso à hiperstição, conceito popularizado por Land.
A resposta mais elaborada veio de dentro do campo otimista. Em novembro de 2023, Vitalik Buterin, criador do Ethereum, propôs dar prioridade às tecnologias de defesa e descentralização, ideia que batizou de d/acc e que está no texto sobre o d/acc de Vitalik Buterin. A resposta de Verdon a esse tipo de crítica, dada à Forbes, é que quer mais gente otimista, disposta a construir e correr riscos, "so if we have to be not so polite on the timeline, then so be it".
O resultado mais recente da Extropic saiu em 1º de outubro de 2026. Com a Prime Intellect, a empresa treinou um modelo de código aberto para reproduzir experimentos clássicos da linha de Geoffrey Hinton, como máquinas de Boltzmann restritas. Depois de 100 passos de aprendizado por reforço, a nota em tarefas fora do treino subiu de 0,127 para 0,361. O plano declarado é repetir o ciclo com medições de chips reais quando os primeiros de grande escala entrarem em operação, em 2027.
Perguntas frequentes
Beff Jezos e Guillaume Verdon são a mesma pessoa?
Sim. Verdon confirmou à Forbes, em entrevista publicada em 1º de dezembro de 2023, que mantém o perfil @BasedBeffJezos. A revista chegou ao nome cruzando dados biográficos e com uma perícia de voz. Desde então ele usa o próprio nome em entrevistas, como a que deu a Lex Fridman no fim daquele mês, e nos comunicados da Extropic.
O que faz a Extropic?
A Extropic projeta processadores que usam o ruído térmico de transistores para gerar amostras aleatórias controladas, em vez de calcular com bits fixos. A aposta é rodar modelos gerativos de IA com muito menos energia que as placas de vídeo. O primeiro chip, X0, saiu em 2025; o Z1, de produção, tem acesso antecipado marcado para 2027.
Guillaume Verdon é aceleracionista no sentido de Nick Land?
Ele usa parte do vocabulário de Land, e o texto fundador do e/acc abre com uma frase do filósofo britânico, sem crédito. Verdon diz, porém, que chegou à obra de Land depois de escrever as primeiras ideias e que nunca falou com ele. O seu foco é energia, código aberto e oposição à regulação da IA.
Onde ver Guillaume Verdon falando sobre o e/acc?
A fonte mais longa é o episódio 407 do podcast de Lex Fridman, de dezembro de 2023, com quase três horas de conversa sobre física, computação quântica, memes e o movimento. Os textos técnicos da Extropic, assinados pela empresa, ficam na seção Writing do site extropic.ai, com datas, gráficos e artigos no arXiv.
Fontes
- Who Is @BasedBeffJezos, The Leader Of The Tech Elite's 'E/Acc' Movement? · Forbes
- Guillaume Verdon · Wikipédia (em inglês)
- Effective Accelerationism, e/acc (republicação do texto inaugural) · e/acc newsletter (Substack)
- #407: Guillaume Verdon: Beff Jezos, E/acc Movement, Physics, Computation & AGI · Lex Fridman Podcast
- A Quick-and-Dirty Introduction to Accelerationism (cópia arquivada) · Jacobite, via Internet Archive
- TensorFlow Quantum: A Software Framework for Quantum Machine Learning · arXiv
- Thermodynamic Computing: From Zero to One · Extropic
- Extropic Signs $75 Million Letter of Intent with U.S. Department of Commerce · Extropic
- From One to One Billion: Torx, Thermalizers, and Z1 · Extropic
- First Sparks of Thermodynamic Recursive Intelligence · Extropic