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Aceleração Eficaz

Decrescimento x aceleracionismo: o que cada lado defende e onde os dois se encontram

O Reino Unido dobrou a renda por pessoa desde 1973 e cortou 61% da emissão por habitante. Os dois lados usam esse número, e discordam sobre a velocidade.

Redação Aceleração Eficaz · · 8 min de leitura

Decrescimento é a proposta de reduzir, de forma planejada, a produção e o uso de energia e materiais nos países ricos, para que a economia caiba nos limites do planeta e o que existe seja mais bem dividido. O aceleracionismo aposta no contrário: mais tecnologia, mais energia, mais crescimento. Mesmo assim, as duas correntes concordam num ponto: trabalhar menos horas.

A ideia tem meio século. Em 1972, o relatório Os Limites do Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma a pesquisadores do MIT, simulou o que aconteceria se população e produção continuassem a subir num planeta finito. O nome em francês, décroissance, remonta ao economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen, que em 1971 ligou a lei da entropia aos processos econômicos, segundo a resenha de Felipe Rodríguez Arancibia, da Universidade de Brasília, publicada na revista Sociedade e Estado.

Do outro lado está um movimento mais novo, descrito no nosso guia sobre o que é aceleracionismo. A tabela abaixo põe as duas posições lado a lado, a partir do que cada autor publicou.

TemaDecrescimentoAceleracionismo
Autores de referênciaSerge Latouche (2007), Jason Hickel (2020), Kohei Saito (2020)Nick Srnicek e Alex Williams (2015), Marc Andreessen (2023), movimento e/acc
Crescimento do PIBDeixa de ser meta nos países ricos; Latouche avisa que decrescimento não quer dizer PIB negativoAndreessen inclui “de-growth” e “the limits of growth” numa lista de ideias que chama de campanha de desmoralização
EnergiaUsar menos, para que a transição para fontes limpas fique viávelAndreessen quer levar o mundo ao consumo dos países ricos e depois multiplicar por mil, com energia nuclear
TecnologiaLatouche propõe uma moratória da inovação tecnocientífica; Saito critica o capitalismo verdeAndreessen trata a tecnologia como solução da crise ambiental; Srnicek e Williams pedem automação total
Jornada de trabalhoConverter ganho de produtividade em menos horas; Hickel e coautores citam a semana de quatro diasSrnicek e Williams pedem o fim do trabalho, com renda básica universal
Países pobresSaito diz que precisam de mais desenvolvimento; Latouche diz que o Sul não precisa decrescerAndreessen quer elevar o consumo de energia de todos ao nível dos ricos

Três autores do decrescimento

O movimento tem dezenas de nomes. Três deles chegaram ao leitor brasileiro por livro, entrevista ou estudo citado na imprensa.

Serge Latouche e os oito erres

Professor emérito de economia na Universidade Paris-Sud, Latouche publicou em 2007 o Pequeno tratado do decrescimento sereno, que saiu no Brasil em 2009 pela WMF Martins Fontes. Para ele, decrescimento é antes de tudo um slogan político. A recessão, ou crescimento negativo, seria o pior dos mundos, porque traz desemprego e corte de programas sociais numa sociedade montada para crescer.

O livro organiza a proposta em oito verbos que se reforçam: reavaliar, reconceituar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Entre as medidas práticas estão taxar pesado a publicidade, trazer a produção para perto do consumo e transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e criação de emprego. A mais polêmica é decretar uma moratória sobre a inovação tecnocientífica, para reorientar a pesquisa.

Jason Hickel e a conta das emissões

O antropólogo Jason Hickel escreveu Less Is More: How Degrowth Will Save the World, lançado pela Penguin em 2020; não localizamos edição brasileira. Em dezembro de 2022, ele e coautores publicaram na revista Nature um roteiro para pesquisas sobre o tema. Uma das propostas, em tradução livre: reduzir o tempo de trabalho, o que poderia ser feito baixando a idade de aposentadoria, estimulando o meio período ou adotando a semana de quatro dias.

O trabalho mais citado dele vem dos números. Com Jefim Vogel, Hickel analisou 36 países de renda alta no Lancet Planetary Health, em setembro de 2023. Onze deles reduziram as emissões de CO2 enquanto o PIB crescia, entre 2013 e 2019. No ritmo daquele período, esses países levariam “more than 220 years” para cortar 95% das emissões e emitiriam 27 vezes a parte que lhes cabe no orçamento de carbono compatível com 1,5 °C.

Kohei Saito e o Marx ecológico

Professor da Universidade de Tóquio, Saito lançou no Brasil O capital no Antropoceno pela Boitempo, em 2024. O livro saiu no Japão em 2020 e passou de 500 mil exemplares vendidos pelo mundo, segundo a apresentação de uma entrevista dele à DW reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos em novembro de 2024. Nela, Saito ataca uma leitura de Marx comum na esquerda, a de que as novas tecnologias e as forças produtivas criariam uma sociedade melhor, “onde todos podem ser como capitalistas, sem exploração, mas com o mesmo padrão de consumo”.

Ele também desconfia do plano verde dos países ricos. Prevê mais extração de lítio na América Latina e diz, sobre o Green New Deal americano, que o modelo “não é algo universalizável para que todos possam ser como os americanos”. Sobre os países pobres, é direto: “Obviamente, os países pobres precisam de mais desenvolvimento”. No Brasil, cita estradas, eletricidade e água.

O que os aceleracionistas respondem

A resposta mais frontal veio do investidor Marc Andreessen. No Manifesto Tecno-Otimista, de 16 de outubro de 2023, ele escreve que o inimigo é “deceleration, de-growth, depopulation”. O texto pede que a humanidade ponha inteligência e energia num ciclo de realimentação e leve as duas ao infinito. Para a parte ambiental, Andreessen chama a fissão nuclear de “silver bullet” e afirma, no texto publicado pela a16z, que a emissão de carbono por americano é menor hoje do que há cem anos.

A afirmação confere, com uma ressalva. Pelos dados do Our World in Data, cada americano emitiu 17,6 toneladas de CO2 em 1923 e 14,3 toneladas em 2023. Só que no meio houve um pico de 22,2 toneladas em 1973, e o número atual ainda é três vezes o de um britânico.

O manifesto atribui a Nick Land a expressão “máquina tecnocapital”, o motor de criação material, crescimento e abundância. O texto diz acreditar no aceleracionismo, definido como a propulsão consciente e deliberada do desenvolvimento tecnológico (tradução livre), e cita @BasedBeffJezos, o perfil de Guillaume Verdon, entre os autores que o leitor deve ler para virar tecno-otimista. Na lógica do manifesto, a tecnologia é a solução da degradação ambiental, e frear o crescimento seria abrir mão dela.

A esquerda aceleracionista chega a outro lugar. Nick Srnicek e Alex Williams, autores do Manifesto Aceleracionista, pedem automação total da produção e renda básica universal no livro Inventing the Future, de 2015. Na resenha da Los Angeles Review of Books, Ian Lowrie registra a crítica feita aos dois: eles insistem que o futuro pós-trabalho é ecológico, mas quase não refletem sobre a extração pesada que sustenta a microeletrônica. É a mesma objeção de Saito sobre o lítio.

Dá para crescer e cortar emissões ao mesmo tempo?

Essa é a pergunta que separa os dois lados, e os dados ajudam a medir a distância. A tabela cruza o PIB por pessoa do Maddison Project com as emissões de CO2 de combustíveis fósseis e indústria por pessoa, as duas séries publicadas pelo Our World in Data. A série de emissões conta o que é queimado dentro do país e não inclui desmatamento.

PaísPIB por pessoa, 1973PIB por pessoa, 2022CO2 por pessoa, 1973CO2 por pessoa, 2022
Reino Unido19.16838.40711,7 t4,6 t
Estados Unidos26.60258.48722,2 t14,8 t
Brasil6.08614.6401,3 t2,3 t

O PIB britânico por pessoa dobrou em 49 anos, em dólares internacionais de 2011, enquanto a emissão por pessoa caiu 61%. É o que os economistas chamam de desacoplamento. Hannah Ritchie, do Our World in Data, mostrou em 2021 que vários países ricos cortaram emissões e cresceram ao mesmo tempo, mesmo contando o carbono embutido no que importam, entre eles França, Alemanha, Suécia e Itália. Ela própria resume o ponto em aberto: “A key question is whether we can decarbonize fast enough”.

Os dois lados, portanto, aceitam que o desacoplamento existe. A briga é sobre a velocidade. Vogel e Hickel calculam que a taxa precisaria ficar dez vezes maior até 2025 para cumprir o Acordo de Paris, o que eles consideram fora de alcance com crescimento. Andreessen conta com a fissão nuclear para fechar a conta.

A inteligência artificial pôs um peso novo nessa balança. A Agência Internacional de Energia projetou, em abril de 2025, que o consumo de eletricidade dos data centers mais que dobra até 2030 e chega a cerca de 945 terawatts-hora, um pouco mais do que o Japão inteiro consome hoje. Para quem quer acelerar, é demanda que justifica construir usinas. Para quem quer decrescer, é exatamente o tipo de expansão que a transição não comporta.

Os pontos em que as duas ideias se encontram

O primeiro é a jornada. Latouche quer converter produtividade em tempo livre, Hickel cita a semana de quatro dias na Nature, e Srnicek e Williams falam em fim do trabalho. É a mesma aposta que John Maynard Keynes fez em 1930, quando previu a semana de 15 horas para os netos. A divergência está no caminho: menos consumo para uns, mais automação para outros.

O segundo ponto é mais curioso. Saito acusa o capitalismo verde de praticar “mais exploração forçada sob o nome de ESG”. Andreessen põe o ESG e a “sustainability” na lista de ideias que acusa de desmoralizar a tecnologia. As duas pontas do debate rejeitam a agenda ambiental das grandes empresas, uma porque a acha pouco ambiciosa e outra porque a acha um freio.

A leitura da Aceleração Eficaz é que, no Brasil, o confronto chega trocado. Os próprios autores do decrescimento isentam países como o nosso: a emissão por brasileiro é de 2,3 toneladas, menos de um sexto da americana, e a renda por pessoa equivale a 38% da britânica pelo Maddison. A disputa que interessa aqui é sobre a fonte da energia e sobre quem fica com as horas que a tecnologia libera. A ponta mais tecnófila do debate, que Andreessen cita no manifesto, aparece no texto sobre o aceleracionismo efetivo, o e/acc.

O próximo encontro público das duas visões tem data marcada. A COP31, conferência do clima da ONU, acontece em Antália, na Turquia, de 9 a 20 de novembro de 2026, segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. A página informa que a presidência turca vai trabalhar em parceria com a Austrália, num arranjo combinado entre os dois países.

Perguntas frequentes

O que é decrescimento econômico?

É uma corrente de pensamento que defende reduzir de forma planejada a produção e o consumo de energia e materiais nas economias ricas, com redistribuição de renda e serviços públicos para manter o bem-estar. Os autores do movimento dizem que o objetivo é viver melhor com menos, e não provocar recessão. A meta principal deixa de ser o aumento do PIB e passa a ser saúde, tempo livre e emissões menores.

Decrescimento é a mesma coisa que recessão?

Não, segundo os próprios defensores. Uma recessão é uma queda do PIB que ninguém escolheu, com demissões e corte de receita do governo. O decrescimento seria uma redução decidida e planejada, concentrada em setores de alto consumo de energia e materiais, com proteção de emprego por meio da divisão do trabalho e de jornadas menores. Os críticos respondem que ninguém sabe fazer isso numa economia de mercado sem provocar recessão.

Quais livros sobre decrescimento existem em português?

Dois títulos centrais têm edição brasileira. O Pequeno tratado do decrescimento sereno, de Serge Latouche, saiu pela WMF Martins Fontes em 2009. O capital no Antropoceno, de Kohei Saito, saiu pela Boitempo em 2024. Less Is More, de Jason Hickel, só foi localizado na edição original em inglês, lançada pela Penguin em 2020. Para começar, a resenha de Latouche publicada na revista Sociedade e Estado, da UnB, está aberta na internet.

O decrescimento vale para o Brasil?

A maioria dos autores diz que não, ou não do mesmo jeito. Latouche considera que, para os países do Sul, reduzir a pegada ecológica e o PIB não é necessário nem desejável, e Saito afirma que os países pobres precisam de mais desenvolvimento, citando estradas, eletricidade e água no Brasil. O alvo do movimento é o consumo dos países ricos e das camadas mais ricas dentro de cada país, o que inclui uma parte da população brasileira.

Fontes

  1. Resenha de Pequeno tratado do decrescimento sereno, de Serge Latouche · Sociedade e Estado (SciELO), Felipe E. Rodríguez Arancibia, UnB, 2012
  2. Crise climática não se resolve com mais capitalismo. Entrevista com Kohei Saito · Instituto Humanitas Unisinos, a partir de entrevista à DW, novembro de 2024
  3. Less Is More: How Degrowth Will Save the World · Penguin, Jason Hickel, 2020
  4. Degrowth can work: here's how science can help · Nature 612, Hickel e coautores, 12 de dezembro de 2022
  5. Is green growth happening? An empirical analysis of achieved versus Paris-compliant CO2-GDP decoupling in high-income countries · The Lancet Planetary Health, Jefim Vogel e Jason Hickel, setembro de 2023
  6. Many countries have decoupled economic growth from CO2 emissions, even if we take offshored production into account · Our World in Data, Hannah Ritchie, 2021
  7. Per capita CO2 emissions · Our World in Data
  8. GDP per capita, Maddison Project Database · Our World in Data
  9. AI is set to drive surging electricity demand from data centres · Agência Internacional de Energia, 10 de abril de 2025
  10. The Techno-Optimist Manifesto · a16z, Marc Andreessen, 16 de outubro de 2023
  11. On Algorithmic Communism · Los Angeles Review of Books, Ian Lowrie, 2016
  12. The Limits to Growth · Club of Rome, 1972
  13. 2026 UN Climate Change Conference COP31 · UNCCD

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